VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Leia e pense...

É uma infâmia nascer para morrer, não se sabe quando nem onde.
                                    (Clarice Lispector)

CÍRCULO VICIOSO - Parte II

A legista do IML estava impressionada. O corpo sobre a mesa apresentava características atípicas às encontradas em um cadáver. Os órgãos internos pareciam ter sido esvaziados repentinamente, de uma forma brusca. Porém, o pescoço quebrado era o único sinal de violência, por isso, Alice chamara o detetive Rangel, um amigo de longa data, que sempre se interessava por casos difíceis.
    ─ Entre Rangel. ─ ela disse ao vê-lo espiando pela vigia da porta.
    ─ Tudo bem, Alice? É esse o corpo do motel?
    ─ Sim. Aproxime-se e veja isto. Os órgãos dela parecem ter sido esvaziados, como uma bola de borracha. Ela está murcha, sugada por dentro, nunca vi nada parecido.
    ─ O pescoço foi quebrado? ─ perguntou Rangel, abaixando-se para ver melhor a face sem cor do cadáver.
    ─ Sim. E, além disso, só há vestígios de relação sexual.
    ─ Encontrou esperma?
    ─ Sim, mas sem um suspeito não se pode fazer nada com o esperma encontrado.
    ─ Entendo. Este caso parece ser dos bons. A câmera do portão principal do motel, por incrível que pareça, apresentou um problema justo na hora em que o carro no qual ela estava foi filmado.
    ─ Que tipo de problema?
    ─ A imagem ficou embaçada e não é possível identificar a placa do carro. O vídeo já foi periciado e não há sinais de ter sido editado ou violado.
    ─ E os depoimentos dos funcionários do motel?
    ─ A única informação dada por eles, foi que um homem moreno, estava com ela. Nada mais de relevante. E, além disso, nada que pudesse identificá-la foi encontrado. Mas mesmo assim vou pedir ao delegado para assumir as investigações. Tem algo de diferente nesse caso. Qualquer descoberta que você faça aí no corpo, por favor, me avise Alice.
    ─ Pode deixar Rangel. Você será informado de qualquer novo detalhe que surja. Também fiquei curiosa e vou me empenhar na busca de mais informações.
Acostumado a investigar casos difíceis e até alguns considerados sobrenaturais, Rangel também ficara impressionado com o estado do corpo da mulher. Alice tinha razão, era como se o corpo tivesse sido esvaziado, como se a vida tivesse sido aspirada deixando a pele e os órgãos murchos e esbranquiçados. Uma morte incomum, mais incomum ainda, por ter ocorrido durante um momento que deveria ser de prazer e não de dor. O sexo ─ pensava ele enquanto caminhava ─ deveria ser um ato de celebração à vida e não um ritual de invocação e oferendas à morte.

A mulher aparentando seus cinquenta anos de idade, mas ainda muito bela, abriu a janela e pôs-se a observar as pessoas que estavam na praia aproveitando o fim de tarde. Depois virou-se e, com satisfação, sorriu ao ver os dois homens no mais profundo sono em sua cama. Dois atletas sarados levados a nocaute por ela. Diante de um enorme espelho que cobria uma das paredes, parou e contemplou-se. Seu corpo ainda era belo e atraente, sua pele ainda possuía maciez e elasticidade. O tempo passava, mas os sinais provocados por essa passagem eram bem sutis, nada que afetasse sua beleza. Seu apetite ainda era insaciável, mas já não era tão fácil manter o controle sobre dois ou mais parceiros, precisava agora de mais concentração. Porém, ela sentia que já não era a única a usufruir da fonte, a ter conhecimento do segredo. Ela sempre soubera da existência de outras, mas nunca sentira uma proximidade tão grande, uma invasão de seus domínios. Os tempos eram outros, a população havia crescido consideravelmente tanto em número, quanto em qualidade, e era perfeitamente normal o aparecimento de outras. Não se incomodava em dividir, o incômodo estava na possibilidade de perda de soberania, em deixar de ser o alvo das atenções. Um paradoxo relacionado ao ego feminino.
Já era madrugada, quando os dois homens finalmente despertos, despediram-se. Ela ainda nua, os acompanhou até a porta do apartamento.
    ─ Vão, meus queridos. Vocês precisam repor as energias. Quando estiverem prontos, voltem.
Enquanto observava-os afastando-se, ela pensava que bastaria vigiá-los para encontrar sua rival. Mais cedo ou mais tarde, eles também a perceberiam e ficariam excitados com a nova oferta. Por enquanto, ela deixaria tudo como sempre fora, daria continuidade ao ciclo, pois seria necessário estar forte e, principalmente bela, para o inevitável encontro. Tomou um "banho de Cleópatra", depois espalhou por todo o corpo diferentes tipos de cremes, após alguns minutos perfumou-se e, como de costume, pôs-se a admirar-se diante do seu mais fiel companheiro, o espelho que cobria totalmente uma das paredes do quarto. Admirando-se em vários ângulos e posições, pegou o telefone celular e ligou para mais dois dos seus queridos, convocando-os para uma visita no dia seguinte. Deitou-se no centro da cama, completamente nua, macia, perfumada e dormiu com a serenidade de um anjo repousando sobre uma nuvem. 

