VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Leia e pense...

Se o amor nos faz viver, amor nos mata.
                               (Guerra Junqueiro)




SPECTACULUM  MIRABILE  VISU

Não posso afirmar que existam sereias, mas, posso garantir que há deusas na terra nascidas. Algumas mulheres são deusas, mas, falta-lhes a lembrança dessa divindade. Acostumei-me ao caminhar pelo parque a ver uma dessas deusas. Trazia em seus olhos, ao invés de pupilas, duas estrelas intensamente brilhantes, raras gemas, preciosas, perfeitas.
Seu sorriso trazia uma sensação de frescor que só as manhãs possuem.
Seu perfume inebriante, devastador, uma amálgama de êxtase e agonia.
Seu andar. Aaaah! Seu andar ... Somente uma frase em latim para imaginá-lo: "Vera incessu patuit dea"
Sua beleza tamanha, que admito, me faltam ainda, engenho e arte para descrevê
-la.
Enquanto acompanhava seu caminhar, eu pensava:
Mulheres como ela deveriam ser admiradas, contempladas, adoradas. Não apenas desejadas.
Deveriam receber um tratamento divino, não apenas pelo corpo esculpido, mas pelo olhar, pelo andar, pelo perfume, pelo sorriso.
Mulheres como ela eram deusas, e ela era uma deusa, embora sequer suspeitasse de sua condição divina.
Uma deusa paradoxal: o olhar hipnotizante, algo a se evitar. O sorriso encantador, algo a se desejar. O perfume, um gatilho, algo a se temer: um almíscar envolvente que invade o cérebro, aperta o coração e inebria, provocando ao mesmo tempo, uma sensação de êxtase e agonia.
Ainda não sei se é o olhar, o sorriso, ou o andar o que mais me fascina e balança, só sei que tudo me encanta.

Um dia, decidi ousar e acompanhá-la bem de perto em sua caminhada, lado a lado. Por alguns momentos tive a impressão de caminhar no azul do céu, ao lado de uma deusa. E tamanha foi minha felicidade que: vox faucibus haesit.
As noites tornaram-se azuis, pois, sonhar com ela, sentir seu perfume, seu toque e poder tocá-la era estar no paraíso, porém, acordar e ver que tudo foi um sonho, era ser lançado ao purgatório.
Já dependente do seu perfume, do seu sorriso e do seu encanto, escrevi-lhe um bilhete, algo tão ultrapassado que hesitei em entregá-lo.
Com uma expressão de espanto ela pegou o papel e leu, sem parar de caminhar.

"Vem! E se, entre nós dois, não acontecer uma explosão de amor, então, não tenha piedade e, mate-me de amor."

Ela olhou para trás e, com um encantador sorriso de desdém, jogou o papel em uma lixeira, me deixando alí, como eu havia pedido: morto... morto de amor.

                                                                                               Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 25 de maio de 2014

Leia e pense...

Se eu houvesse de definir a alma humana... diria que é uma casa de pensão. Cada quarto abriga um vício ou uma virtude.
                         
                                                (Machado de Assis)
RETRATO DA ALMA

Pensemos o seguinte... Imagine se cada um de nós possuísse um retrato como o retrato de Dorian Gray. Se cada um de nós pudesse vislumbrar a própria alma em uma tela habilmente pintada. Seria deliciosa e tentadoramente pavoroso, não? Uma anomalia, um feito contra a natureza.
Mas, imagine se, pudesse ser visto nessa tela, cada pecado e gesto cruel, mesmo que impensado, que você cometeu. Imagine se pudesse ver a própria corrupção personificada em você mesmo, afinal de que outra maneira poderia ser vista? Em consequências dos seus atos, você me diria talvez, mas as consequências oferecem saídas muito charmosas e encantadoras como: "eu não pude evitar" – justificando-se -  ou elas simplesmente passarão com o tempo, dando a falsa impressão de que seus atos não deixariam marcas em sua alma, ou você poderia até mesmo ignorá-las, se for um pouco insensível e prefira fechar os olhos à ruína enquanto ela acontece à sua frente.
Ainda que assustadora, seria terrivelmente atraente a idéia de "espiar" a própria alma, mesmo que para apiedar-se de si mesmo, ação que também possui sua malícia ao acreditar que o fazendo ninguém poderia julgar-lhe. Mas depois de observar o terror de seu âmago, ao ver a podridão que pode ser a sua alma... O que você faria? Haveria o que fazer? Você pode se redimir é claro, mas, e quanto aqueles que sofreram com suas ações?  Ah, claro. Eles têm o perdão à disposição para seu alívio, não é mesmo?  Qual seria o efeito disso tudo em você?
A humanidade, o ser humano, em conjunto ou isolado, é sujo. Vil. Ainda que nas menores e consideradas tolas questões. Mas não me alongarei mais nesse discurso, posso estar falando apenas sandices e você pode não estar interessado em sua alma ou nessas reflexões. Ah, um trocadilho, reflexões... Pensamentos filosóficos e também uma espécie de uma possível autobiografia... Enfim... Pode ser que não seja preciso um retrato feito por um grande artista em evidência, você pode simplesmente olhar para dentro de si mesmo ou apenas olhar-se no espelho. Um grande homem disse um dia que "apenas quem é superficial conhece a si mesmo". Talvez eu esteja sendo morbidamente pessimista com a humanidade... Sem dúvida, eu também preciso marcar um encontro com a minha alma...
Mas eu posso estar errado... Posso estar apenas sendo amargo e insensível... Ou amargo e sensível em excesso... Quem sabe eu não esteja apenas delirando em todos esses pensamentos?

                                                                Autor: Fernanda Coutinho

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Leia e pense...

