VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Leia e pense...

Há três coisas que não voltam atrás: a palavra pronunciada, a flecha lançada e o tempo perdido.
                                              (Provérbio chinês)
O TEMPO, A PALAVRA E A FLECHA...
Em um dia frio e solitário ela apareceu. Parecia o prenúncio do verão, com suas cores, sua alegria e seu calor. Falou no plural, e ele, acostumado ao solitário singular, gostou e acreditou. A fria incerteza do inverno deu lugar a quente euforia do verão.  O silêncio e a falta de palavras foram substituídos pelo mantra doce e criativo do verbo. O um passou a ser dois, o eu passou a ser nós. Os dias ficaram curtos e as noites eternas. A solitária jornada de fuga transformou-se em uma agradável viagem a dois. O caminho longo, estreito e incerto, abriu-se em uma larga avenida de esperanças. Não importava se fazia sol, chovia ou nevava, os dias eram sempre alegres e as noites estreladas e aconchegantes. O antes impossível passou a ser uma grande possibilidade. O horizonte distante e inatingível passou a ser apenas uma questão de tempo. E o tempo parecia conspirar a favor.
Com tudo isso, a prontidão e a vigília foram relaxadas. O risco esquecido. A amizade deificada. A confiança exagerada. A razão abandonada.
Os olhos viam, mas não enxergavam. Os ouvidos ouviam, mas não escutavam. A consciência aconselhava, mas era ignorada.
Em um dia quente e alucinante, ela, roubando o seu arco, atirou contra ele, uma de suas próprias flechas. Depois, simplesmente se foi, como se aquele tempo nunca houvesse existido.  O ferimento foi leve, mas ao mesmo tempo mortal. A dor física seria anestesiada e superada, mas a dor psíquica um eterno tormento. A carne logo cicatrizaria, mas a alma sangraria para sempre.
Em um dia como todos os outros, ele descobriu que pensamentos nunca são exatamente iguais, nem tão pouco sentimentos exatamente recíprocos. Descobriu que a amizade sempre anda de mãos dadas com o interesse, que o respeito é considerado ultrapassado e senil e, que a gratidão é leviana e mundana. Após tantas descobertas, ele reencontrou o próprio caminho, já esquecido. Porém, este já não se apresentava mais longo e estreito. Havia sim, esperanças, possibilidades e escolhas nunca antes notadas. Então ele percebeu que embora sua dor e seu sangramento fossem eternos, eles eram apenas registros de um tempo, de uma experiência que deveria ser lembrada, mas não repetida. Retomou sua jornada consciente de que teria para sempre, sua dor como companheira e conselheira, e tendo a certeza de que infeliz é aquele que caminha tendo a traição e o arrependimento como perseguidores e acusadores.
                                                         
                                                         Autor: Cicero Coutinho

domingo, 23 de janeiro de 2011

Leia e pense...