Pela manhã, Rangel resmungava contra o engarrafamento no qual se encontrava, quando recebeu um alerta no seu celular. Era uma mensagem de Alice sobre a mulher encontrada morta no motel. Ela informava que os órgãos internos haviam secado, assim como todo o corpo, que parecia estar entrando em um processo natural de mumificação. Depois de momentos de prazer, morrer assim, de uma maneira tão macabra ─ pensou enquanto guardava o celular no bolso e concentrava sua atenção no caso, esquecendo-se do engarrafamento. ─ Pegou um pequeno bloco onde anotou em uma sequencia, a palavra "mumificação", um novo assunto sobre o qual precisaria pesquisar e que tornava o caso ainda mais interessante. Isso está parecendo magia negra, algum tipo de sacrifício humano. ─ pensou enquanto mudava a marcha e acelerava o carro.

Após cortar em vários pedaços os cartões bancários e documentos que havia subtraído de sua vítima, o homem pacientemente jogava-os um a um na fogueira improvisada dentro de um balde de alumínio. Não sabia como, mas ao tocar nos cartões tomara consciência das senhas de cada um e, ao experimentá-las em um caixa eletrônico, vibrou ao ver cada uma ser aceita e o dinheiro ser liberado. Em poucos minutos tinha em mãos uma quantia em dinheiro a qual nunca imaginara conseguir de maneira tão fácil, tudo isso sem contar o dinheiro da venda do carro que ela havia deixado no estacionamento, para um desmanche de automóveis. Os jornais não haviam dado muito destaque ao crime do motel, mas precavido, ele queimava tudo que pudesse relacioná-lo. Não sentia nenhum remorso pelo ato praticado, somente uma enorme expectativa pela próxima experiência. Conectado à internet, começou a analisar em uma rede social, perfis de mulheres que poderiam além de prazer, proporcionar alguns saques generosos. Precisava saber se as sensações se repetiriam e, se realmente havia adquirido habilidades mais que especiais. Selecionados alguns perfis, pôs-se a escolher no recém reformulado guarda-roupas um traje que causasse impacto e o deixasse com a elegância e glamour dos agentes secretos do cinema. Colocou o traje escolhido diante do corpo e ficou satisfeito com sua imagem, agora um pouco menos embaçada, refletida no espelho. As ovelhas que se cuidem, porque essa noite, o bicho tá solto. ─ pensou sorrindo para si mesmo.

Ao longo dos séculos, o espelho tem exercido um fascínio especial sobre homens de todas as raças e credos. O culto ao belo, a tentativa de preservação da juventude e o desejo de imortalidade sempre refletiram-se em espelhos. Com lobos e vampiros não era diferente. Criaturas que buscam incessantemente beleza, imortalidade e poder, tinham como principal característica o narcisismo e consequentemente um grande prazer em admirar suas próprias imagens. A crença de que um vampiro não reflete sua imagem em espelhos, não passa de lenda. Não é tão fácil assim identificar um ser tão poderoso, simplesmente pela falta de reflexo em um espelho.