Um livro é uma janela pela qual nos evadimos.
                          (Julien Green)
EPÍLOGO 

O sangue escorria por baixo da porta, formando uma poça viscosa.
Algumas horas antes...
Ela caminhava pelos corredores da enorme feira de livros. Com calma entrava em quase todos os stands. Analisava vários livros, de vários gêneros, de vários autores. À tira-colo trazia seus originais, tantas vezes enviados para diversas editoras. Tantas vezes recusados com desculpas que nada explicavam, tantas vezes sem uma resposta sequer. Não entendia o porquê, se sempre encontrava livros no mesmo estilo e gênero, muitos em lançamento. Alguns apelando apenas para a moda literária do momento, sem apresentar nada de novo.
Horas e horas de caminhada, rápidas leituras e análises, finalmente sentou-se para um lanche. O vaivém da multidão, o falatório, os sons das chamadas publicitárias, as músicas, as pilhas de livros, tudo isso a deixava ainda mais inspirada. Sua criatividade aflorava, pois, sentia-se no seu meio, no seu mundo encantado, embora ainda não tivesse encontrado a porta mágica de entrada.
Terminado o lanche e, aproximando-se o encerramento do evento, dirigiu-se a um dos banheiros. Lá, trancou-se em um dos reservados e pôs-se a ler algumas páginas de seus originais. Cada original era rasgado e atirado com desânimo na lixeira. Rasgadas todas as folhas, pegou a lixeira e, aos poucos foi despejando na bacia sanitária, acionando ao fim de cada despejo o mecanismo de descarga.
Ao fim do processo, sentou-se e, inclinando-se para frente amparou a cabeça com ambas as mãos. Suas frustrações despencaram sob a forma de lágrimas.  Esgotadas as lágrimas, veio-lhe a inspiração de uma história definitiva, uma história que finalmente despertaria o interesse de todos.
A mão trêmula retirou da bolsa um estilete.  Depois de usá-lo duas vezes, ela recostou-se, deixando seus braços pendentes ao lado do corpo. De seus olhos, escorriam novas lágrimas, de seus dedos escorriam sangue.
O pavilhão esvaziou-se. Os escritores e editores foram embora felizes, comemorando a divulgação e vendas de seus livros. Os leitores satisfeitos e ansiosos por mergulhar nas páginas encantadas, em experimentar grandes aventuras e amores, aplacando assim, suas frustrações. Como eles, ela também, deveria ter comprado um livro... 

                                                              Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 6 de outubro de 2013

Leia e pense...

Fatos não deixam de existir porque são ignorados.
                              (Aldous Huxley)
ENQUANTO A CIDADE DORME

A noite já ia alta quando Claudio desceu as escadas.  Não gostava muito de sair de casa à noite, mas, tivera a idéia de fotografar a cidade durante a madrugada, para o concurso de fotografias no qual se inscrevera. Fotos noturnas são difíceis de serem feitas, mesmo com os equipamentos cada vez mais modernos, mas, exatamente por sentir essa dificuldade, ele pensou que teria que se superar, aumentando assim, as chances de obter excelentes fotos. Não pretendia ir muito longe, apenas caminhar alguns quarteirões em seu próprio bairro. Teve certeza de ter feito uma boa escolha quando viu as luzes do giroscópio do carro da polícia colorindo as paredes de uma casa. Um pequeno grupo de pessoas se aglomerava na frente da casa e, também era tingido pelas luzes. Imediatamente tirou a máquina digital da mochila e aproximou-se, já fotografando. Pensando que Claudio fosse da imprensa, um dos policiais, informou que se tratava de um caso de abuso sexual de menor. Um homem que se dizia pastor atraíra uma menina de 15 anos até sua casa para uma suposta vigília. A polícia foi chamada por uma vizinha que já estava desconfiada das frequentes visitas de meninas, sempre à noite.
            ─ Quando chegamos, a menor estava só de calcinha deitada na cama e, ele só de bermuda em cima dela. Fotografa mesmo a cara dele.  disse o policial enquanto segurava o rosto do homem algemado.
Com a sirene ligada, o carro da polícia saiu cantando pela madrugada. Claudio continuou a caminhar pensando na sorte que tivera. Havia feito várias fotos da casa e das pessoas sob as luzes do giroscópio. Alguns minutos se passaram e outra aglomeração de pessoas chamou sua atenção, desta vez, nas proximidades de um bar. Duas mulheres completamente bêbadas se embolavam em seus próprios cabelos, enquanto aos gritos, rolavam no chão. Receoso e, procurando ser o mais discreto possível, Claudio clicou algumas vezes o combate feminino e as pessoas que ao redor assistiam e nada faziam, a não ser, rir.  Afastou-se do local quando as mulheres, cansadas, trocaram os tapas e unhadas pelos xingamentos. Mal acabara de guardar a máquina na mochila, assustou-se com um mendigo que se escondia sob camadas de papelão e, ao vê-lo passar pediu um cigarro. Parou para dizer que não fumava e, acabou puxando conversa com o decepcionado mendigo que foi logo dizendo:
            ─ Não tem cigarro? Pô, maió vacilo. Não quero conversa, quero um cigarro pra enganá a fome.
Claudio abriu a mochila e ofereceu um pacote de biscoito. O mendigo deu um sorriso negro, enquanto quase tomava o pacote da mão de Claudio. Mais ou menos, uns seis biscoitos depois, o mendigo conversava como se ambos fossem velhos conhecidos. Falou sobre sua vida, sobre as noites nas ruas, e várias outras coisas enquanto era fotografado.  A conversa durou até o último biscoito ser engolido. Enganada a fome, o mendigo despediu-se e novamente camuflou-se sob as camadas de papelão.
Passando por uma esquina, Claudio foi abordado por um travesti de voz quase robótica. Parou, agradecendo o convite e, apresentando-se como fotógrafo, perguntou se poderia fazer umas fotos do travesti em seu local de trabalho.
            ─ Vou sair no jornal, é? Se eu soubesse tinha vindo loira hoje. Pode dar seus cliques, querido. Mas, só de longe. Nada de close, hein...
O travesti saracoteou para lá e para cá, exibindo todo o seu estoque de olhares, bocas e poses. Claudio notou que, havia uma espécie de divisão de territórios. Em um lado da rua ficavam os travestis e no outro as mulheres. Utilizando-se dos recursos da máquina, aproveitou para registrar a organizada e, até aquele momento, pacífica concorrência. Agradeceu ao travesti, que retribuiu com um biquinho vermelho. Continuou a se embrenhar na noite, chegando desta vez ao local onde havia acontecido uma violenta colisão entre dois veículos. Misturou-se aos fotógrafos que já estavam no local, fotografando a tragédia de vários ângulos. A deformação dos carros completamente retorcidos, as ilhas de sangue pelo chão, o corpo coberto com papelão, que o fez lembrar-se do mendigo, as luzes dos carros da polícia e das ambulâncias iluminando o macabro show, assistido por várias pessoas saídas de todos os cantos da noite. Quando se afastava, mais um carro da polícia se aproximou do local. Dentro do carro, no banco traseiro, um jovem casal. Um dos policiais saiu e, apertando a mão de outro que estava no local do acidente, disse:
            ─ O negócio foi feio aqui.
            ─ Se foi. Por sorte não morreram todos. Sábado é fogo, mas, já está tudo sob controle.
            ─ Ok! Estamos indo para a DP. Apreendemos o casalzinho ali no flagrante. Fazendo saidinha de banco. Usaram crack. Ele tem dezessete e ela dezesseis anos. Os pais nem devem imaginar o que eles andavam aprontando por aí.
Claudio olhou para o relógio e, arregalou os olhos ao ver que faltava pouco para o amanhecer. Sem perceber, havia se afastado muito de casa. Andara quilômetros. Dentro do ônibus, viu a cidade gradativamente se iluminar com a luz do dia.  Enquanto descarregava as fotos da máquina para o computador, pôs-se a relembrar as desventuras que havia presenciado. Examinou atentamente cada fotografia, sentindo-se um alienado, por, nem ao menos imaginar, que tudo aquilo acontecesse enquanto a cidade dorme.