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
                                         (Clarice Lispector)
CÍRCULO VICIOSO - Parte V
O sinal abriu e Rangel estacionou rapidamente no primeiro espaço que encontrou junto ao meio-fio e, não hesitou em dar uma carteirada no flanelinha que apareceu como que por encanto. Procurando não perder o homem de vista, ele deu uma corridinha. A multidão na calçada não facilitava o acompanhamento de longe do suspeito, que caminhava a passos largos. De repente, ele parou diante de uma vitrine e olhou para trás, na direção de Rangel, como se já tivesse percebido seu perseguidor. Neste exato momento, um ônibus atropelou junto ao meio fio, um pedestre que tentou atravessar a rua em meio ao fluxo de veículos. Rapidamente, Rangel juntou-se às pessoas que rodearam a vítima caída e, disfarçadamente continuou a observar o seu suspeito, que aproveitando o tumulto continuou sua caminhada. Antes de sair da roda de curiosos que cercavam a vítima, ele notou no semblante do homem caído sobre o sangue que escorria, um leve sorriso, enquanto este olhava para o céu. Rangel olhou rapidamente para o céu na tentativa de ver o que provocava no homem, um sorriso, em um momento tão trágico. O suspeito já ia longe, em meio à multidão, e entrou em um edifício garagem. Calculando que não teria tempo de voltar para pegar o seu carro, Rangel resolveu aproximar-se o máximo possível. Ao chegar ao estacionamento do primeiro nível, já havia perdido o contato visual. Começou a caminhar silenciosamente por entre os vários carros, até ver um automóvel preto com vidros cobertos com uma película negra que impedia a visualização do interior. Aproximou-se devagar e junto à porta do lado oposto ao motorista, abaixou-se, colocando as mãos em concha ao lado dos olhos tentando ver o interior. A porta abriu-se de repente e com violência, arremessando Rangel para trás. Atordoado com a pancada ele levantou-se, sendo atingido por um soco e caindo novamente.
            ─ Quem é você? E porque está me seguindo? ─ perguntou o agressor.
            ─ Eu não estava seguindo você. ─ respondeu Rangel tentando ganhar tempo para recuperar-se. ─ Só achei o carro bonito e queria ver o interior. Não queria roubá-lo, nem sabia que você estava aí dentro.
            ─ Você está mentindo. Eu já havia percebido você me seguindo na rua. Pude sentir seu cheiro me acompanhando por um bom tempo. Fale logo quem é você.
Percebendo que sua situação não era das mais favoráveis, Rangel sacou sua pistola e levantou-se. O homem arregalou os olhos, mas manteve-se parado.
            ─ Sou policial e, só quero fazer algumas perguntas. Não me obrigue a atirar. Poxa! Você é forte. Meu rosto tá doendo. Mas vamos começar pelo seu nome, depois você me explica esse negócio de sentir meu cheiro te acompanhando.
            ─ Meu nome é Lúcio. Eu sou professor de educação física e não devo nada a polícia.
            ─ Eu não disse isso Lúcio. Aliás, você me agrediu sem eu ter dito nada. Mas isso...
Nesse momento, uma mulher entrou no estacionamento, e ao ver Rangel de arma em punho, gritou. Aproveitando-se do momento de distração, Lúcio rapidamente investiu contra Rangel, segurando seu braço pelo pulso. Os homens se atracaram, mas a superioridade física de Lúcio fez a diferença. Sem muito esforço ele conseguiu desarmar Rangel, que não agüentando a dor no pulso, soltou a pistola. Lúcio chutou a arma com enorme violência provocando um disparo. Enquanto a mulher corria desesperada e gritando, ele arremessou Rangel sobre um dos carros, e em seguida saiu em disparada, cantando pneus como nos filmes policiais. Alguns minutos depois, com dor por todo o corpo e completamente arrasado, Rangel inventava uma história para os seguranças do edifício.