A jovem mulher também diante de um espelho preparava-se para sair. Seu corpo perfeito parecia ter sido talhado por um escultor divinamente inspirado. Os cabelos lisos, longos e pretos, os olhos com a cor e o brilho da lascívia, os lábios desenhados e cobertos por uma apetitosa polpa vermelha, e o sorriso malicioso e debochado, completavam a escultura humana. O andar firme, ereto, feminino. As roupas cuidadosamente escolhidas deixavam à mostra somente o que poderia ser visto, ficando o restante por conta da imaginação de cada observador. Um saboroso deleite e ao mesmo tempo uma dolorosa, mas também, desejável tortura. A própria Vênus deveria invejá-la e ter momentos de descontentamento e fúria ao vislumbrar tamanha beleza. Gata, leoa, pantera, não importava como a chamariam os homens. Seu instinto felino estava aguçado, suas garras afiadas, seu cio insaciável. A noite prometia...

                                                       Autor: Cicero Fernando Coutinho

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Leia e pense...

Aquele que não evita o vício, fará dele o seu suplício.
                                    (Adágio popular)

CÍRCULO VICIOSO - Parte I


Não havia como não notar. Chegava a ser humilhante para as outras mulheres, mas a verdade é que, ela conseguia hipnotizar os homens, apenas com o seu jeito de caminhar. Todos a olhavam e desejavam, era uma reação instintiva, incontrolável, animalesca. E ela sabia, com uma maestria perversa, usar todo esse poder de fascinação em proveito próprio.
Quando se deu conta desse poder e, de como poderia usá-lo, sua vida modificou-se completamente. A cada mês que passava sentia-se mais habilidosa, mais voraz, mais poderosa e sem limites. Tudo que havia lido, que havia aprendido, estava incorreto e totalmente distante da verdade. E agora, mais uma vez, chegava a hora do ciclo se repetir, chegava a hora de exercitar o seu poder e alimentar-se do elixir da vida.
Dentro do carro o homem olhava impaciente para o relógio. Não podia mais disfarçar sua ansiedade, afinal estava esperando por uma deusa, uma mulher como jamais havia visto antes. Ao vê-la finalmente se aproximar, apressou-se em abrir a porta, tentando mostrar-se o mais confiante possível.
    ─ Demorei? ─ ela perguntou com uma voz propositalmente provocante.
    ─ Não. Você está linda. Valeu à pena esperar.
    ─ Tem certeza de que realmente quer ir?
    ─ Claro! Não se preocupe.
Já inebriado pelo perfume dela, ele deu partida no carro. Mal podia esperar para ter em seus braços, aquele corpo, aqueles cabelos, aquele olhar. Entraram na suíte do motel e, ele já sem poder se controlar, avançou sobre ela, que repudiou seu ataque.
    ─ Calma. Assim você não aproveita nada. Sente-se na cama e saboreie o show que vou fazer para você.
Sentindo-se o mais sortudo dos homens, ele de imediato obedeceu. Com movimentos felinos, ela começou um strip tese que o fez suar e excitar-se tanto a ponto de quase ter uma polução. Depois de alguns minutos, sem tirar os sapatos de salto que a deixavam ainda mais esguia e sedutora e, vestindo somente uma linda e minúscula calcinha vermelha, ela sentou-se com a elegância de uma rainha no pequeno sofá que havia na suíte. Com um olhar obsceno, convidou-o a aproximar-se, mas antes que ele a tocasse, ela levantou a perna, repousando o pé no peito dele e impedindo o seu avanço.
    ─ Você sabe o que deve fazer primeiro, não sabe?
    ─ Sei, e estou louco por isso.
    ─ Vai ter mesmo coragem? ─ ela perguntou, enquanto movimentava o pé para os lados no peito dele.
    ─ Não preciso de coragem. Só preciso da vontade que estou sentindo agora.
Ela sorriu e o empurrou levemente para trás com o pé, abaixando a perna ao mesmo tempo em que abria o pequeno fecho lateral e despia a calcinha. Depois fez sinal para que ele se ajoelhasse e diante dele abriu seu corpo, revelando seu fluxo menstrual.
Já, totalmente fora de controle e, como havia prometido, ele lançou-se para frente, lambendo seu fluxo como se estivesse sedento de sangue. Ela segurou-lhe a cabeça entre as pernas e relaxou o corpo no sofá.
Somente depois de um bom tempo, ela finalmente soltou-lhe a cabeça. Não havia mais em seu corpo, sinal do seu fluxo menstrual.
Ele ergueu-se com a boca e as faces, tingidos de sangue. Ela sorriu e virou-se oferecendo-se. Ao sentir-se penetrada, ordenou que ele puxasse seus cabelos e mordesse seu pescoço.
Qualquer pessoa que presenciasse a cena, diria que naquele momento, um vampiro possuía de forma voraz, mais uma vítima indefesa. Triste engano.
Depois de atingir o clímax, ele levantou-se e caminhou lentamente, desabando na cama. Sentia-se inexplicavelmente exausto. Ela vestiu-se e o deixou ali, entregue a modorra do cansaço.