                                                        Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 8 de setembro de 2013

TENHA NA SUA ESTANTE:
Resumo do livro: “Carlinhos deveria ser apenas mais um jovem abastado morador de Ipanema. Vindo de uma família destruída, vítima da perda do seu pai ainda na infância, o que lhe sobra em dinheiro falta em amor, afeto e atenção. Pelo menos segundo sempre lhe pareceu. Ao completar dezoito anos, Carlinhos finalmente recebe, com a maioridade, o direito de administrar sua própria parte na herança. A partir desse momento, a vida rica da alta sociedade carioca, almejada e perseguida por tantos, se transforma na sua maldição.”
Para mais detalhes da obra, acesse: https://www.facebook.com/UmRatoDeTresCabecas

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Leia e pense...

É espantoso como é completa a ilusão de que beleza é bondade.
                                                   (Leon Tolstoi)


Nossos sentidos não nos enganam. O que nos engana é o nosso julgamento.
                                                   (Johann Goethe)
UM ANJO CUIDA DE VOCÊ

O coração de Lilian disparou quando os seus olhos cruzaram com os olhos do homem que acabara de entrar no ônibus. Um homem de meia idade, que apesar de, até estar bem vestido, tinha uma aparência rude, sinistra e intimidadora.  Ele olhou para todos os passageiros do ônibus, sentando-se depois, justamente ao lado de Lilian que sentiu um calafrio percorrer seu corpo aumentando seu desespero.  Instintivamente, levantou-se, pedindo licença ao homem e sentou-se pouco a frente, ao lado de um rapaz que notando seu nervosismo perguntou:
            ─ Tudo bem com você?
Abaixando a cabeça e sem olhar para o lado ela respondeu:
            ─ Acho que aquele homem que subiu agora no ônibus, ia me assaltar.
O rapaz olhou para trás e, ao ver que o homem os observava, fechou o semblante, não conseguindo, porém, encará-lo por muito tempo.
            ─ Fique tranquila, ele não se atreverá a fazer nada enquanto você estiver aqui perto de mim.
Alguns minutos depois, ela ainda nervosa falou:
            ─ Está chegando o meu ponto e, estou com medo de descer e ele vir atrás de mim.
            ─ Posso descer também e acompanhar você até sua casa?  ─ perguntou o rapaz.
            ─ Sim. ─ ela respondeu trêmula.
            ─ Então, vamos. Não tenha medo. Eu estou com você.
Quando o ônibus arrancou, ela não resistiu e olhou, tentando ver se o homem realmente havia ficado em seu interior. Novamente seus olhares cruzaram-se, acelerando seu coração e trazendo de volta ao seu corpo o calafrio.
Três meses depois, caminhando de mãos dadas, eles, agora namorados, relembravam o dia em que haviam se conhecido.
            ─ Você estava branca de medo quando se sentou ao meu lado.
            ─ Seu bobo. Aquele homem horroroso entrou no ônibus só para me fazer mudar de lugar e conhecer você. Meu Anjo da Guarda.
            ─ E eu conheci minha Princesa solitária. Minha Branca de Medo. ─ disse ele rindo, enquanto ela dava tapinhas de amor em seu braço.
            ─ Seu Bobo da Guarda.
            ─ Tá bom, tá bom... Minha Branca de Neve.
Ela despertou sentindo uma forte dor de cabeça. Sua visão estava embaçada, seu corpo pesado. Esticou o braço para o lado, tentando encontrar seu príncipe, mas, estava só na cama. Quando sua visão começou a clarear, levantou-se com dificuldade, tonta e cambaleante. Procurou pelo seu telefone celular e, enquanto andava pela casa percebeu a falta de seu precioso notebook, além de outros eletroeletrônicos e objetos de valor. Para seu desespero sua bolsa também havia sumido, juntamente com seus cartões de crédito.
O som ininterrupto da campainha podia ser ouvido em todo o prédio. A porta foi aberta por uma mulher sarada, de corpo visivelmente malhado, vestindo um micro short e mini blusa.
            ─ Que negócio é esse aqui na minha porta? Quem é você?
            ─ Quero falar com o Flavio.
            ─ Que Flavio? Cê tá maluca? Aqui não tem ninguém com esse nome.
            ─ Como não tem? Eu estive aqui algumas vezes, com ele.
            ─ Querida, eu moro aqui sozinha. Se você não parar de fazer escândalo na minha porta, eu vou chamar a polícia.
Percebendo que não teria como provar que realmente estivera algumas vezes no apartamento, ela desistiu. Saiu do pequeno prédio de quatro andares, chorando, completamente desolada.
Quando já se aproximava de casa, sentiu um calafrio, que logo se transformou em medo, ao reconhecer no homem que encostado em um poste, a observava, aquele que tentara assaltá-la há alguns meses. Tentou ignorá-lo e acelerou o passo, mas parou pouco adiante ao ouvir o homem perguntar:
            ─ Ele enganou você, não foi?
Trêmula, ela virou-se e, ainda chorando, perguntou:
            ─ Como você sabe disso? Você conhece ele?
            ─ Conheço você. Desde que nasceu.
            ─ Me conhece como? Eu nunca havia te visto até aquele dia no ônibus.
            ─ Você nunca havia me notado. Mas, infelizmente, naquele dia você me notou apenas porque me temeu. Julgou-me pela minha aparência. Não permitiu que eu a ajudasse. Mas, venha comigo que você entenderá o que estou dizendo.