Lúcio entrou nervoso e começou a contar o que havia acontecido. Depois de ouvi-lo a mulher que vestia somente um roupão, tentou acalmá-lo.
            ─ O policial não fez nenhuma acusação. Talvez tenha confundido você com outra pessoa.
            ─ Não sei não, Edna. Acho que eu deveria tê-lo matado. Só por precaução. Agora ele vai ficar me procurando em cada rua, em cada esquina.
            ─ Nisso você está certo, mas se houver um novo encontro, você já sabe o que fazer. E troque logo de carro, o mais rápido possível. Ele deve ter anotado a placa. E nada de "batmóvel" desta vez, seja um pouco mais discreto. Agora vá tomar um banho, ainda temos algumas horas antes da viagem.
            ─ Temos mesmo que ir? Eu não gosto desse idiota metido a gostoso.
            ─ Deixe de ser bobo. Você sabe muito bem que Ronaldo e eu não temos mais nada além de negócios.
Edna sentou-se na borda da cama, derramou um pouco de creme hidratante na mão e pôs-se a espalhá-lo pelas pernas. Ao mesmo tempo, se indagava se o homem que abordara Lúcio era realmente um policial ou estaria tentando localizá-la. Poderia ser simplesmente um desgarrado em desespero ou estar a serviço da misteriosa rival, cuja presença era cada vez mais perceptível. Lúcio saiu do chuveiro e ao vê-la sentada com o roupão aberto revelando parte de seu corpo, aproximou-se, ajoelhando-se diante dela, em uma atitude de total reverência e submissão. Admirando-se no grande espelho da parede e desprovida de qualquer sentimento ou emoção, ela, abriu lentamente as pernas, dando-lhe acesso ao seu sangue de deusa. Era assim que mantinha seus lobos fiéis e dedicados. Generosa em doar seu sangue e seu sexo, ela sabia que na hora de um confronto, só poderia mesmo contar até o fim, com os principais integrantes do seu círculo, com o seu tetrakis.
Furioso, Rangel tomou de uma só vez dois comprimidos de analgésico. Em todos os seus anos de polícia, jamais havia sido tão humilhado. Espancado e arremessado como um passivo boneco de Judas. Apesar do visível mau-humor do amigo, Alice achava graça nos resmungos de Rangel, mais pelo orgulho masculino ferido do que pelas dores.
            ─ Você tem certeza disso? Só em histórias de vampiros que vi algo parecido. Será que você não está lendo demais essas sagas que estão na moda?
            ─ Eu não leio essas sagas feitas para adolescentes românticas e apaixonadas, Alice. Minhas leituras sobre temas sobrenaturais são mais sérias e profundas. É o que estou dizendo. O rosto dele não pode ser visto com clareza no espelho. Eu pratico caratê, tenho quase um metro e oitenta e sou bem pesadinho, mas mesmo assim não pude com ele. Sinto até vergonha de dizer, mas ele tirou a pistola da minha mão como se tira um pirulito de uma criança. Depois me arremessou como um boneco sobre um carro.  Ele é forte e rápido, poderia ter me matado facilmente.
            ─ E porque não matou então?
            ─ Talvez, ele seja muito confiante, ou tenha preferido me deixar com essa dúvida.
            ─ Pare de pensar nisso um pouco. Você precisa descansar. Vá para casa e, continue tomando o analgésico. Mas é para tomar um comprimido a cada oito horas, e não dois. Ouviu?
Fazendo cara de desentendido, Rangel saiu, acariciando, seu ainda dolorido, pulso direito.
No final da tarde, quando Alice preparava-se para ir embora, seu celular tocou. Era Júlia, sua melhor amiga, convidando-a para um programa de fim de semana.
            ─ Amiga, fui convidada para um festão, um xurras que vai durar dois dias. E quero que você vá comigo. Desta vez você tem que ir, pois não vamos ter que nos preocupar com nada, nem com transporte.
