VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

sábado, 18 de agosto de 2012

À FLOR DA PELE

Ele vestiu-se devagar. Talvez, tentando disfarçar o desapontamento consigo mesmo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele, sempre tão viril, tão másculo, não conseguia mais sentir prazer com outras mulheres desde que a conhecera, que a tocara. Um encontro casual, uma conversa trivial sobre a superlotação do metrô. O contato físico forçado pelo rush, o cruzamento de olhares, a rouca suavidade da voz, o toque das peles, a excitação e o latejar do corpo, a troca de telefones. O segundo encontro, desta vez, sem acaso. Horas de conversa, de sorrisos, de identificação, de sintonia. No encontro das mãos, a certeza da química, a prova do toque. No beijo um sabor novo, único, mas estranhamente já conhecido. Sabor de si próprio.
Não tiveram pressa. Concordaram telepaticamente em aproveitar cada fase, pois, sabiam que a amizade e a cumplicidade já existentes, logo se mesclariam em intimidade. E assim foi. Em uma noite à sós, depois do jantar à luz de velas, da conversa sempre agradável, do toque que alcançava a alma e dos beijos atemporais, entregaram-se e deixaram-se descobrir. Intimidade, desejos e segredos vieram à tona, mas todo segredo é composto por uma dose de sedução e outra de maldição.
E era essa maldição que agora o perseguia. Ele tentava de todas as maneiras, esquecê-la em outros braços, outras bocas, outros corpos, mas faltava o toque, a química, o arrepio à flor da pele, que só com ela sentira. Seus pensamentos, seus sonhos e seus desejos eram todos destinados a ela. O sedutor irresistível dera lugar ao seduzido amaldiçoado.
Não sabendo mais o que fazer, nem como resistir, foi procurá-la. Apenas o silêncio, quando ela abriu a porta. Ele levantou a cabeça detendo-se nos olhos dela.
            ─ Não posso mais ficar longe de você. Você é, e sempre será a mulher da minha vida.
            ─ Eu sou e sempre serei uma mulher. Uma mulher aprisionada em um corpo masculino, mas sempre uma mulher. Sua mulher.
            ─ Seu segredo será nosso segredo, minha mulher.
Ele deu um passo e fechou a porta, deixando do lado de fora a dúvida, o medo, o preconceito. Abraçaram-se, e no abraço trocaram o único e verdadeiro sentimento que havia entre eles: amor.

                                                               Autor : Cicero Fernando Coutinho

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Leia e pense...

A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente.
                                     (Henry Kissinger)
FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS

A escuridão, a umidade e o fedor só intensificavam as dores que ela sentia. Não tinha a mínima idéia de onde estava, mas sabia que precisava sair dali com urgência. Seu corpo inteiro ardia. Deitada, olhando para a escuridão, começou a lembrar-se de tudo. Do porquê de estar agora ali. Espancada, violentada e quase estrangulada. Mais uma vítima de palavras doces, de insistentes olhares de desejo e de sorrisos disfarçados. Deixara-se seduzir por um príncipe encantado e, quase morrera nas mãos de um maníaco no cio. Por sorte, ele cometera um erro ao pensar que a havia matado quando ela desmaiou. Tentando reunir forças para levantar-se, ela sentiu algo cair sobre sua barriga e começar a caminhar. Tateando, descobriu tratar-se de um rato. O pavor a fez virar-se, mas sem forças, acabou rolando para baixo, caindo de bruços em uma fétida poça. Rastejou alguns metros, desmaiando em seguida.
O menino entrou correndo e gritando:
            ─ Pai, tem uma mulher morta lá perto do terreno do lixo. Ela tava morta, mas quando eu cheguei perto ela tossiu.
            ─ Calma Pedrinho. Que negócio é esse de tava morta e tossiu?
            ─ Foi sim, pai. Ela tá lá, toda suja e com sangue na boca e tossiu quando eu cheguei perto dela.
            ─ Vamos lá rápido. Se ela tossiu é por que ainda tá viva.
Com a ajuda do filho, a velha senhora limpava com uma toalha o corpo sujo e ensanguentado da moça.
            ─ Coitada. Bateram muito nela. E pelas marcas no pescoço, tentaram enforcar ela também.
            ─ Será que foi os cabeça lá do morro? Será que ela não tava devendo pra eles? ─ perguntou o rapaz enquanto passava outra toalha para a mãe.
            ─ Não sei, mas é melhor falar com o Pedrinho para não sair falando com ninguém sobre ela. ─ respondeu a velha.
            ─ Isso eu já falei. Ele prometeu que não vai falar pra ninguém.
            ─ Ela só vai precisar de uns dia, depois que ela melhorar, a gente manda ela embora.
Deitada, ela olhava para o teto. Um olhar parado, quase sem vida. Por mais que tentasse esquecer, as imagens vinham automaticamente, não havia como evitá-las. Quando dormindo, sonhava; quando acordada, pensava. E sempre, acompanhando os sonhos ou os pensamentos, estavam as imagens. Revia e sentia tudo, cada momento, cada galanteio, cada troca de olhares, o espancamento, o abuso sexual, as mãos apertando seu pescoço. Sentia-se mal por ter sido tão fácil, por não ter sabido evitar. O mal estar transformava-se em raiva, mais que raiva, em ódio quando lembrava que havia sido jogada no lixo. Usada e jogada no lixo.
            ─ E aí, moça? Você já tá em condições de ir embora? Fica aí o tempo todo olhando pro teto. Não fala nada, só chora. Nós não podemos ficar com você aqui por muito tempo. ─ disse a velha enquanto ajudava-a a sentar-se e dava-lhe um prato de arroz com feijão e ovo cozido.
Ela comeu sob o olhar silencioso da velha, perguntando ao terminar:
            ─ Há quantos dias estou aqui?
            ─ Até que enfim! Pensei que nunca fosse falar. Dez dias que você tá aqui. Meu neto que te viu lá no lixo e meu filho te trouxe pra cá, escondida no carrinho do Chico do papelão. Mas, me diz o que aconteceu com você. Comprou droga lá no morro e não pagou?
            ─ Não, claro que não. Foi um homem que conheci há alguns meses. Uma grande besteira que fiz. Comecei a sair com ele, mesmo sabendo que era casado. Começou com algumas trocas de olhares, depois ele aproximou-se e disse que me achava bonita, atraente, essas coisas que toda mulher gosta de ouvir.
            ─ E que todo homem gosta de falar até conseguir o que quer. ─ completou a velha.
            ─ É. Eu não tinha essa visão. Até gostava de ser elogiada, desejada, de ver os homens interessados em mim, me disputando. Mas, nesses dias que estive aqui deitada, pude pensar um pouco na minha vida e, concluí que contribuí muito mais do que imaginava para o fim do meu casamento. Meu ex-marido sempre dizia que eu dava muita abertura para os homens me falarem gracejos, e eu sempre rebatia dizendo que ele estava vendo demais, que o ciúme o estava fazendo imaginar coisas. Agora vejo, que na verdade, eu estava iludindo era a mim mesma. Infelizmente, só percebi isso depois de ter sido espancada, violentada, estrangulada e jogada no lixo. Usada e jogada no lixo como uma coisa qualquer.