O homem começou a caminhar. Seus passos eram firmes e rápidos, ela quase corria tentando acompanhá-lo.
            ─ Espere um pouco. Pra onde estamos indo? Será que posso confiar em você? Você é da polícia?
            ─ Se pode ou não confiar em mim, cabe a você decidir. Se eu sou da polícia? De certa forma pode-se dizer que sim. Para onde estamos indo? Veja você mesma, já chegamos.
Olhando à sua volta, ela se deu conta de estar na rodoviária.
            ─ Mas como chegamos aqui tão rápido? Estávamos em um bairro bem distante daqui.
            ─ Tempo e espaço são relativos. Einstein sabia o que estava falando. Olhe lá embaixo. Na fila do segundo ônibus.
            ─ É ele. Vamos até...
Antes que ela terminasse a frase, o homem segurou em seu braço. Ao sentir seu toque ela arrepiou-se. Quando olhou novamente para frente, já estavam a apenas alguns metros de Flavio, que ao vê-los, correu na direção oposta.
Ela o perseguiu, mas, o perdeu de vista na saída da rodoviária. Procurou em vão pelo homem que a acompanhara até ali. Ao se ver mais uma vez sozinha começou a caminhar e chorar, quando alguns metros adiante percebeu em uma rua pouco iluminada os dois homens parados, como que preparados para um confronto. Correu na direção de ambos:
            ─ Flavio, o que aconteceu? Por que você me roubou? Por que estava fugindo?
Flavio apenas olhou para ela e sorriu. Seu sorriso era tão encantador que a fez sentir vontade de abraçá-lo.
            ─ O que quer que tenha acontecido eu vou entender. Preciso de você. Você é o meu Anjo da Guarda.
Flavio gargalhou alto e, olhando para o homem à sua frente disse:
            ─ Está vendo? Ela acha que eu sou o Anjo da Guarda dela.
O homem olhou sério para Lilian, dizendo:
            ─ Você continua fazendo julgamentos errados. Ele é um espírito errante, que se alimenta do amor e da crença de suas vítimas. Precisa ganhar a confiança das pessoas para depois enganá-las. Só assim consegue restaurar suas forças. Alimentando-se da crença, da decepção e do desespero de suas vítimas.
Chorando cada vez mais, ela perguntou:
            ─ Isso não é verdade. Como você sabe disso?
            ─ Eu sei por que eu sou o seu Anjo da Guarda. E não ele.
Lilian não conseguia mais controlar o choro. Sentindo-se fortalecido com a situação, Flavio investiu contra o homem que, rapidamente esquivou-se segurando-o pelo braço. Os dois encontravam-se agora frente a frente, medindo forças. Flavio tentava a todo custo evitar que o homem segurasse em suas mãos. Mas, seus esforços foram em vão, pois, depois de algum tempo o homem finalmente conseguiu segurá-las e dominá-lo.  Um brilho intenso tomou conta das mãos entrelaçadas. Instintivamente Lilian virou o rosto para o lado e antes que pudesse fechar os olhos, ouviu o homem dizer:
            ─ Vire-se e feche bem os olhos.
Ela obedeceu e, mesmo assim pôde perceber um imenso clarão tomar conta do local. Quando momentos depois abriu os olhos e virou-se, viu apenas o homem caído de joelhos e ofegante.
            ─ Onde está o Flavio? O que aconteceu com ele?
            ─ Ele recebeu uma dose maciça de energia e transformou-se em luz.
            ─ Transformou-se em luz? Como isso é possível?
            ─ Ele era um ser feito de trevas e foi transformado em luz. Está agora percorrendo o espaço, entre as estrelas.
Caminhando ao lado do homem ela, envergonhada, não sabia o que dizer.
            ─ Me perdoe por ter achado que você, o meu verdadeiro Anjo da Guarda, era um ladrão.
            ─ Você fez o que a maioria das pessoas insiste em fazer.  Julgar baseando-se apenas na aparência física. Desde crianças, vocês aprendem que devem associar a beleza ao Bem e a falta de beleza ao Mal. Mas, a realidade não se apresenta como nos filmes em que os anjos são sempre jovens, loiros de olhos azuis ou verdes, atléticos e com lindas asas brancas. O Bem e o Mal não possuem formas definidas, nem tão pouco, estão associados à beleza ou a sua falta. É tudo uma questão de luz e trevas. Apenas isso.
Eles caminharam em silêncio por um tempo, até que ela perguntou:
            ─ Vou vê-lo novamente? Você estará por perto sempre que eu precisar?
            ─ Pode ser que você me veja novamente ou não. Posso ajudá-la mesmo que você não perceba minha presença. Quando entrei naquele ônibus eu tentei avisá-la apenas olhando para você. Mas, ao me julgar e me temer, você bloqueou e recusou minha ajuda. Ainda tentei evitar sentando-me ao seu lado, mas, você exerceu o seu livre arbítrio e levantou-se. Tanto o Bem quanto o Mal, só podem agir em sua vida se você permitir. Foi o que você fez ao sentar-se ao lado dele e, hoje ao me acompanhar. Você permitiu que entrássemos em sua vida.
Ela parou e, chorando, pediu a ele um abraço. Ele a abraçou, e ela sentiu novamente um calafrio percorrer seu corpo, mas, desta vez não havia medo, e sim, uma sensação de luz e paz.
            ─ Obrigada. É a única coisa que posso dizer. Obrigada.
            ─ Vá em paz. Creia em Deus e, lembre-se sempre que, aonde quer que você vá, um anjo cuida de você. 


                                                           Autor: Cicero Fernando Coutinho

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Leia e pense...