            ─ E onde é esse festão, Júlia? ─ perguntou Alice sem muito ânimo.
            ─ Em uma fazenda de um ricaço amigo de uma amiga minha. Vamos de jatinho amiga, coisa de gente muito fina. É um encontro, tipo de mulheres solteiras e independentes que estão procurando por homens solteiros e independentes também. Só partidão. ─ explicou Júlia super entusiasmada.
            ─ Mas não vai dar Júlia. Estou fazendo uma pesquisa para o Rangel. Ajudando-o em um caso meio complicado. Na próxima vez eu juro que vou.
            ─ Você não tem jeito mesmo, amiga. Assim vai acabar ficando pra titia. Mas pode deixar que na segunda-feira eu te conto como foi. Beijo.
Alice resolveu passar em uma livraria antes de ir para casa. Sua biblioteca possuía um número considerável de livros, mas nada sobre magia negra e afins. Esses temas pareciam até então, coisa de cinema ou histórias em quadrinhos. Mas a mumificação rápida e inexplicável do cadáver a fez repensar seu ponto vista, além do mais, já havia ouvido de Rangel vários relatos de casos considerados no mínimo bizarros. Depois de examinar vários livros, resolveu seguir a sugestão do atendente e levar um exemplar de um "Dicionário de Magias e Rituais".  Algumas horas depois, sentada em sua cama, Alice, vestindo camiseta e calcinha brancas, cabelos presos para trás, os óculos na ponta do delicado nariz, transformava sem perceber, o simples ato de ler um livro, em um momento de sensualidade, beleza e muita magia. Começava, ainda com certo ceticismo, a leitura sobre um assunto praticamente desconhecido para ela, mas a cada linha lida, tentava visualizar a cena descrita e transportar-se para o momento mágico, em um inconsciente ritual de visualização.
Desesperada ela corria sem rumo. Os galhos das árvores e arbustos feriam seu corpo. Os tombos a enfraqueciam. Não entendia como, mas podia sentir a presença dele, sentir seus passos na terra, seu cheiro no ar. Um cheiro forte, másculo, que causava medo e ao mesmo tempo desejo, despertando a libido. Já não sabia mais se desejava fugir ou entregar-se.  Um novo tombo e não teve mais forças para levantar-se. Então, ela o viu. Seu corpo apolíneo era atraente, seu rosto meio homem, meio fera, assustador. Seu olhar penetrante era pura lascívia. Medo e desejo se misturavam a cada passo de aproximação. Examinando seu corpo caído ele farejou o ar, em seguida, em total silêncio avançou sobre ela.
Alice despertou assustada. Adormecera durante a leitura e tivera um sonho incomum. Mais incomum ainda, era o estado em que se encontrava. Seu fluxo menstrual viera forte, abundante, tingindo não somente sua calcinha, mas também sua cama, como uma delimitação de território. Um fato inédito que a deixou impressionada e constrangida.
Alguns andares acima, Aquiles despertou com o cheiro forte de sangue. Não era o sangue de Ísis, adormecida ao seu lado. O odor diferente parecia chamá-lo, atraí-lo. Atendendo ao chamado, ele começou a descer as escadas do prédio, sentindo cada vez mais o odor a invadir-lhe. Seus instintos o levaram ao que parecia ser o ponto de origem. Diante da porta, tocou a campainha.
No interior, Alice tentou sem sucesso identificar o inesperado visitante pelo olho mágico. Ao entreabrir a porta, recuou dois passos ao ver Aquiles. O encontro de olhares foi fulminante.  A sensação de medo e desejo era idêntica a que sentira no sonho. Ele entrou e fechou a porta atrás de si. Como que hipnotizada, ela, de costas, continuou a recuar, sendo seguida por ele. Ao tocar sua cama com as pernas, ela parou. Ele olhou por sobre seus ombros, a cama ainda manchada. Aproximou-se com o olhar fixo, penetrante e, silenciosamente, sem nenhum ruído, sem nenhuma palavra, atirou-se sobre ela.