            ─ Eu não fui estrangulada nem jogada no lixo, mas também fui espancada e violentada. Mais de uma vez, até. Eu era mais nova, que nem você. Aí, um dia eu fiquei grávida. O pai do meu filho era da polícia. Quando falei com ele que estava grávida, ele me espancou e nunca mais me procurou. Mas Deus não quis que eu perdesse a criança. Criei meu filho sozinha, fazendo unha e cabelo. E você? Tá grávida?
            ─ Não, claro que não.
            ─ Então, porque ele fez isso com você?
            ─ Porque descobri que eu não era a única amante dele, era apenas mais uma. Nós discutimos, e ele disse que, eu que me insinuei pra ele com olhares. Que eu tinha dado mole e ele só fez o que todo homem faria. Fez o que tinha que ser feito. O que eu havia pedido com meus olhares. Nervosa, dei um tapa nele. Então, ele me espancou, depois me violentou e antes de me estrangular falou no meu ouvido: "Pra você aprender que, homem que é homem, faz o que tem que ser feito e não olha pra trás."
Ela começou a chorar, enquanto a velha levantava-se e recolhia o prato, dizendo antes de sair do pequeno quarto:
            ─ Depois do que aconteceu comigo, eu não olhei mais pra trás, não olhei mais pro meu passado. E acho que você devia fazer a mesma coisa.
Diante do espelho ela finalmente sorriu ao ver seu novo visual. Os cabelos bem curtos e as sobrancelhas desenhadas combinavam com a maquiagem, a deixando com um ar mais sério.
            ─ Ficou muito bom. A senhora deveria montar um salão na zona sul, para ganhar mais dinheiro. Quase não estou me reconhecendo.
            ─ Obrigado, mas acho que você não vai se reconhecer se continuar com essa idéia maluca de ir atrás dele.
            ─ Mais cedo ou mais tarde, vamos nos encontrar. Eu só vou adiantar o encontro. Vou tomar cuidado, só preciso saber como vou reagir ao vê-lo.
            ─ Você devia ter ido prestar queixa na polícia, isso sim.
            ─ Não. Isso é entre eu e ele.
Não podia ter sido mais fácil. Bastou procurar nos lugares onde os dois costumavam ir, para que ela o encontrasse. Lá estava ele, acompanhado de outra mulher, como sempre educado, falando baixo, olhando nos olhos, sorrindo, encantando mais uma. Mais uma que poderia terminar jogada no lixo. Observando os dois, sentia seu coração bater acelerado, compreendendo naquele momento que, assim como o amor, o ódio também nascia nas batidas do coração. Agradeceu a sorte, quando após atender ao telefone celular, a mulher retirou-se deixando-o sozinho na mesa. Ele permaneceu bebendo por mais uma hora, saindo depois de esvaziar a última de muitas garrafas de cerveja. Ao chegar ao estacionamento, ele demorou um pouco para abrir a porta do carro, sendo surpreendido por ela.
            ─ Lembra de mim, desgraçado? ─ disse, empurrando-o para dentro do carro enquanto o ameaçava com uma pequena pistola.
Ela entrou pela porta traseira, sentando-se atrás dele.
            ─ Então, você tá mesmo viva, né sua piranha? Eu desconfiei quando não vi nada sobre você nos jornais. Mas foi bom você aparecer. Eu não gosto de deixar nada mal feito, pela metade.  O que você quer? Ir pro motel comigo?
            ─ Dirige e cala essa boca seu verme. Vamos lá pro lixão onde você me jogou.
Calado e olhando para ela pelo retrovisor, ele obedeceu. Já na estrada, percebendo o nervosismo dela, ele foi aos poucos, aumentando a velocidade. Ao aproximar-se de uma curva, freou bruscamente. Com a freada ela foi impulsionada para frente deixando escapulir de sua mão a pistola. Ele acelerou enquanto se inclinava para o lado, tentando pegar a pistola que caíra na frente do banco do carona. Ela então jogou-se para frente, segurando e puxando o braço dele para trás. Em alta velocidade percorreram mais um trecho da estrada, até que, em outra curva ele perdeu a direção. Capotando, o carro invadiu o acostamento em declive. A porta traseira abriu-se, projetando-a para fora carro. Mesmo tendo sofrido vários cortes e com fortes dores, ela conseguiu levantar-se e caminhar até o carro que caíra, alguns metros a frente, completamente destruído. Preso entre as ferragens, com o sangue a escorrer-lhe pela face, ele olhou para ela.
            ─ Tá vendo a merda que você fez? Me ajude a sair daqui sua vagabunda. Anda logo. 
Após um pequeno estouro no motor, o carro começou a incendiar-se. Sem conseguir se mexer, ele gritou:
            ─ Porra, me tira daqui, sua piranha. Depois que tudo isso passar eu te dou um trato. Do jeito que você gosta. ME TIRA DAQUI SUA VAGABUNDA, SUA FILHA da...
Sob o clarão das labaredas, ela virou-se e, com passos lentos, começou a se afastar.
Ela não olhou para trás.