O maior sofrimento como a maior felicidade nascem do amor.
                                                     (Leoni Kaseff)
ETERNO ABRAÇO 

Helena. Bela e doce Helena. Encantou-me assim que a vi de pé em frente à janela, as mãos delicadas apoiadas no parapeito. Sua pele pálida, seus longos e ondulados cabelos negros e seus olhos castanhos e expressivos me cativaram. Ah, aqueles olhos! Encontraram os meus e demonstraram o que parecia ser surpresa, então, se esboçou em seus delicados lábios um sorriso tímido. Naquele momento meu coração fez-se escravo do seu.
Era seu décimo sétimo aniversário. Minha família, por ser conhecida da família dela compareceu. Eu acabara de chegar de viagem, e fui convidado a ir com eles à comemoração, em mais uma tentativa de minha mãe para animar-me.
─ Desejo-lhe vida longa senhorita. – eu disse, fazendo uma pequena reverência e depois beijando sua mão.
─ Agradeço-lhe cavalheiro.
Depois disso, mal nos falamos, mas nossos olhares se cruzavam a cada instante. Nos dias seguintes, passamos a nos encontrar às escondidas. Ela era cheia de vida, pura, inocente e curiosa como uma criança.
Eram muitas as vezes em que eu tinha que pedir para que ela andasse um pouco mais devagar, para que eu não me esforçasse muito. Eu, ao contrário dela, era enfermo e quando não estava em sua companhia, encontrava-me deitado na cama, tão fraco que não aguentava nem andar. A verdade era que, essas longas caminhadas que compartilhávamos me tiravam as forças, deixando-me cansado e fazendo-me ficar em repouso pelo resto do dia. Mas eu não me importava, se fosse para vê-la eu continuaria cansado.
Pouco a pouco, minha doença foi se agravando e quando o médico disse que eu teria pouco tempo de vida, resolvi não contar a ela, para que não vivêssemos esses últimos momentos rondados pelo medo. Porém, outra má notícia se anunciou: Helena seria desposada dali à apenas dois dias, pois, já havia sido prometida a outro homem sem que soubesse e, agora, teria de se casar.
Ao ouvir essa trágica notícia uma tristeza pesada como chumbo se depositou em meu coração e uma onda de tosse me invadiu. A preocupação fez-se evidente nos olhos de Helena, que me abraçou e, pouco a pouco, fez com que eu me acalmasse. Aninhada em meus braços ela tinha uma das mãos entrelaçada na minha e, apertava com força os olhos fechados, como se doesse fisicamente saber que em breve nos separaríamos. Como se quisesse que aquele abraço durasse eternamente.
Na tarde seguinte, nos encontramos e percebi que Helena havia se isolado, talvez para ignorar a dor. Disse a ela que não poderia lhe oferecer muito por causa da minha doença, mas que poderíamos fugir. Ela abaixou a cabeça fazendo cair as lágrimas que lhe brotavam dos olhos e, disse que não tinha o direito de fazer com que eu me sujeitasse a tão grande sacrifício. Depois, me olhou com uma tristeza desesperadora nos olhos, me pediu perdão e sussurrou: 
            ─ Não.
 E se foi, correndo e soluçando, deixando-me ali, nos braços da Morte.

                                                           Autor: Fernanda Coutinho

sábado, 18 de agosto de 2012

Leia e pense...

Teu corpo combina com meu jeito, nós dois fomos feitos muito pra nós dois.
                                                                   (Caetano Veloso)

Algumas coisas não precisam fazer sentido, basta valer a pena.
                                                                   (Renato Russo)
À FLOR DA PELE

Ele vestiu-se devagar. Talvez, tentando disfarçar o desapontamento consigo mesmo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele, sempre tão viril, tão másculo, não conseguia mais sentir prazer com outras mulheres desde que a conhecera, que a tocara. Um encontro casual, uma conversa trivial sobre a superlotação do metrô. O contato físico forçado pelo rush, o cruzamento de olhares, a rouca suavidade da voz, o toque das peles, a excitação e o latejar do corpo, a troca de telefones. O segundo encontro, desta vez, sem acaso. Horas de conversa, de sorrisos, de identificação, de sintonia. No encontro das mãos, a certeza da química, a prova do toque. No beijo um sabor novo, único, mas estranhamente já conhecido. Sabor de si próprio.
Não tiveram pressa. Concordaram telepaticamente em aproveitar cada fase, pois, sabiam que a amizade e a cumplicidade já existentes, logo se mesclariam em intimidade. E assim foi. Em uma noite à sós, depois do jantar à luz de velas, da conversa sempre agradável, do toque que alcançava a alma e dos beijos atemporais, entregaram-se e deixaram-se descobrir. Intimidade, desejos e segredos vieram à tona, mas todo segredo é composto por uma dose de sedução e outra de maldição.
E era essa maldição que agora o perseguia. Ele tentava de todas as maneiras, esquecê-la em outros braços, outras bocas, outros corpos, mas faltava o toque, a química, o arrepio à flor da pele, que só com ela sentira. Seus pensamentos, seus sonhos e seus desejos eram todos destinados a ela. O sedutor irresistível dera lugar ao seduzido amaldiçoado.
Não sabendo mais o que fazer, nem como resistir, foi procurá-la. Apenas o silêncio, quando ela abriu a porta. Ele levantou a cabeça detendo-se nos olhos dela.
            ─ Não posso mais ficar longe de você. Você é, e sempre será a mulher da minha vida.
            ─ Eu sou e sempre serei uma mulher. Uma mulher aprisionada em um corpo masculino, mas sempre uma mulher. Sua mulher.
            ─ Seu segredo será nosso segredo, minha mulher.
Ele deu um passo e fechou a porta, deixando do lado de fora a dúvida, o medo, o preconceito. Abraçaram-se, e no abraço trocaram o único e verdadeiro sentimento que havia entre eles: amor.

                                                               Autor : Cicero Fernando Coutinho

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Leia e pense...