Caminhando sob os olhares de desejo ela sentia-se mais jovem, mais bela, revigorada. E achava graça dos vários gracejos que ouvia. Os homens achavam-se mesmo poderosos, uns devoradores, vampiros. Porém ela sabia que, homens não podiam ser vampiros, apenas lobos ensandecidos, ávidos por carne humana. Levavam a fama de vampiros apenas por serem bem adestrados e aceitarem lambuzar os focinhos no sangue de cada mês, em troca de uma suposta posse carnal.
Já as mulheres sim, estas eram os verdadeiros vampiros, pois tinham a capacidade de atrair, seduzir e dominar completamente suas vítimas, capacidade de submeter o próprio corpo e sangue ao apetite dos lobos, para em troca receber o fluido da vida e poder com ele tornar-se imortal. O tão sonhado elixir da longa vida, desejado por reis e rainhas, era na verdade um ritual de troca de fluidos e prazeres, que alçava homens à condição de lobos e mulheres à de vampiros. A famosa batalha entre lobos e vampiros, não passava de uma relação de sinergia entre as espécies, relação essa, que rapidamente evoluía para um estado de helotismo, do qual somente algumas fêmeas tinham consciência e domínio. Os lobos tornavam-se dependentes e passavam a buscar incessantemente por mulheres vampiros, pois somente o fluxo menstrual destas, era compatível para a troca de fluidos.
Algumas horas já haviam se passado, quando no motel, o homem acordou. Sentia-se irritado e com muita fome. Adentrando por suas narinas, um odor novo e estimulante, que ele jamais havia percebido com tanta avidez: o odor de sangue. Olhou-se no espelho e assustou-se ao ver sua imagem refletida de forma embaçada e o sangue ressecado a contornar-lhe a boca. Instintivamente, passou várias vezes, a língua pelos lábios e sentiu mais uma vez, o gosto dela, uma mistura peculiar de mel e fel. O néctar dos deuses. Ao sair do motel, só tinha em mente encontrar novamente a mulher que despertara nele, o seu instinto mais selvagem, seu lado caçador. Para ele, ela havia deixado de ser apenas mais uma mulher e, tornara-se uma necessidade vital.
Depois de deixar o carro no estacionamento do shopping, ele foi direto ao local onde a conhecera. Entrou na livraria com a esperança de vê-la sentada, folheando um livro como da primeira vez. Frustrou-se por não tê-la encontrado. Caminhou pelos corredores, atento, olhando cada mulher, não por desejo, mas tentando identificar em cada uma, o seu desideratum. Chegando à praça de alimentação, sentiu um forte cheiro de leite, que lhe causou náuseas. Olhou para o lado e ficou espantado ao ver um senhor com um copo de leite sobre a mesa, olhar para ele com certa curiosidade. Ignorou, seguindo adiante e, ao parar ao lado de uma mulher na escada rolante, sentiu novamente o cheiro de sangue a invadir-lhe. Ao olhar para a mulher, seus olhares se cruzaram e ele percebeu de imediato, a submissão de uma presa, quando ela não conseguiu manter o contato visual e abaixou a cabeça. No estacionamento, ele só precisou emparelhar seu carro ao dela e abrir a porta. Ela abandonou o próprio carro e entrou no dele. Nenhuma palavra foi dita. Pouco depois ele, fazia com ela, exatamente o que fizera com a deusa. Sugava todo o seu fluxo menstrual, com a voracidade de um lobo faminto. De olhos fechados, a mulher só conseguia soltar alguns gemidos e implorar por mais. Ele a virou de costas, e a possuiu com uma volúpia que há poucas horas não sabia sequer possuir. Completamente fora de si e dominada, a mulher agora, só conseguia balbuciar algumas palavras sem nexo. Ele então segurou firme em seus cabelos, enrolando-os na mão direita, enquanto abaixava e mordia seu pescoço. Ao senti-la estremecer de prazer, violentamente puxou para trás, os cabelos da mulher, quebrando-lhe o pescoço. Enquanto o corpo sem vida tombava, ele ainda introduzido, experimentou pela segunda vez naquele dia, uma sensação inimaginável. Era como se a vida da mulher tivesse se transferido para ele, para o seu corpo. Estremeceu com a sensação e, após isso, desfez a cópula. Não estava cansado como ficara antes, ao contrário, sentia uma enorme energia percorrer seu corpo.
Deixou o corpo da mulher, imerso na banheira e, retirou-se do motel imediatamente. Embora um pouco confuso, estava consciente de que fora submetido a uma estranha transformação ao relacionar-se com aquela deusa e, que precisaria encontrá-la novamente. Seus sentidos estavam aguçados, sua força ampliada, os instintos à flor da pele. Sua fúria animal, seu lado obscuro havia sido libertado e uma nova fase se iniciado em sua vida. A sensação de poder fazia-lhe bem.
Apenas o começo...

