VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Leia e pense...

O maior sofrimento como a maior felicidade nascem do amor.
                                                     (Leoni Kaseff)
ETERNO ABRAÇO 

Helena. Bela e doce Helena. Encantou-me assim que a vi de pé em frente à janela, as mãos delicadas apoiadas no parapeito. Sua pele pálida, seus longos e ondulados cabelos negros e seus olhos castanhos e expressivos me cativaram. Ah, aqueles olhos! Encontraram os meus e demonstraram o que parecia ser surpresa, então, se esboçou em seus delicados lábios um sorriso tímido. Naquele momento meu coração fez-se escravo do seu.
Era seu décimo sétimo aniversário. Minha família, por ser conhecida da família dela compareceu. Eu acabara de chegar de viagem, e fui convidado a ir com eles à comemoração, em mais uma tentativa de minha mãe para animar-me.
─ Desejo-lhe vida longa senhorita. – eu disse, fazendo uma pequena reverência e depois beijando sua mão.
─ Agradeço-lhe cavalheiro.
Depois disso, mal nos falamos, mas nossos olhares se cruzavam a cada instante. Nos dias seguintes, passamos a nos encontrar às escondidas. Ela era cheia de vida, pura, inocente e curiosa como uma criança.
Eram muitas as vezes em que eu tinha que pedir para que ela andasse um pouco mais devagar, para que eu não me esforçasse muito. Eu, ao contrário dela, era enfermo e quando não estava em sua companhia, encontrava-me deitado na cama, tão fraco que não aguentava nem andar. A verdade era que, essas longas caminhadas que compartilhávamos me tiravam as forças, deixando-me cansado e fazendo-me ficar em repouso pelo resto do dia. Mas eu não me importava, se fosse para vê-la eu continuaria cansado.
Pouco a pouco, minha doença foi se agravando e quando o médico disse que eu teria pouco tempo de vida, resolvi não contar a ela, para que não vivêssemos esses últimos momentos rondados pelo medo. Porém, outra má notícia se anunciou: Helena seria desposada dali à apenas dois dias, pois, já havia sido prometida a outro homem sem que soubesse e, agora, teria de se casar.
Ao ouvir essa trágica notícia uma tristeza pesada como chumbo se depositou em meu coração e uma onda de tosse me invadiu. A preocupação fez-se evidente nos olhos de Helena, que me abraçou e, pouco a pouco, fez com que eu me acalmasse. Aninhada em meus braços ela tinha uma das mãos entrelaçada na minha e, apertava com força os olhos fechados, como se doesse fisicamente saber que em breve nos separaríamos. Como se quisesse que aquele abraço durasse eternamente.
Na tarde seguinte, nos encontramos e percebi que Helena havia se isolado, talvez para ignorar a dor. Disse a ela que não poderia lhe oferecer muito por causa da minha doença, mas que poderíamos fugir. Ela abaixou a cabeça fazendo cair as lágrimas que lhe brotavam dos olhos e, disse que não tinha o direito de fazer com que eu me sujeitasse a tão grande sacrifício. Depois, me olhou com uma tristeza desesperadora nos olhos, me pediu perdão e sussurrou: 
            ─ Não.
 E se foi, correndo e soluçando, deixando-me ali, nos braços da Morte.

                                                           Autor: Fernanda Coutinho

sábado, 18 de agosto de 2012

Leia e pense...

Teu corpo combina com meu jeito, nós dois fomos feitos muito pra nós dois.
                                                                   (Caetano Veloso)

Algumas coisas não precisam fazer sentido, basta valer a pena.
                                                                   (Renato Russo)
À FLOR DA PELE