A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente.
                                     (Henry Kissinger)
FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS

A escuridão, a umidade e o fedor só intensificavam as dores que ela sentia. Não tinha a mínima idéia de onde estava, mas sabia que precisava sair dali com urgência. Seu corpo inteiro ardia. Deitada, olhando para a escuridão, começou a lembrar-se de tudo. Do porquê de estar agora ali. Espancada, violentada e quase estrangulada. Mais uma vítima de palavras doces, de insistentes olhares de desejo e de sorrisos disfarçados. Deixara-se seduzir por um príncipe encantado e, quase morrera nas mãos de um maníaco no cio. Por sorte, ele cometera um erro ao pensar que a havia matado quando ela desmaiou. Tentando reunir forças para levantar-se, ela sentiu algo cair sobre sua barriga e começar a caminhar. Tateando, descobriu tratar-se de um rato. O pavor a fez virar-se, mas sem forças, acabou rolando para baixo, caindo de bruços em uma fétida poça. Rastejou alguns metros, desmaiando em seguida.
O menino entrou correndo e gritando:
            ─ Pai, tem uma mulher morta lá perto do terreno do lixo. Ela tava morta, mas quando eu cheguei perto ela tossiu.
            ─ Calma Pedrinho. Que negócio é esse de tava morta e tossiu?
            ─ Foi sim, pai. Ela tá lá, toda suja e com sangue na boca e tossiu quando eu cheguei perto dela.
            ─ Vamos lá rápido. Se ela tossiu é por que ainda tá viva.
Com a ajuda do filho, a velha senhora limpava com uma toalha o corpo sujo e ensanguentado da moça.
            ─ Coitada. Bateram muito nela. E pelas marcas no pescoço, tentaram enforcar ela também.
            ─ Será que foi os cabeça lá do morro? Será que ela não tava devendo pra eles? ─ perguntou o rapaz enquanto passava outra toalha para a mãe.
            ─ Não sei, mas é melhor falar com o Pedrinho para não sair falando com ninguém sobre ela. ─ respondeu a velha.
            ─ Isso eu já falei. Ele prometeu que não vai falar pra ninguém.
            ─ Ela só vai precisar de uns dia, depois que ela melhorar, a gente manda ela embora.
Deitada, ela olhava para o teto. Um olhar parado, quase sem vida. Por mais que tentasse esquecer, as imagens vinham automaticamente, não havia como evitá-las. Quando dormindo, sonhava; quando acordada, pensava. E sempre, acompanhando os sonhos ou os pensamentos, estavam as imagens. Revia e sentia tudo, cada momento, cada galanteio, cada troca de olhares, o espancamento, o abuso sexual, as mãos apertando seu pescoço. Sentia-se mal por ter sido tão fácil, por não ter sabido evitar. O mal estar transformava-se em raiva, mais que raiva, em ódio quando lembrava que havia sido jogada no lixo. Usada e jogada no lixo.
            ─ E aí, moça? Você já tá em condições de ir embora? Fica aí o tempo todo olhando pro teto. Não fala nada, só chora. Nós não podemos ficar com você aqui por muito tempo. ─ disse a velha enquanto ajudava-a a sentar-se e dava-lhe um prato de arroz com feijão e ovo cozido.
Ela comeu sob o olhar silencioso da velha, perguntando ao terminar:
            ─ Há quantos dias estou aqui?
            ─ Até que enfim! Pensei que nunca fosse falar. Dez dias que você tá aqui. Meu neto que te viu lá no lixo e meu filho te trouxe pra cá, escondida no carrinho do Chico do papelão. Mas, me diz o que aconteceu com você. Comprou droga lá no morro e não pagou?
            ─ Não, claro que não. Foi um homem que conheci há alguns meses. Uma grande besteira que fiz. Comecei a sair com ele, mesmo sabendo que era casado. Começou com algumas trocas de olhares, depois ele aproximou-se e disse que me achava bonita, atraente, essas coisas que toda mulher gosta de ouvir.
            ─ E que todo homem gosta de falar até conseguir o que quer. ─ completou a velha.
            ─ É. Eu não tinha essa visão. Até gostava de ser elogiada, desejada, de ver os homens interessados em mim, me disputando. Mas, nesses dias que estive aqui deitada, pude pensar um pouco na minha vida e, concluí que contribuí muito mais do que imaginava para o fim do meu casamento. Meu ex-marido sempre dizia que eu dava muita abertura para os homens me falarem gracejos, e eu sempre rebatia dizendo que ele estava vendo demais, que o ciúme o estava fazendo imaginar coisas. Agora vejo, que na verdade, eu estava iludindo era a mim mesma. Infelizmente, só percebi isso depois de ter sido espancada, violentada, estrangulada e jogada no lixo. Usada e jogada no lixo como uma coisa qualquer.
            ─ Eu não fui estrangulada nem jogada no lixo, mas também fui espancada e violentada. Mais de uma vez, até. Eu era mais nova, que nem você. Aí, um dia eu fiquei grávida. O pai do meu filho era da polícia. Quando falei com ele que estava grávida, ele me espancou e nunca mais me procurou. Mas Deus não quis que eu perdesse a criança. Criei meu filho sozinha, fazendo unha e cabelo. E você? Tá grávida?
            ─ Não, claro que não.
            ─ Então, porque ele fez isso com você?
            ─ Porque descobri que eu não era a única amante dele, era apenas mais uma. Nós discutimos, e ele disse que, eu que me insinuei pra ele com olhares. Que eu tinha dado mole e ele só fez o que todo homem faria. Fez o que tinha que ser feito. O que eu havia pedido com meus olhares. Nervosa, dei um tapa nele. Então, ele me espancou, depois me violentou e antes de me estrangular falou no meu ouvido: "Pra você aprender que, homem que é homem, faz o que tem que ser feito e não olha pra trás."
Ela começou a chorar, enquanto a velha levantava-se e recolhia o prato, dizendo antes de sair do pequeno quarto:
            ─ Depois do que aconteceu comigo, eu não olhei mais pra trás, não olhei mais pro meu passado. E acho que você devia fazer a mesma coisa.
Diante do espelho ela finalmente sorriu ao ver seu novo visual. Os cabelos bem curtos e as sobrancelhas desenhadas combinavam com a maquiagem, a deixando com um ar mais sério.
            ─ Ficou muito bom. A senhora deveria montar um salão na zona sul, para ganhar mais dinheiro. Quase não estou me reconhecendo.
            ─ Obrigado, mas acho que você não vai se reconhecer se continuar com essa idéia maluca de ir atrás dele.
            ─ Mais cedo ou mais tarde, vamos nos encontrar. Eu só vou adiantar o encontro. Vou tomar cuidado, só preciso saber como vou reagir ao vê-lo.
            ─ Você devia ter ido prestar queixa na polícia, isso sim.
            ─ Não. Isso é entre eu e ele.
Não podia ter sido mais fácil. Bastou procurar nos lugares onde os dois costumavam ir, para que ela o encontrasse. Lá estava ele, acompanhado de outra mulher, como sempre educado, falando baixo, olhando nos olhos, sorrindo, encantando mais uma. Mais uma que poderia terminar jogada no lixo. Observando os dois, sentia seu coração bater acelerado, compreendendo naquele momento que, assim como o amor, o ódio também nascia nas batidas do coração. Agradeceu a sorte, quando após atender ao telefone celular, a mulher retirou-se deixando-o sozinho na mesa. Ele permaneceu bebendo por mais uma hora, saindo depois de esvaziar a última de muitas garrafas de cerveja. Ao chegar ao estacionamento, ele demorou um pouco para abrir a porta do carro, sendo surpreendido por ela.
            ─ Lembra de mim, desgraçado? ─ disse, empurrando-o para dentro do carro enquanto o ameaçava com uma pequena pistola.
Ela entrou pela porta traseira, sentando-se atrás dele.
            ─ Então, você tá mesmo viva, né sua piranha? Eu desconfiei quando não vi nada sobre você nos jornais. Mas foi bom você aparecer. Eu não gosto de deixar nada mal feito, pela metade.  O que você quer? Ir pro motel comigo?
            ─ Dirige e cala essa boca seu verme. Vamos lá pro lixão onde você me jogou.
Calado e olhando para ela pelo retrovisor, ele obedeceu. Já na estrada, percebendo o nervosismo dela, ele foi aos poucos, aumentando a velocidade. Ao aproximar-se de uma curva, freou bruscamente. Com a freada ela foi impulsionada para frente deixando escapulir de sua mão a pistola. Ele acelerou enquanto se inclinava para o lado, tentando pegar a pistola que caíra na frente do banco do carona. Ela então jogou-se para frente, segurando e puxando o braço dele para trás. Em alta velocidade percorreram mais um trecho da estrada, até que, em outra curva ele perdeu a direção. Capotando, o carro invadiu o acostamento em declive. A porta traseira abriu-se, projetando-a para fora carro. Mesmo tendo sofrido vários cortes e com fortes dores, ela conseguiu levantar-se e caminhar até o carro que caíra, alguns metros a frente, completamente destruído. Preso entre as ferragens, com o sangue a escorrer-lhe pela face, ele olhou para ela.
            ─ Tá vendo a merda que você fez? Me ajude a sair daqui sua vagabunda. Anda logo. 
Após um pequeno estouro no motor, o carro começou a incendiar-se. Sem conseguir se mexer, ele gritou:
            ─ Porra, me tira daqui, sua piranha. Depois que tudo isso passar eu te dou um trato. Do jeito que você gosta. ME TIRA DAQUI SUA VAGABUNDA, SUA FILHA da...
Sob o clarão das labaredas, ela virou-se e, com passos lentos, começou a se afastar.
Ela não olhou para trás.