                                                               Autor: Cicero Coutinho

domingo, 19 de setembro de 2010

Leia e pense...

O amor sem esperança não tem refúgio senão a morte.
                                  (José de Alencar)

AMOR ALÉM DO MAR

Eram sete e meia da manhã. Paulo era o único no convés do luxuoso navio. Os shows e a jogatina entravam pela madrugada e, por isso, os passageiros acordavam tarde. Ele estava feliz por ter recebido a passagem para um cruzeiro em um transatlântico, como prêmio por seu excelente desempenho na empresa. Só lamentava estar só na viagem. Mas resolvera aproveitar cada minuto e, fotografar o nascer do sol em alto-mar tinha sido uma ótima idéia. Estava debruçado na amurada do navio, observando as ondas, quando percebeu que na sombra que o navio projetava sobre o mar, havia uma forma feminina, como se um pouco adiante e à sua direita houvesse alguém. Curioso e olhando com mais atenção, notou que a sombra sobre o mar era totalmente disforme e desproporcional ao navio em que se encontrava. Caminhou para a direita até ficar bem à frente da forma feminina e, ficou espantado ao ver que realmente tratava-se da sombra de uma mulher. Pensou se tratar de uma alucinação, devido ao enjôo que tivera, mas como que contrariando seu pensamento, a sombra deslocou-se como se estivesse caminhando. Ele a seguiu e, mais uma vez parou diante da sombra, que reagiu como se também tivesse notado a presença dele, recuando e desaparecendo. Novamente ele olhou para o convés e, certificou-se que estava só. Ao voltar-se para o mar, lá estava a sombra, que desta vez recuou de maneira visível ao ser avistada. Paulo inclinou-se sobre a amurada e, tentando fotografar o desenho disforme que o navio projetava sobre o mar, desequilibrou-se e acabou caindo.
Em total desespero, depois de afundar alguns metros, finalmente conseguiu voltar à superfície e boiar. Ao sentir sobre ele a sombra do navio, virou-se, ficando completamente perplexo ao ver a enorme e linda caravela e, lá em cima, próximo a amurada, uma mulher a observá-lo.
    ─ Náufrago a bombordo ─ gritou um homem que chegou ao lado da mulher.
Imediatamente vários homens apareceram na amurada do navio. O falatório era enorme.
    ─ Vamos homens. Desçam o escaler e tragam-no para bordo ─ alguém ordenou.
A ação foi rápida. Em poucos minutos Paulo era puxado para o interior do escaler, que logo depois foi içado a bordo.
    ─ Com mil trovões, homem! De que diabo de naufrágio saíste, se cá estamos a enfrentar uma calmaria de vários dias? ─ indagou um homem que vestia um casacão.
Ainda assustado, rodeado de homens curiosos, Paulo só conseguia olhar para todos os lados, quando ao fundo viu a mulher. Ela observava à distância, ao lado de outra mulher, esta, bem mais velha e negra. Usava um vestido longo meio abaloado, os cabelos presos para trás e, nas mãos umas luvas brancas que deixavam as pontas de seus dedos à mostra. Parecia ter saído de uma fotografia bem antiga e, isso, deixava-a ainda mais bonita.
    ─ Afastem-se! O homem está molhado, cansado, assustado e de ceroulas ─ disse o homem do casacão, referindo-se à bermuda que Paulo usava.
Todos caíram na gargalhada, enquanto ele, puxando Paulo pelo braço, tirava-o do meio da roda de curiosos. Ao passarem diante das mulheres, a mais velha desviou o olhar, abaixando a cabeça. A outra, ao contrário desta, sustentou o olhar. Seus olhares se encontraram e Paulo teve a impressão de já conhecê-la.