                                             Autor: Cicero Fernando da S. Coutinho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Leia e pense...

Toda a carne tem cegueiras de desejos a quem ninguém pode resistir.
                         (Albino Forjaz de Sampaio)
CÍRCULO VICIOSO - Parte VI

Subjugada, Alice rendeu-se, entregou-se completamente ao desejo instintivo e incontrolável de Aquiles, que a possuiu furiosamente. Durante um longo tempo ele cavalgou-a, fazendo-a emitir gemidos e sons incompreensíveis em meio à contrações e espasmos de prazer. Em seguida, fez com que ela se ajoelhasse no chão, e inclinasse o corpo sobre a cama. Alice sentiu então, uma penetração vigorosa, profunda, que preencheu totalmente, sua carne, suas entranhas, atingindo seu ponto mais secreto e íntimo. Experimentando um prazer intenso e até então inconcebível, sua submissão e passividade foram dando lugar ao desejo despudorado de prazer e dominação. Ela deixou de pedir e passou a exigir que Aquiles lhe desse prazer e, a cada estocada, a cada centímetro de invasão, deliciava-se com as novas e intensas sensações que faziam seus músculos retraírem-se, sua pele arrepiar-se, levando-a a atingir um orgasmo tão intenso e prazeroso que a fez ter certeza de que não se tratava apenas de um orgasmo da carne, mas também da alma.
Ao sentir Alice estremecer de prazer, Aquiles segurou seus cabelos, preparando-se para o ato final e para a absorção de energia. Porém, antes que fizesse qualquer movimento, sentiu a cabeça de Alice pender pesada para o lado, enquanto ela desmaiava de prazer. Assustado, sentiu uma evasão de energia e teve dificuldade em interromper o coito. Vestiu-se rapidamente, deixando Alice desmaiada com metade do corpo sobre a cama e saiu silenciosamente.
O forte som do motor fez a menina correr até a janela na tentativa de ver o avião que chegava, sendo impedida pelo telhado verde, formado pela copa das árvores. Percebendo a curiosidade da menina, Elza puxou conversa.
            ─ Que correria é essa, menina? Parece que nunca viu um avião.
            ─ De pertinho nunca vi mesmo não. Só lá no alto do céu.
            ─ Se você me ajudar a fazer a comida, eu te levo pra ver os avião lá na pista do patrão.
            ─ Obaa! Leva de verdade dona Elza?
            ─ Claro que levo menina. Eu também gosto de ver aqueles avião, cada um mais bonito que o outro.
A menina apressou-se em lavar o arroz, enquanto Elza achava graça do seu entusiasmo. Havia se afeiçoado à pequena, que ainda exibia uma inocência infantil e, por isso, era tão valiosa para o seu patrão. Geraldo entrou na cozinha e arrancou uma banana d'água do cacho que estava sobre a mesa, descascando e colocando praticamente toda a banana na boca, sendo observado pela menina que ficara séria ao vê-lo.
            ─ Essa cabritinha fica me encarando de cara feia. Vê se pode isso, Elza? ─ disse Geraldo com a boca cheia e cuspindo. ─ Se não fosse a escolhida do patrão já tinha te amansado sua moleca atrevida.
            ─ Vai cuidar da sua vida, Geraldo. Quando a comida estiver pronta eu chamo você. Tá chegando um monte de gente e você sabe que o patrão não gosta de nada errado nesses dias.
            ─ Já tá tudo preparado, Elza. Só estou esperando as ordens dele. ─ respondeu ele, pegando mais uma banana antes de sair fazendo cara feia para a menina.
Em uma atitude de desafio, a menina olhou para ele de soslaio e apertou os olhos retribuindo a cara feia. Percebendo a coragem da pequena, Elza sorriu e comentou:
            ─ Mas onde já se viu?  Encarar o Geraldo desse jeito. Você não tem medo dele?
            ─ Eu não. Ele não é meu pai.
            ─ Pois devia. Todo mundo tem. Geraldo não é flor que se cheire. Devia ter nascido na época do cangaço.
Nesse momento mais um avião passou sobre a casa fazendo a menina sorrir para Elza.
Na sede da fazenda, Ronaldo Galdino recebia pessoalmente os convidados agradecendo a presença de todos. Na realidade seus convidados eram exatamente dez amigos, mas para cada um deles havia duas mulheres convidadas. Com comida e bebidas totalmente liberados, em pouco tempo praticamente todos estavam bêbados, principalmente as mulheres, que eram incentivadas ao consumo de álcool e drogas, para assim perderem a inibição. Mesmo sem consumir drogas, Júlia já bêbada, dançava e participava quase que inconscientemente das brincadeiras eróticas e, alguns copos depois da consequente orgia, assumindo assim, seu papel de bacante.  De madrugada, quando praticamente todos já haviam sucumbido ao cansaço, o avião trazendo Edna e Lúcio, aterrizou.  Sem demonstrar nenhum cansaço, ela dirigiu-se ao escritório onde Ronaldo a aguardava.
            ─ Entre Edna. Estava ansioso por sua chegada. Onde está o seu pastor alemão? ─ perguntou ironicamente, referindo-se a Lúcio.
