O DESENCANTO DA MORTE
Cansada do seu trono frio, a Morte resolveu verificar o trabalho dos seus arautos. Ao sair de seu castelo de trevas, deparou-se com o nascer do sol em uma praia ainda deserta. Nunca havia prestado atenção nas cenas da vida e, após o espetáculo dado pelo sol, ficou ouvindo o canto hipnotizante do mar. Presenciou a chegada das pessoas à praia, o prazer que cada uma sentia em estar ali e a alegria das crianças. Continuou então, a caminhar anônima pela cidade, em meio ao corre-corre metropolitano. Reparou na pressa das pessoas para chegar aos seus locais de trabalho e, não entendeu o porquê de tanta pressa para estar diante de preocupações, dificuldades, obstáculos e problemas. Diante da construção de um gigantesco edifício, parou e ficou observando o homem que mesmo trabalhando sob um sol escaldante, cantava e parecia feliz. Afastou-se da cidade, chegando aos campos e pradarias. Por um instante, invejou a tranquilidade do camponês, que sentado admirava o horizonte infinito e belo. Sentiu o perfume das flores, acompanhou o vôo dos insetos e o trotar indomável da manada de corcéis que exalava liberdade e vida. Caminhou mais um pouco e chegou a uma exuberante floresta, onde examinou as diferentes árvores, as várias espécies de plantas e animais que faziam a floresta parecer encantada. Ouviu com atenção e pela primeira vez, os diferentes cantos das mais variadas espécies de coloridos pássaros. Mais adiante, pôs-se a observar um ruidoso rio que corria cortando a mata. Viu no seu leito, os peixes velozes e saltitantes e ouviu a relaxante melodia das águas se transformar em um poderoso estrondo ao chegar a uma abissal cachoeira. Curiosa, ergueu a mão sem vida até o branco véu líquido e, sentiu pela primeira vez, o frescor das águas, arrepiando-se ao experimentar o toque da vida. Continuou caminhando e chegou aos pés de uma enorme e íngreme montanha onde parou para contemplar o vôo imponente e solitário de uma águia. No cume da montanha abaixou-se e pegou um punhado de neve, examinando sua consistência e candura.
E assim, caminhando pelos quatro cantos do mundo, a Morte, sempre infalível, concluiu que, desperdiçara sua longevidade olhando apenas para a escuridão. Certeira em ceifar a vida, nunca havia percebido sua diversidade e exuberância.
Relembrando cada momento de sua caminhada, sentiu um pesado fardo por privar tantos, das maravilhas que acabara de descobrir. Atormentada por um inédito sentimento de culpa, conhecedora de sua invulnerabilidade e, sabedora de que somente por suas próprias mãos poderia ser erradicada, a Morte, arrependida, como Iscariotes enforcou-se, liberando a imortalidade acumulada ao longo de milênios, sobre a humanidade, que após absorver tamanha carga de energia, transcendeu, evoluindo mais um passo.
A Morte finalmente compreendera seu papel na criação ao abdicar de sua existência. O homem tornou-se imortal, Deus sorriu e, novamente pôde descansar mais um dia.
Mas somente um dia, pois em algum lugar do universo, em uma longínqua galáxia, uma nova espécie cometia o pecado original, fazendo com isso, nascer um ser chamado Morte.
Autor: Cicero Coutinho
Belíssimo...! Criatividade a toda prova, e aprovada! Parabéns pelo blog! Que delícia encontrar quem ama as palavras!!!
ResponderExcluirSimplesmente fantástico!
ResponderExcluirMais uma vez vejo o quanto a sua perpepção é brilhante.
A morte sempre tão citada, seja por José Saramago ou em Machado de Assis, adquire aqui uma nova e instigante face.
Parabéns, Cícero! Continue nos brindando com seus contos.
olá cicero obg pelo convite blog bonito...
ResponderExcluirés muito talentoso parabens pelo blog .
bjs adicionei aos meus favoritos
Muito bom seu texto, uma lição de vida tendo como protagonista a morte, bem pensado só tenho que lhe dar os parabéns.
ResponderExcluirMuito bom,esse texto sobre a Morte faz com que pensemos cada vez mais em algo que é difícil demais de se compreender!
ResponderExcluirAdriana
hola obrigado pelo convite. muito bom texto.
ResponderExcluirEsse texto é excelente e nos faz pensar bastante de como estamos encarando a vida, ou como não sabemos compreende - la.
ResponderExcluirVisitarei mais vezes a página.
(=
Nossa, maravilhoso isso! Você é um artista. Eu adoro o tipo de leitura que prende a gente, não importa se é um texto, frase ou poesia. Adorei. Parabens.
ResponderExcluirachei muito bom o texto, uma leitura muito interressante, adorei!
ResponderExcluirBjus
Achei lindo o texto!
ResponderExcluirGostei da profundidade de pensamentos que ele expressa.
Adorei o texto! Achei incrível mesmo.
ResponderExcluirParabéns e continue escrevendo *-*
Vc vê a morte como fruto do "pecado" original?????
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