    ─ Entre, esta é a minha cabine. Sou o Capitão desta nau. Acho que tenho aqui umas roupas mais adequadas que servirão em você. Tome, componha-se. Já ordenei a Maria que traga um bom prato de comida para você.
    ─ Obrigado, capitão... Mas o senhor pode me dizer para onde estamos indo?
    ─ Ah! Me perdoe, me chamo Magalhães, e estamos indo para a Capitania do Rio de Janeiro, a serviço de El-Rei Filipe II, O Piedoso.
    ─ Filipe II, O Piedoso? E em que ano estamos Capitão?
    ─ O naufrágio fez você perder o tino, homem? Estamos no ano de 1600.
Paulo ficou completamente desnorteado. Olhou a sua volta, examinando a cabine. Os poucos móveis e objetos pareciam confirmar as palavras do Capitão. Pensou estar sonhando ou sendo vítima de uma brincadeira, uma pegadinha, como nos programas de televisão. Olhou-se em um espelho preso em um canto da cabine e achou-se estranho vestindo uma roupa de modelo tão antigo. Virou-se ao ouvir a batida na porta da cabine. Era Maria, que trazia o prato de comida. Logo atrás dela, linda, em seu vestido longo, a mulher mais jovem, que trazia uma garrafa e uma caneca.
    ─ Esta é Amália, minha sobrinha. E a negra Maria é a sua mucama. É a primeira viagem de minha sobrinha. Ela pretende pintar algumas aquarelas das belas paragens da Capitania do Rio de Janeiro.
    ─ Este é... Como é sua graça, náufrago? ─ perguntou o Capitão.
    ─ Paulo. Meu nome é Paulo, Capitão.
Os olhares de Paulo e Amália cruzaram-se novamente, fazendo-o esquecer por completo, a impossibilidade daquele momento. Quando Amália esboçou um tímido sorriso, ele desejou permanecer para sempre naquele sonho maravilhoso e nunca mais voltar para a sua realidade. As mulheres retiraram-se da cabine, sob o olhar encantado de Paulo. Ele jamais tinha visto uma mulher com tamanha elegância. O Capitão fechou a porta e fez sinal para que ele comesse, depois sentou-se e pegou em um baú, uma garrafa de vinho que despejou em uma caneca suja que estava sobre a mesa, bebendo de um só gole. Enquanto Paulo comia, ele bebia vinho e, em poucos minutos já estava cochilando. O capitão parecia estar na faixa dos quarenta anos, era um homem forte, mas uma barriguinha já lhe aparecia sob o casacão. Paulo ficou um tempo observando o homem à sua frente e a cabine onde estava. Como o Capitão havia caído nos braços de Morfeu, resolveu sair para o convés e, experimentou uma sensação de déjà-vu ao ver Amália junto à amurada da caravela, olhando para o mar. Aproximou-se dela sob os olhares curiosos da marujada. Amália sorriu ao vê-lo e continuou contemplando o mar.    
    ─ Posso lhe fazer companhia? ─ perguntou Paulo.
    ─ Sim. Mas o senhor não deveria estar descansando?
    ─ Não me sinto cansado. Só um pouco confuso. E acho que você pode me ajudar a entender o que aconteceu.
    ─ Oras, como assim entender o que aconteceu? Não escapastes de um naufrágio?
    ─ Não. Eu estava fazendo uma viagem de navio, aliás, a minha primeira viagem de navio. Decidi acordar bem cedo para fotografar o nascer do sol em alto mar, quando notei no mar uma sombra ou reflexo, não sei explicar bem o que era.
    ─ O que é Fo-to- gra-far? ─ perguntou Amália atrapalhando-se um pouco com a palavra.
    ─ Você não sabe mesmo o que é?
    ─ Nunca havia ouvido essa palavra. De que idioma seria?
Paulo achou graça na ingenuidade de Amália e, tirou de dentro da camisa um pequeno objeto.
    ─ Está vendo isso? É uma máquina fotográfica digital. Ela não está mais funcionando, porque ficou muito tempo submersa quando caí no mar. Esta pequena máquina serve para capturar uma imagem.