Ele vestiu-se devagar. Talvez, tentando disfarçar o desapontamento consigo mesmo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele, sempre tão viril, tão másculo, não conseguia mais sentir prazer com outras mulheres desde que a conhecera, que a tocara. Um encontro casual, uma conversa trivial sobre a superlotação do metrô. O contato físico forçado pelo rush, o cruzamento de olhares, a rouca suavidade da voz, o toque das peles, a excitação e o latejar do corpo, a troca de telefones. O segundo encontro, desta vez, sem acaso. Horas de conversa, de sorrisos, de identificação, de sintonia. No encontro das mãos, a certeza da química, a prova do toque. No beijo um sabor novo, único, mas estranhamente já conhecido. Sabor de si próprio.
Não tiveram pressa. Concordaram telepaticamente em aproveitar cada fase, pois, sabiam que a amizade e a cumplicidade já existentes, logo se mesclariam em intimidade. E assim foi. Em uma noite à sós, depois do jantar à luz de velas, da conversa sempre agradável, do toque que alcançava a alma e dos beijos atemporais, entregaram-se e deixaram-se descobrir. Intimidade, desejos e segredos vieram à tona, mas todo segredo é composto por uma dose de sedução e outra de maldição.
E era essa maldição que agora o perseguia. Ele tentava de todas as maneiras, esquecê-la em outros braços, outras bocas, outros corpos, mas faltava o toque, a química, o arrepio à flor da pele, que só com ela sentira. Seus pensamentos, seus sonhos e seus desejos eram todos destinados a ela. O sedutor irresistível dera lugar ao seduzido amaldiçoado.
Não sabendo mais o que fazer, nem como resistir, foi procurá-la. Apenas o silêncio, quando ela abriu a porta. Ele levantou a cabeça detendo-se nos olhos dela.
            ─ Não posso mais ficar longe de você. Você é, e sempre será a mulher da minha vida.
            ─ Eu sou e sempre serei uma mulher. Uma mulher aprisionada em um corpo masculino, mas sempre uma mulher. Sua mulher.
            ─ Seu segredo será nosso segredo, minha mulher.
Ele deu um passo e fechou a porta, deixando do lado de fora a dúvida, o medo, o preconceito. Abraçaram-se, e no abraço trocaram o único e verdadeiro sentimento que havia entre eles: amor.

                                                               Autor : Cicero Fernando Coutinho

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Leia e pense...

A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente.
                                     (Henry Kissinger)
FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS

A escuridão, a umidade e o fedor só intensificavam as dores que ela sentia. Não tinha a mínima idéia de onde estava, mas sabia que precisava sair dali com urgência. Seu corpo inteiro ardia. Deitada, olhando para a escuridão, começou a lembrar-se de tudo. Do porquê de estar agora ali. Espancada, violentada e quase estrangulada. Mais uma vítima de palavras doces, de insistentes olhares de desejo e de sorrisos disfarçados. Deixara-se seduzir por um príncipe encantado e, quase morrera nas mãos de um maníaco no cio. Por sorte, ele cometera um erro ao pensar que a havia matado quando ela desmaiou. Tentando reunir forças para levantar-se, ela sentiu algo cair sobre sua barriga e começar a caminhar. Tateando, descobriu tratar-se de um rato. O pavor a fez virar-se, mas sem forças, acabou rolando para baixo, caindo de bruços em uma fétida poça. Rastejou alguns metros, desmaiando em seguida.
O menino entrou correndo e gritando:
            ─ Pai, tem uma mulher morta lá perto do terreno do lixo. Ela tava morta, mas quando eu cheguei perto ela tossiu.
            ─ Calma Pedrinho. Que negócio é esse de tava morta e tossiu?
            ─ Foi sim, pai. Ela tá lá, toda suja e com sangue na boca e tossiu quando eu cheguei perto dela.
            ─ Vamos lá rápido. Se ela tossiu é por que ainda tá viva.
Com a ajuda do filho, a velha senhora limpava com uma toalha o corpo sujo e ensanguentado da moça.
            ─ Coitada. Bateram muito nela. E pelas marcas no pescoço, tentaram enforcar ela também.
            ─ Será que foi os cabeça lá do morro? Será que ela não tava devendo pra eles? ─ perguntou o rapaz enquanto passava outra toalha para a mãe.
            ─ Não sei, mas é melhor falar com o Pedrinho para não sair falando com ninguém sobre ela. ─ respondeu a velha.
            ─ Isso eu já falei. Ele prometeu que não vai falar pra ninguém.
            ─ Ela só vai precisar de uns dia, depois que ela melhorar, a gente manda ela embora.
Deitada, ela olhava para o teto. Um olhar parado, quase sem vida. Por mais que tentasse esquecer, as imagens vinham automaticamente, não havia como evitá-las. Quando dormindo, sonhava; quando acordada, pensava. E sempre, acompanhando os sonhos ou os pensamentos, estavam as imagens. Revia e sentia tudo, cada momento, cada galanteio, cada troca de olhares, o espancamento, o abuso sexual, as mãos apertando seu pescoço. Sentia-se mal por ter sido tão fácil, por não ter sabido evitar. O mal estar transformava-se em raiva, mais que raiva, em ódio quando lembrava que havia sido jogada no lixo. Usada e jogada no lixo.
            ─ E aí, moça? Você já tá em condições de ir embora? Fica aí o tempo todo olhando pro teto. Não fala nada, só chora. Nós não podemos ficar com você aqui por muito tempo. ─ disse a velha enquanto ajudava-a a sentar-se e dava-lhe um prato de arroz com feijão e ovo cozido.
Ela comeu sob o olhar silencioso da velha, perguntando ao terminar:
            ─ Há quantos dias estou aqui?
            ─ Até que enfim! Pensei que nunca fosse falar. Dez dias que você tá aqui. Meu neto que te viu lá no lixo e meu filho te trouxe pra cá, escondida no carrinho do Chico do papelão. Mas, me diz o que aconteceu com você. Comprou droga lá no morro e não pagou?
            ─ Não, claro que não. Foi um homem que conheci há alguns meses. Uma grande besteira que fiz. Comecei a sair com ele, mesmo sabendo que era casado. Começou com algumas trocas de olhares, depois ele aproximou-se e disse que me achava bonita, atraente, essas coisas que toda mulher gosta de ouvir.
            ─ E que todo homem gosta de falar até conseguir o que quer. ─ completou a velha.
            ─ É. Eu não tinha essa visão. Até gostava de ser elogiada, desejada, de ver os homens interessados em mim, me disputando. Mas, nesses dias que estive aqui deitada, pude pensar um pouco na minha vida e, concluí que contribuí muito mais do que imaginava para o fim do meu casamento. Meu ex-marido sempre dizia que eu dava muita abertura para os homens me falarem gracejos, e eu sempre rebatia dizendo que ele estava vendo demais, que o ciúme o estava fazendo imaginar coisas. Agora vejo, que na verdade, eu estava iludindo era a mim mesma. Infelizmente, só percebi isso depois de ter sido espancada, violentada, estrangulada e jogada no lixo. Usada e jogada no lixo como uma coisa qualquer.
            ─ Eu não fui estrangulada nem jogada no lixo, mas também fui espancada e violentada. Mais de uma vez, até. Eu era mais nova, que nem você. Aí, um dia eu fiquei grávida. O pai do meu filho era da polícia. Quando falei com ele que estava grávida, ele me espancou e nunca mais me procurou. Mas Deus não quis que eu perdesse a criança. Criei meu filho sozinha, fazendo unha e cabelo. E você? Tá grávida?