                                                        Autor: Cicero Coutinho

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Leia e pense...

O homem é o lobo do homem.
                   ( Titus Maccius Plautus)
CÍRCULO VICIOSO - Parte IV
Em alta velocidade, o caminhão percorria a estrada sem sinalização e sem policiamento. Na boléia, o motorista assobiava satisfeito, ansioso em chegar logo ao seu destino e receber o pagamento. No baú da carroceria, cinco meninas, eram transportadas às escondidas, amarradas e amordaçadas em meio à carga. A mais nova delas, aparentava não ter mais de dez anos de idade e, havia sido vendida pelo próprio pai ao motorista, que a chamava de preciosidade, nos poucos momentos em que parava o caminhão para dar-lhes água com biscoito e deixá-las, uma de cada vez, usar o mato como banheiro, sob seus olhares de cobiça. Evitando o máximo possível trafegar pelas estradas principais, o pernoite era quase sempre feito em casas de beira de estradas secundárias, onde os miseráveis proprietários em troca de qualquer quantia em dinheiro cediam um local para estacionar o caminhão, o direito de usar o banheiro quase sempre sujo e, quando havia, um prato de comida. Depois ele retornava ao caminhão onde escolhia uma das meninas para satisfazer seus desejos, excluindo desta escolha a preciosidade. Caso não se submetessem e fingissem prazer, as meninas eram espancadas, estupradas e ainda perdiam direito aos biscoitos, tendo que se contentar somente com a água. E assim, João das cabritas, como era conhecido, ia tocando sua vidinha medíocre, se achando o mais esperto dos homens. Em meio aos fretes, quase sempre havia a venda de meninas para os mais diversos tipos de clientes. Desta vez a entrega seria na Fazenda Colina dos Lobos, cujo proprietário era um dos seus melhores e mais assíduos clientes. Ao parar diante da porteira principal, foi logo reconhecido pelo peão que tomava conta da entrada, que mais parecia um soldado, de tão bem armado que estava. Seguiu na estrada de terra que ia para o interior da propriedade, no sentido oposto ao casarão principal, onde havia outra casa em estilo colonial em meio a uma floresta particular. Na varanda, sentado em uma cadeira de balanço, um homem observava enquanto João saía do caminhão.
            − Tarde, seu Geraldo. Vim entregar a carga. – disse João tentando ser simpático.
            − Quantas dessa vez? – perguntou Geraldo, com frieza.
            − Cinco. Cinco cabritinhas, sendo que a mais nova só tem onze anos, nunca foi bulida. Nem ficou regrada ainda.
            − Traga as meninas e vamos terminar logo com isso.
João voltou ao caminhão e soltou as meninas que, uma a uma, foram saindo assustadas e temerosas com o que iria acontecer. Geraldo se aproximou, parando diante de cada uma, fazendo uma avaliação silenciosa e ameaçadora. Depois, virou-se e subiu até a varanda, onde tocou um pequeno sino, pendurado no beiral. Uma senhora com os cabelos quase totalmente brancos e um avental de plástico sobre o vestido, apareceu encarando as meninas. Ao sinal de Geraldo, ela, acompanhada de dois homens, guiou as meninas por um caminho na lateral esquerda da casa. Quando todos sumiram de vista, Geraldo tirou do bolso do colete, um maço de notas de cinquenta reais e entregou a João das cabritas, que sorrindo conferiu.
            − Poxa, seu Geraldo... A cabritinha novinha vale um pouco mais. É uma preciosidade, nunca foi bulida e nem...
Antes que João terminasse, Geraldo jogou no chão, um novo maço, desta vez menor, fazendo sinal com a mão para que João se retirasse. O caminhoneiro pegou o maço e, sem contar, colocou no bolso, voltando sorrindo para o caminhão. Antes de dar a partida, pôs a cabeça para fora da boléia, falando alto, como se estivesse muito longe.
            − Obrigado, seu Geraldo. Quando precisar de uma nova remessa é só fazer contato.
Satisfeito com o pagamento ele saía da Colina dos Lobos, sem se importar com o que aconteceria com as meninas, estava mesmo era aliviado em afastar-se de Geraldo, a quem temia, desde o primeiro encontro, quando fez a entrega da primeira remessa de meninas. E foram tantas remessas, que já não sabia mais quantas.
Com o rádio transmissor na mão, Geraldo jogou fora o cigarro e ligou para o casarão principal da fazenda.
            ─ Doutor Ronaldo, a remessa chegou.
            ─ Ele trouxe tudo que foi pedido?
            ─ Trouxe sim senhor. A Elza está cuidando delas agora.
            − Qual o número da sorte?
            − Ele disse que é onze.