    ─ Não se pode capturar uma imagem. Que tipo de bruxaria é essa?
Ele explicou detalhadamente como a máquina funcionava, ficando encantado com as caras de espanto e dúvida, que Amália fazia, deixando-a ainda mais bela. Ao fim da explicação de Paulo, os dois ficaram em silêncio, olhando juntos para o mar, até que Amália rompeu o silêncio.
    ─ Eu também vi uma sombra no mar. Não sei explicar bem, mas era uma sombra mui grande acompanhando a nau. E não sei como, mas parecia que havia uma pessoa na sombra observando o mar e, por um momento tive a sensação de estar sendo observada por ela.
    ─ Foi exatamente o que vi antes de cair. Alguma coisa sobrenatural aconteceu envolvendo nós dois. Agora tenho certeza. Você estava aqui observando o mar enquanto eu estava no meu navio, fazendo a mesma coisa. Eu vi a sombra do seu navio e você estava nela. Você viu a sombra do meu e eu estava nela. E nós dois percebemos isso.
    ─ Mas como isso seria possível? O senhor é um bruxo ou talvez um alquimista?
Paulo pôs sua mão sobre a de Amália que segurava a amurada. O toque foi para ambos uma sensação de completude e, o silêncio era tão eloqüente que apenas uma troca de olhares foi suficiente para que se descobrissem destinados um ao outro.
    ─ Não sou bruxo nem alquimista, mas vou te revelar um segredo que talvez seja um pouco difícil de você acreditar. Seu tio me disse que estamos no ano de 1600. Eu estava viajando em um grande navio chamado transatlântico.
    ─ Que nome mais incomum para um navio.
    ─ Para esta época sim. Mas eu estava viajando no ano de 2009, quatro séculos à frente.
Fascinada, Amália só conseguiu apertar a mão de Paulo. Ela sempre havia sonhado em viver uma linda história de amor e, agora seu desejo estava se realizando de uma maneira inesperada e mágica.
Envolvidos pela inexplicável magia daquele momento, eles não perceberam que nuvens negras transformaram o dia em noite, anunciando uma tempestade. Acordado pelo Imediato, o Capitão apressou-se em dar ordens para toda a tripulação.
    ─ Amália, é melhor que vá para dentro. E você também náufrago, vá para a minha cabine.
    ─ Prefiro ficar e ajudar, Capitão. Vá Amália. Tome, fique com a máquina.
    ─ Tenha cuidado, Paulo. Vou rezar pedindo a Deus Nosso Senhor que nos ajude.
O vento já soprava forte e a chuva desabou pesada. O mar até então calmo, parecia agora ferver. As ondas cresciam e sacolejavam a nau, que rangia, dando a impressão de que não resistiria até o término da tempestade.
    ─ Com mil trovões! ─ praguejou o Capitão, segurando firme o timão. ─ Há mui pouco estávamos em uma calmaria, e agora este chuvaceiro.
Chicoteada violentamente por uma onda gigantesca, a nau inclinou-se a bombordo. Com o solavanco, Paulo escorregou, sendo tragado e arremessado ao mar.
Novamente, entrou em desespero ao afundar, desta vez no mar revolto. Lembrou-se de Amália e reuniu forças para vencer as ondas, mas para sua surpresa, ao chegar à superfície, o mar estava calmo e à sua frente havia uma traineira de pescadores.
Resgatado, foi levado de volta para o transatlântico, onde, depois de examinado, foi repreendido pela imprudência de subir na amurada para fotografar-se vestido de pirata.
Porém, ele só conseguia pensar na viagem no tempo que havia feito sem saber como, sem auxílio de máquinas ou tecnologias e, em como voltar para junto de Amália.
Depois de dissipada a tempestade, a tripulação comemorava a sobrevivência dando hurras, comandados pelo Capitão. Ao chegar ao convés, Amália não conseguiu localizar Paulo e, ansiosa foi indagar ao tio o que havia acontecido.