            ─ Não, claro que não.
            ─ Então, porque ele fez isso com você?
            ─ Porque descobri que eu não era a única amante dele, era apenas mais uma. Nós discutimos, e ele disse que, eu que me insinuei pra ele com olhares. Que eu tinha dado mole e ele só fez o que todo homem faria. Fez o que tinha que ser feito. O que eu havia pedido com meus olhares. Nervosa, dei um tapa nele. Então, ele me espancou, depois me violentou e antes de me estrangular falou no meu ouvido: "Pra você aprender que, homem que é homem, faz o que tem que ser feito e não olha pra trás."
Ela começou a chorar, enquanto a velha levantava-se e recolhia o prato, dizendo antes de sair do pequeno quarto:
            ─ Depois do que aconteceu comigo, eu não olhei mais pra trás, não olhei mais pro meu passado. E acho que você devia fazer a mesma coisa.
Diante do espelho ela finalmente sorriu ao ver seu novo visual. Os cabelos bem curtos e as sobrancelhas desenhadas combinavam com a maquiagem, a deixando com um ar mais sério.
            ─ Ficou muito bom. A senhora deveria montar um salão na zona sul, para ganhar mais dinheiro. Quase não estou me reconhecendo.
            ─ Obrigado, mas acho que você não vai se reconhecer se continuar com essa idéia maluca de ir atrás dele.
            ─ Mais cedo ou mais tarde, vamos nos encontrar. Eu só vou adiantar o encontro. Vou tomar cuidado, só preciso saber como vou reagir ao vê-lo.
            ─ Você devia ter ido prestar queixa na polícia, isso sim.
            ─ Não. Isso é entre eu e ele.
Não podia ter sido mais fácil. Bastou procurar nos lugares onde os dois costumavam ir, para que ela o encontrasse. Lá estava ele, acompanhado de outra mulher, como sempre educado, falando baixo, olhando nos olhos, sorrindo, encantando mais uma. Mais uma que poderia terminar jogada no lixo. Observando os dois, sentia seu coração bater acelerado, compreendendo naquele momento que, assim como o amor, o ódio também nascia nas batidas do coração. Agradeceu a sorte, quando após atender ao telefone celular, a mulher retirou-se deixando-o sozinho na mesa. Ele permaneceu bebendo por mais uma hora, saindo depois de esvaziar a última de muitas garrafas de cerveja. Ao chegar ao estacionamento, ele demorou um pouco para abrir a porta do carro, sendo surpreendido por ela.
            ─ Lembra de mim, desgraçado? ─ disse, empurrando-o para dentro do carro enquanto o ameaçava com uma pequena pistola.
Ela entrou pela porta traseira, sentando-se atrás dele.
            ─ Então, você tá mesmo viva, né sua piranha? Eu desconfiei quando não vi nada sobre você nos jornais. Mas foi bom você aparecer. Eu não gosto de deixar nada mal feito, pela metade.  O que você quer? Ir pro motel comigo?
            ─ Dirige e cala essa boca seu verme. Vamos lá pro lixão onde você me jogou.
Calado e olhando para ela pelo retrovisor, ele obedeceu. Já na estrada, percebendo o nervosismo dela, ele foi aos poucos, aumentando a velocidade. Ao aproximar-se de uma curva, freou bruscamente. Com a freada ela foi impulsionada para frente deixando escapulir de sua mão a pistola. Ele acelerou enquanto se inclinava para o lado, tentando pegar a pistola que caíra na frente do banco do carona. Ela então jogou-se para frente, segurando e puxando o braço dele para trás. Em alta velocidade percorreram mais um trecho da estrada, até que, em outra curva ele perdeu a direção. Capotando, o carro invadiu o acostamento em declive. A porta traseira abriu-se, projetando-a para fora carro. Mesmo tendo sofrido vários cortes e com fortes dores, ela conseguiu levantar-se e caminhar até o carro que caíra, alguns metros a frente, completamente destruído. Preso entre as ferragens, com o sangue a escorrer-lhe pela face, ele olhou para ela.
            ─ Tá vendo a merda que você fez? Me ajude a sair daqui sua vagabunda. Anda logo. 
Após um pequeno estouro no motor, o carro começou a incendiar-se. Sem conseguir se mexer, ele gritou:
            ─ Porra, me tira daqui, sua piranha. Depois que tudo isso passar eu te dou um trato. Do jeito que você gosta. ME TIRA DAQUI SUA VAGABUNDA, SUA FILHA da...
Sob o clarão das labaredas, ela virou-se e, com passos lentos, começou a se afastar.
Ela não olhou para trás.

                                             Autor: Cicero Fernando da S. Coutinho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Leia e pense...

Toda a carne tem cegueiras de desejos a quem ninguém pode resistir.
                         (Albino Forjaz de Sampaio)