            ─ Não vim até aqui para ouvir suas piadas, Ronaldo. Temos negócios a tratar. Sejamos diretos.
            ─ Tenho quatro meninas para você. Duas de catorze e duas de dezesseis. Amanhã você poderá vê-las. Mas quero fazer uma proposta.
            ─ E qual seria?
            ─ Você já deve ter percebido que amanhã iniciaremos mais uma jornada. Quero desafiar você e o Lúcio. Se o seu cãozi..., quer dizer, seu preferido, vencer, você as leva como parte do prêmio.
            ─ E se perdermos?
            ─ Você fica me devendo um favor.
            ─ Essa é boa. Acha mesmo que eu ficaria te devendo algo que nem imagino o que possa ser? Seja mais preciso se quiser um acordo.
            ─ Certo. Você não é tola e talvez já tenha percebido que há uma energia diferente no ar. Há outra como você, caminhando por aí. Eu a quero. Quero que você a encontre e a traga para mim. Ou vai querer que o seu reinado seja ameaçado?
Edna vislumbrou na proposta de Ronaldo, a chance de neutralizar de vez sua desconhecida rival. Como ele, em breve todos os lobos estariam a sua procura, o que poderia torná-la uma rival muito poderosa e perigosa, principalmente se fosse jovem.
            ─ Realmente, eu já desconfiava disso, mas você parece ter certeza. O que o leva a essa certeza?
            ─ A morte do lobo ancião. O mais velho de todos que caminhava por aqui, transferiu toda sua energia vital para uma jovem escolhida, antes de morrer. Isso aconteceu há um ano. E ela está por aí, solta, tendo que aprender sozinha a lidar com sua nova condição. Precisa de um mentor.
            ─ Um ano? E porque você ainda não a localizou?
            ─ Porque só fiquei sabendo de tudo isso, há três dias. E sei também que, encontrá-la, será muito mais fácil para você. Além de interessante.
            ─ Pretende usá-la nos seus rituais? Você não desiste mesmo, não é? Mas tudo bem, você me convenceu. Temos um acordo.
            ─ Sabia que você seria inteligente e aceitaria. Então, até amanhã, Edna, e que vença o melhor.
Chegando ao quarto, Edna encontrou Lúcio diante da ampla janela a observar a escuridão.
            ─ O que você está fazendo aí?
            ─ Esperando você. Há muitas aqui dessa vez. Posso sentir o cheiro de todas elas.
            ─ O Ronaldo quer todos os competidores bem atiçados. Ele me fez uma proposta. Se você vencer levamos as meninas como parte do prêmio.  Quatro ninfetas. Teremos um bom lucro com sua vitória.
Lúcio sorriu e aproximou-se de Edna, que já estava sem roupas, ajoelhando-se. Ela afagou seus cabelos e segurando em seu queixo o fez ficar de pé, beijando-o.
            ─ Venha querido, quero que você fique bem faminto. Em algumas horas você precisará de todo apetite e fúria que for capaz de conter.
Na manhã seguinte, ainda sofrendo os efeitos da bebedeira e do uso das drogas, o grupo foi convidado a participar de uma competição que premiaria a todos generosamente, com cinco mil reais, somente pela participação. E para os vencedores, caberia o prêmio maior de cem mil reais.  Os competidores seriam divididos em doze trios, compostos por um homem e duas mulheres, que seriam deixadas em pontos diferentes no interior da mata e, caberia ao homem descobrir a localização de cada uma das parceiras e depois reconduzi-las de volta.
            ─ É claro que não será fácil. Mas será divertido. Vocês terão que subir em árvores, mergulhar, nadar, descobrir trilhas e pistas na mata para poderem voltar. Mas garanto a vocês que tudo isso dentro da maior segurança. Não precisam se preocupar. ─ explicava Ronaldo ─ Sugiro que sejam espertos e dificultem a vida de seus adversários. Boa sorte a todos.
Em três pequenas lanchas, as mulheres, em grupos de oito, foram levadas pelo rio para os pontos onde cada uma seria deixada. Somente após o retorno das lanchas, os homens poderiam seguir a partir de um ponto pré-estabelecido.
Com exceção de Ronaldo e Lúcio, todos os homens não aparentavam boas condições, devido aos excessos da noite anterior. As lanchas retornaram e todos foram embarcados. Sem se falarem, Ronaldo e Lúcio seguiam na terceira lancha. Olhares furiosos se cruzavam num duelo de intimidação. Ao chegarem a uma bifurcação do rio as lanchas desligaram os motores para que todos pudessem mergulhar e, depois, continuar pelo interior da mata, a busca às mulheres. Mesmo tendo sido os últimos a mergulharem, em uma demonstração de incrível vigor físico, Ronaldo e Lúcio foram os primeiros a atingir a margem. E, antes de continuarem, silenciosamente trocaram um último olhar, que poderia ao mesmo tempo, ser de desafio ou respeito mútuo. Furiosos, famintos e sedentos, como uma matilha, todos se embrenharam na mata. Começava ali, uma caçada cruel e mortal.