    ─ Tio, onde está o senhor Paulo?
    ─ Não tenho boas novas para lhe dar a respeito do náufrago, minha sobrinha. Durante a tempestade, ele foi arrastado para o mar por um vagalhão.
Amália não conseguiu conter o choro e, voltou correndo para sua cabine, sendo seguida por Maria. Aos soluços abriu sua arca de pertences e retirou a minúscula máquina fotográfica que Paulo havia lhe dado, apertando-a contra o seu coração palpitante.
    ─ Ele está vivo, Maria. Posso sentir isso. Talvez tenha voltado para o ano de 2009, de onde ele disse ter vindo.
Sem nada entender, Maria tentou confortar Amália abraçando-a.
    ─ Era a sina do moço, sinhá. O mar veio buscá ele.
Já no final da tarde, depois de dormir e um pouco mais calma, Amália observava o mar e o pôr do sol, junto à amurada da caravela, trazendo pendurada em sua mão esquerda a máquina digital. Rememorava como tudo havia acontecido, a sombra no mar; a impressão de estar sendo observada; o avistamento de Paulo; a troca de olhares entre eles; a conversa e a explicação sobre a máquina no convés e, por fim as palavras de Maria. No vai-e-vem de pensamentos, concluiu num átimo que Maria tinha razão. O segredo estava no mar. Tudo havia começado no mar, então, somente através do mar poderia ver seu amado novamente. Teria de segui-lo para estar junto dele em 2009. Quando finalmente o sol se pôs no horizonte, dando lugar à noite, Amália atirou-se ao mar, ao encontro do seu grande amor.
Na cabine do transatlântico, frustrado e tentando descobrir o que realmente havia acontecido, Paulo já cogitava a possibilidade de ter sofrido uma alucinação, resultante do quase afogamento. A única lembrança que tinha do tempo passado entre a queda e o resgate, era a da sua permanência na caravela e de Amália. Tudo aquilo parecia extremamente real, havia sentido o perfume de Amália, havia sentido na pele o seu toque e, por isso, experimentava uma sensação de deslocamento, sentia-se um peixe fora d'água. Sim, havia sentido na pele e a prova estava ali, bem a sua frente. Aquelas roupas velhas que haviam confundido com uma fantasia de pirata. Ainda estavam úmidas, mas mesmo assim ele as vestiu. Não se sentiu estranho como da primeira vez. À noite, quando todos no transatlântico se divertiam, Paulo, caminhou até o mesmo ponto do convés onde tudo se iniciara e mergulhou ao encontro do seu grande amor.

 Dois anos depois...
O barco trazendo alunos da escola de mergulho recreativo lançou âncora no local indicado pelo instrutor. Antes de liberar os alunos, o instrutor decidiu fazer um mergulho de reconhecimento do local. Maravilhado com a beleza daquele pedaço de mar, ele aproximou-se de uma parede submersa de corais onde presenciou uma cena nunca antes vista em seus vários anos de mergulho. Em meio aos corais como se estivessem sentados lado a lado, dois esqueletos pareciam estar de mãos dadas, e entre as mãos sobrepostas, havia um pequeno objeto retangular já corroído pelo tempo.
    ─ E então, professor? Podemos mergulhar?
    ─ Não! O local não é adequado, a água é turva e há muitas pedras. Vamos para um local que eu já conheço e tenho certeza, todos vocês vão gostar.


                                                                Autor: Cicero Coutinho


domingo, 5 de setembro de 2010

Leia e pense...

A vida não é uma pergunta a ser respondida. É um mistério a ser vivido.
                                                                                        (Buda)