                                             Autor: Cicero Fernando da S. Coutinho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Leia e pense...

Toda a carne tem cegueiras de desejos a quem ninguém pode resistir.
                         (Albino Forjaz de Sampaio)
CÍRCULO VICIOSO - Parte VI

Subjugada, Alice rendeu-se, entregou-se completamente ao desejo instintivo e incontrolável de Aquiles, que a possuiu furiosamente. Durante um longo tempo ele cavalgou-a, fazendo-a emitir gemidos e sons incompreensíveis em meio à contrações e espasmos de prazer. Em seguida, fez com que ela se ajoelhasse no chão, e inclinasse o corpo sobre a cama. Alice sentiu então, uma penetração vigorosa, profunda, que preencheu totalmente, sua carne, suas entranhas, atingindo seu ponto mais secreto e íntimo. Experimentando um prazer intenso e até então inconcebível, sua submissão e passividade foram dando lugar ao desejo despudorado de prazer e dominação. Ela deixou de pedir e passou a exigir que Aquiles lhe desse prazer e, a cada estocada, a cada centímetro de invasão, deliciava-se com as novas e intensas sensações que faziam seus músculos retraírem-se, sua pele arrepiar-se, levando-a a atingir um orgasmo tão intenso e prazeroso que a fez ter certeza de que não se tratava apenas de um orgasmo da carne, mas também da alma.
Ao sentir Alice estremecer de prazer, Aquiles segurou seus cabelos, preparando-se para o ato final e para a absorção de energia. Porém, antes que fizesse qualquer movimento, sentiu a cabeça de Alice pender pesada para o lado, enquanto ela desmaiava de prazer. Assustado, sentiu uma evasão de energia e teve dificuldade em interromper o coito. Vestiu-se rapidamente, deixando Alice desmaiada com metade do corpo sobre a cama e saiu silenciosamente.
O forte som do motor fez a menina correr até a janela na tentativa de ver o avião que chegava, sendo impedida pelo telhado verde, formado pela copa das árvores. Percebendo a curiosidade da menina, Elza puxou conversa.
            ─ Que correria é essa, menina? Parece que nunca viu um avião.
            ─ De pertinho nunca vi mesmo não. Só lá no alto do céu.
            ─ Se você me ajudar a fazer a comida, eu te levo pra ver os avião lá na pista do patrão.
            ─ Obaa! Leva de verdade dona Elza?
            ─ Claro que levo menina. Eu também gosto de ver aqueles avião, cada um mais bonito que o outro.
A menina apressou-se em lavar o arroz, enquanto Elza achava graça do seu entusiasmo. Havia se afeiçoado à pequena, que ainda exibia uma inocência infantil e, por isso, era tão valiosa para o seu patrão. Geraldo entrou na cozinha e arrancou uma banana d'água do cacho que estava sobre a mesa, descascando e colocando praticamente toda a banana na boca, sendo observado pela menina que ficara séria ao vê-lo.
            ─ Essa cabritinha fica me encarando de cara feia. Vê se pode isso, Elza? ─ disse Geraldo com a boca cheia e cuspindo. ─ Se não fosse a escolhida do patrão já tinha te amansado sua moleca atrevida.
            ─ Vai cuidar da sua vida, Geraldo. Quando a comida estiver pronta eu chamo você. Tá chegando um monte de gente e você sabe que o patrão não gosta de nada errado nesses dias.
            ─ Já tá tudo preparado, Elza. Só estou esperando as ordens dele. ─ respondeu ele, pegando mais uma banana antes de sair fazendo cara feia para a menina.
Em uma atitude de desafio, a menina olhou para ele de soslaio e apertou os olhos retribuindo a cara feia. Percebendo a coragem da pequena, Elza sorriu e comentou:
            ─ Mas onde já se viu?  Encarar o Geraldo desse jeito. Você não tem medo dele?
            ─ Eu não. Ele não é meu pai.
            ─ Pois devia. Todo mundo tem. Geraldo não é flor que se cheire. Devia ter nascido na época do cangaço.
Nesse momento mais um avião passou sobre a casa fazendo a menina sorrir para Elza.
Na sede da fazenda, Ronaldo Galdino recebia pessoalmente os convidados agradecendo a presença de todos. Na realidade seus convidados eram exatamente dez amigos, mas para cada um deles havia duas mulheres convidadas. Com comida e bebidas totalmente liberados, em pouco tempo praticamente todos estavam bêbados, principalmente as mulheres, que eram incentivadas ao consumo de álcool e drogas, para assim perderem a inibição. Mesmo sem consumir drogas, Júlia já bêbada, dançava e participava quase que inconscientemente das brincadeiras eróticas e, alguns copos depois da consequente orgia, assumindo assim, seu papel de bacante.  De madrugada, quando praticamente todos já haviam sucumbido ao cansaço, o avião trazendo Edna e Lúcio, aterrizou.  Sem demonstrar nenhum cansaço, ela dirigiu-se ao escritório onde Ronaldo a aguardava.
            ─ Entre Edna. Estava ansioso por sua chegada. Onde está o seu pastor alemão? ─ perguntou ironicamente, referindo-se a Lúcio.