                                             Autor: Cicero Fernando Coutinho

segunda-feira, 26 de março de 2012

Leia e pense...

Penso na morte menos do que ela pensa em mim.

                     (Chico Anysio)
CHICO ANYSIO, IMORTAL

Os portões do céu abriram-se e, Deus em toda sua glória, veio receber Chico Anysio e todos os seus personagens.  Percebendo a movimentação, a Morte imediatamente dirigiu-se aos portões do céu e pôs-se a observar a entrada do todos. Pantaleão passou e deu de braço; Bento Carneiro, uma cuspidela de lado; Bozó sorriu maliciosamente; Silva piscou e jogou um beijinho; Azambuja saindo da fila passou por trás e beliscou discretamente a nádega da Morte, que virando-se, ninguém viu, pois, ele rapidamente retornando à fila, entrou no céu. E assim, um a um, eles iam entrando rumo à imortalidade, quando a Morte resolveu questionar.
            ─ Isto não está certo. Um homem com duzentas e dez vidas, e eu não posso levar nenhuma. Todas merecem a imortalidade?
Deus, que até aquele momento a ignorara, respondeu:
            ─ Este homem dedicou suas vidas a alegria. Multiplicou risos em gargalhadas. Estimulou o pensamento crítico e as artes, praticou a generosidade. Utilizou cada uma com humor e sabedoria.  Nada há para você aqui.
A Morte continuou observando a entrada de todos, até que, no fim da fila, apareceu sorrindo, Chico Anysio. E mais uma vez ela questionou:
            ─ Duzentas e dez vidas com humor e sabedoria? Isto é impossível. Eu não...
Com o dedo em riste, Deus interrompeu a Morte:
            ─ Calaaadaaa!!!
A morte abaixou a cabeça e retirou-se.
Abrindo os braços, Deus olhou para Chico Anysio e disse:
            ─ Vem, Chico, entra. Entra e vamos conversar. Mas, hein?!?!

                                                  Autor: Cicero Fernando Coutinho