À FLOR DA PELE
Ele vestiu-se devagar. Talvez, tentando disfarçar o desapontamento consigo mesmo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele, sempre tão viril, tão másculo, não conseguia mais sentir prazer com outras mulheres desde que a conhecera, que a tocara. Um encontro casual, uma conversa trivial sobre a superlotação do metrô. O contato físico forçado pelo rush, o cruzamento de olhares, a rouca suavidade da voz, o toque das peles, a excitação e o latejar do corpo, a troca de telefones. O segundo encontro, desta vez, sem acaso. Horas de conversa, de sorrisos, de identificação, de sintonia. No encontro das mãos, a certeza da química, a prova do toque. No beijo um sabor novo, único, mas estranhamente já conhecido. Sabor de si próprio.
Não tiveram pressa. Concordaram telepaticamente em aproveitar cada fase, pois, sabiam que a amizade e a cumplicidade já existentes, logo se mesclariam em intimidade. E assim foi. Em uma noite à sós, depois do jantar à luz de velas, da conversa sempre agradável, do toque que alcançava a alma e dos beijos atemporais, entregaram-se e deixaram-se descobrir. Intimidade, desejos e segredos vieram à tona, mas todo segredo é composto por uma dose de sedução e outra de maldição.
E era essa maldição que agora o perseguia. Ele tentava de todas as maneiras, esquecê-la em outros braços, outras bocas, outros corpos, mas faltava o toque, a química, o arrepio à flor da pele, que só com ela sentira. Seus pensamentos, seus sonhos e seus desejos eram todos destinados a ela. O sedutor irresistível dera lugar ao seduzido amaldiçoado.
Não sabendo mais o que fazer, nem como resistir, foi procurá-la. Apenas o silêncio, quando ela abriu a porta. Ele levantou a cabeça detendo-se nos olhos dela.
─ Não posso mais ficar longe de você. Você é, e sempre será a mulher da minha vida.
─ Eu sou e sempre serei uma mulher. Uma mulher aprisionada em um corpo masculino, mas sempre uma mulher. Sua mulher.
─ Seu segredo será nosso segredo, minha mulher.
Ele deu um passo e fechou a porta, deixando do lado de fora a dúvida, o medo, o preconceito. Abraçaram-se, e no abraço trocaram o único e verdadeiro sentimento que havia entre eles: amor.
Autor : Cicero Fernando Coutinho
Final que me surpreendeu. Gostei da forma como colocou: "uma mulher aprisionada num corpo masculino".
ResponderExcluirmais um texto instigante.
saudade dos seus textos.
beijos.
Gostei mesmo!
ResponderExcluirParabéns! :)
Eu havia visto seu link no skoob, mas só agora tive tempo de sentar e vir ler com calma.
ResponderExcluirQuanto tempo perdido... rapaz, você escreve muito bem!!!
Você realmente escreve muito bem. Adorei! Parabéns!
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