            ─ Não vim até aqui para ouvir suas piadas, Ronaldo. Temos negócios a tratar. Sejamos diretos.
            ─ Tenho quatro meninas para você. Duas de catorze e duas de dezesseis. Amanhã você poderá vê-las. Mas quero fazer uma proposta.
            ─ E qual seria?
            ─ Você já deve ter percebido que amanhã iniciaremos mais uma jornada. Quero desafiar você e o Lúcio. Se o seu cãozi..., quer dizer, seu preferido, vencer, você as leva como parte do prêmio.
            ─ E se perdermos?
            ─ Você fica me devendo um favor.
            ─ Essa é boa. Acha mesmo que eu ficaria te devendo algo que nem imagino o que possa ser? Seja mais preciso se quiser um acordo.
            ─ Certo. Você não é tola e talvez já tenha percebido que há uma energia diferente no ar. Há outra como você, caminhando por aí. Eu a quero. Quero que você a encontre e a traga para mim. Ou vai querer que o seu reinado seja ameaçado?
Edna vislumbrou na proposta de Ronaldo, a chance de neutralizar de vez sua desconhecida rival. Como ele, em breve todos os lobos estariam a sua procura, o que poderia torná-la uma rival muito poderosa e perigosa, principalmente se fosse jovem.
            ─ Realmente, eu já desconfiava disso, mas você parece ter certeza. O que o leva a essa certeza?
            ─ A morte do lobo ancião. O mais velho de todos que caminhava por aqui, transferiu toda sua energia vital para uma jovem escolhida, antes de morrer. Isso aconteceu há um ano. E ela está por aí, solta, tendo que aprender sozinha a lidar com sua nova condição. Precisa de um mentor.
            ─ Um ano? E porque você ainda não a localizou?
            ─ Porque só fiquei sabendo de tudo isso, há três dias. E sei também que, encontrá-la, será muito mais fácil para você. Além de interessante.
            ─ Pretende usá-la nos seus rituais? Você não desiste mesmo, não é? Mas tudo bem, você me convenceu. Temos um acordo.
            ─ Sabia que você seria inteligente e aceitaria. Então, até amanhã, Edna, e que vença o melhor.
Chegando ao quarto, Edna encontrou Lúcio diante da ampla janela a observar a escuridão.
            ─ O que você está fazendo aí?
            ─ Esperando você. Há muitas aqui dessa vez. Posso sentir o cheiro de todas elas.
            ─ O Ronaldo quer todos os competidores bem atiçados. Ele me fez uma proposta. Se você vencer levamos as meninas como parte do prêmio.  Quatro ninfetas. Teremos um bom lucro com sua vitória.
Lúcio sorriu e aproximou-se de Edna, que já estava sem roupas, ajoelhando-se. Ela afagou seus cabelos e segurando em seu queixo o fez ficar de pé, beijando-o.
            ─ Venha querido, quero que você fique bem faminto. Em algumas horas você precisará de todo apetite e fúria que for capaz de conter.
Na manhã seguinte, ainda sofrendo os efeitos da bebedeira e do uso das drogas, o grupo foi convidado a participar de uma competição que premiaria a todos generosamente, com cinco mil reais, somente pela participação. E para os vencedores, caberia o prêmio maior de cem mil reais.  Os competidores seriam divididos em doze trios, compostos por um homem e duas mulheres, que seriam deixadas em pontos diferentes no interior da mata e, caberia ao homem descobrir a localização de cada uma das parceiras e depois reconduzi-las de volta.
            ─ É claro que não será fácil. Mas será divertido. Vocês terão que subir em árvores, mergulhar, nadar, descobrir trilhas e pistas na mata para poderem voltar. Mas garanto a vocês que tudo isso dentro da maior segurança. Não precisam se preocupar. ─ explicava Ronaldo ─ Sugiro que sejam espertos e dificultem a vida de seus adversários. Boa sorte a todos.
Em três pequenas lanchas, as mulheres, em grupos de oito, foram levadas pelo rio para os pontos onde cada uma seria deixada. Somente após o retorno das lanchas, os homens poderiam seguir a partir de um ponto pré-estabelecido.
Com exceção de Ronaldo e Lúcio, todos os homens não aparentavam boas condições, devido aos excessos da noite anterior. As lanchas retornaram e todos foram embarcados. Sem se falarem, Ronaldo e Lúcio seguiam na terceira lancha. Olhares furiosos se cruzavam num duelo de intimidação. Ao chegarem a uma bifurcação do rio as lanchas desligaram os motores para que todos pudessem mergulhar e, depois, continuar pelo interior da mata, a busca às mulheres. Mesmo tendo sido os últimos a mergulharem, em uma demonstração de incrível vigor físico, Ronaldo e Lúcio foram os primeiros a atingir a margem. E, antes de continuarem, silenciosamente trocaram um último olhar, que poderia ao mesmo tempo, ser de desafio ou respeito mútuo. Furiosos, famintos e sedentos, como uma matilha, todos se embrenharam na mata. Começava ali, uma caçada cruel e mortal.

                                             Autor: Cicero Fernando Coutinho