            − Ótimo. Trate bem delas, principalmente a número onze. Irei mais tarde para verificar tudo.
Ronaldo Galdino era um homem rico e poderoso, que desejava ardentemente a imortalidade. Desde que, descobrira-se um lobo, dedicou-se a estudar o Tantrismo, o Taoismo, a Magia Sexual e tudo o mais que acenasse com uma pequena possibilidade de transformar sua longevidade em imortalidade. Nas muitas viagens que fez, conheceu vários lobos como ele, e também algumas vampiras. Em um desses encontros, tomou conhecimento de um ritual de transferência de imortalidade de uma vampira para um lobo. E era exatamente o que pretendia fazer, criar condições para a reprodução deste ritual, no qual absorveria de uma vampira, o fluído vital, que o faria também um imortal, um lobo imortal.
Elza levou as meninas para um pequeno galpão, onde todas puderam depois de dias, usar um banheiro com privacidade, tomar um banho e vestir roupas limpas. Após a sessão de higiene, cada uma recebeu um prato de comida, que foi apetitosamente devorado. Terminado o banquete, foram levadas para um cômodo grande com várias camas beliche onde puderam dormir e sonhar com dias mais felizes.
Diante do cadáver, Alice explicava a Rangel a impossibilidade de um corpo atingir tal estado de mumificação em apenas alguns dias. Agora irreconhecível, o corpo da mulher era literalmente pele e ossos e, parecia ter sido retirado de alguma escavação arqueológica.
            ─ A mumificação natural pode acontecer, mas não tão rápido assim. São necessárias algumas condições bem específicas. Além disso, os casos mais rápidos de que se tem notícia, levaram algumas semanas e não alguns dias.
            ─ Então, estamos diante de vários mistérios.  Quem matou? Porque matou? E como ela ficou desse jeito? E o pior, é que ainda estamos no zero, sem pista alguma. Mas acho que há algo relacionado com magia negra. Sabe como é... Alguns malucos ficam pesquisando em livros e na internet, e depois se acham os donos da magia. Eu listei algumas comunidades suspeitas que achei na rede, não custa nada averiguar,
            ─ E sobre a identidade dela?  Você não conseguiu nada nos registros da polícia?
            − Ainda não. Nem em alguns registros de pessoas desaparecidas que verifiquei, a descrição bate com a dela. Alice, há mais alguma coisa que você queira me mostrar?
            − Por enquanto é só isso, Rangel. Queria que você a visse com seus próprios olhos
− Meu Deus! Se eu não a tivesse visto antes, não acreditaria que esta múmia é ela. – disse Rangel já saindo. – Obrigado Alice, ficaremos em contato.
Rangel gostava de dirigir pela cidade, de observar as pessoas e seus comportamentos. Já havia tido a sorte de encontrar pistas para solucionar alguns casos, simplesmente circulando pela cidade e observando as coisas acontecerem. E desta vez, o pensamento de que deveria procurar pistas durante a noite, não lhe saía da cabeça. Ao parar o carro no sinal, recebeu de uma senhora uma folha de papel com a cópia da fotografia de uma menina desaparecida. Abaixo da foto algumas informações sobre a menina e telefone para um possível contato. Pôs a folha sobre o banco do carona e começou a imaginar o que poderia ter acontecido com a menina, mas seus pensamentos logo retornaram para o caso da múmia do motel, que também era uma desaparecida e, certamente estaria sendo procurada por parentes e amigos aflitos.
A cada ano, aumentava o número de pessoas desaparecidas, que simplesmente sumiam, como se nunca tivessem existido. Vítimas de acidentes e assassinatos, algumas eram, por falta de identificação, enterradas como indigentes e esquecidas de vez, exatamente o que teria acontecido com a mulher do motel, se não fosse a sua rápida e ainda inexplicável transformação, outras pareciam transportadas para uma invisível e inacessível dimensão, sem deixar qualquer pista sobre seus destinos. Desconfiado, como todo policial, Rangel olhou pelo retrovisor, para um homem que, apressado, atravessava a rua por trás do seu carro. Quando este olhou para o lado, Rangel arregalou os olhos ao verificar que ao contrário do corpo, o rosto do homem era refletido de forma embaçada, impedindo sua identificação.
            − Meu Deus, é ele! Só pode ser ele! – disse para si mesmo, lembrando-se da imagem capturada pela câmera do motel.

                                                          Autor: Cicero Fernando Coutinho

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Leia e pense...

Eu viverei para sempre ou morrerei tentando.
                         (Spider Robinson)