VALE A PENA LER: 1984 - Autor: GEORGE ORWELL

domingo, 25 de maio de 2014

Leia e pense...

Se eu houvesse de definir a alma humana... diria que é uma casa de pensão. Cada quarto abriga um vício ou uma virtude.
                         
                                                (Machado de Assis)
RETRATO DA ALMA

Pensemos o seguinte... Imagine se cada um de nós possuísse um retrato como o retrato de Dorian Gray. Se cada um de nós pudesse vislumbrar a própria alma em uma tela habilmente pintada. Seria deliciosa e tentadoramente pavoroso, não? Uma anomalia, um feito contra a natureza.
Mas, imagine se, pudesse ser visto nessa tela, cada pecado e gesto cruel, mesmo que impensado, que você cometeu. Imagine se pudesse ver a própria corrupção personificada em você mesmo, afinal de que outra maneira poderia ser vista? Em consequências dos seus atos, você me diria talvez, mas as consequências oferecem saídas muito charmosas e encantadoras como: "eu não pude evitar" – justificando-se -  ou elas simplesmente passarão com o tempo, dando a falsa impressão de que seus atos não deixariam marcas em sua alma, ou você poderia até mesmo ignorá-las, se for um pouco insensível e prefira fechar os olhos à ruína enquanto ela acontece à sua frente.
Ainda que assustadora, seria terrivelmente atraente a idéia de "espiar" a própria alma, mesmo que para apiedar-se de si mesmo, ação que também possui sua malícia ao acreditar que o fazendo ninguém poderia julgar-lhe. Mas depois de observar o terror de seu âmago, ao ver a podridão que pode ser a sua alma... O que você faria? Haveria o que fazer? Você pode se redimir é claro, mas, e quanto aqueles que sofreram com suas ações?  Ah, claro. Eles têm o perdão à disposição para seu alívio, não é mesmo?  Qual seria o efeito disso tudo em você?
A humanidade, o ser humano, em conjunto ou isolado, é sujo. Vil. Ainda que nas menores e consideradas tolas questões. Mas não me alongarei mais nesse discurso, posso estar falando apenas sandices e você pode não estar interessado em sua alma ou nessas reflexões. Ah, um trocadilho, reflexões... Pensamentos filosóficos e também uma espécie de uma possível autobiografia... Enfim... Pode ser que não seja preciso um retrato feito por um grande artista em evidência, você pode simplesmente olhar para dentro de si mesmo ou apenas olhar-se no espelho. Um grande homem disse um dia que "apenas quem é superficial conhece a si mesmo". Talvez eu esteja sendo morbidamente pessimista com a humanidade... Sem dúvida, eu também preciso marcar um encontro com a minha alma...
Mas eu posso estar errado... Posso estar apenas sendo amargo e insensível... Ou amargo e sensível em excesso... Quem sabe eu não esteja apenas delirando em todos esses pensamentos?

                                                                Autor: Fernanda Coutinho

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Leia e pense...

Um livro é uma janela pela qual nos evadimos.
                          (Julien Green)
EPÍLOGO 

O sangue escorria por baixo da porta, formando uma poça viscosa.
Algumas horas antes...
Ela caminhava pelos corredores da enorme feira de livros. Com calma entrava em quase todos os stands. Analisava vários livros, de vários gêneros, de vários autores. À tira-colo trazia seus originais, tantas vezes enviados para diversas editoras. Tantas vezes recusados com desculpas que nada explicavam, tantas vezes sem uma resposta sequer. Não entendia o porquê, se sempre encontrava livros no mesmo estilo e gênero, muitos em lançamento. Alguns apelando apenas para a moda literária do momento, sem apresentar nada de novo.
Horas e horas de caminhada, rápidas leituras e análises, finalmente sentou-se para um lanche. O vaivém da multidão, o falatório, os sons das chamadas publicitárias, as músicas, as pilhas de livros, tudo isso a deixava ainda mais inspirada. Sua criatividade aflorava, pois, sentia-se no seu meio, no seu mundo encantado, embora ainda não tivesse encontrado a porta mágica de entrada.
Terminado o lanche e, aproximando-se o encerramento do evento, dirigiu-se a um dos banheiros. Lá, trancou-se em um dos reservados e pôs-se a ler algumas páginas de seus originais. Cada original era rasgado e atirado com desânimo na lixeira. Rasgadas todas as folhas, pegou a lixeira e, aos poucos foi despejando na bacia sanitária, acionando ao fim de cada despejo o mecanismo de descarga.
Ao fim do processo, sentou-se e, inclinando-se para frente amparou a cabeça com ambas as mãos. Suas frustrações despencaram sob a forma de lágrimas.  Esgotadas as lágrimas, veio-lhe a inspiração de uma história definitiva, uma história que finalmente despertaria o interesse de todos.
A mão trêmula retirou da bolsa um estilete.  Depois de usá-lo duas vezes, ela recostou-se, deixando seus braços pendentes ao lado do corpo. De seus olhos, escorriam novas lágrimas, de seus dedos escorriam sangue.
O pavilhão esvaziou-se. Os escritores e editores foram embora felizes, comemorando a divulgação e vendas de seus livros. Os leitores satisfeitos e ansiosos por mergulhar nas páginas encantadas, em experimentar grandes aventuras e amores, aplacando assim, suas frustrações. Como eles, ela também, deveria ter comprado um livro... 

                                                              Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 6 de outubro de 2013

Leia e pense...

Fatos não deixam de existir porque são ignorados.
                              (Aldous Huxley)
ENQUANTO A CIDADE DORME

A noite já ia alta quando Claudio desceu as escadas.  Não gostava muito de sair de casa à noite, mas, tivera a idéia de fotografar a cidade durante a madrugada, para o concurso de fotografias no qual se inscrevera. Fotos noturnas são difíceis de serem feitas, mesmo com os equipamentos cada vez mais modernos, mas, exatamente por sentir essa dificuldade, ele pensou que teria que se superar, aumentando assim, as chances de obter excelentes fotos. Não pretendia ir muito longe, apenas caminhar alguns quarteirões em seu próprio bairro. Teve certeza de ter feito uma boa escolha quando viu as luzes do giroscópio do carro da polícia colorindo as paredes de uma casa. Um pequeno grupo de pessoas se aglomerava na frente da casa e, também era tingido pelas luzes. Imediatamente tirou a máquina digital da mochila e aproximou-se, já fotografando. Pensando que Claudio fosse da imprensa, um dos policiais, informou que se tratava de um caso de abuso sexual de menor. Um homem que se dizia pastor atraíra uma menina de 15 anos até sua casa para uma suposta vigília. A polícia foi chamada por uma vizinha que já estava desconfiada das frequentes visitas de meninas, sempre à noite.
            ─ Quando chegamos, a menor estava só de calcinha deitada na cama e, ele só de bermuda em cima dela. Fotografa mesmo a cara dele.  disse o policial enquanto segurava o rosto do homem algemado.
Com a sirene ligada, o carro da polícia saiu cantando pela madrugada. Claudio continuou a caminhar pensando na sorte que tivera. Havia feito várias fotos da casa e das pessoas sob as luzes do giroscópio. Alguns minutos se passaram e outra aglomeração de pessoas chamou sua atenção, desta vez, nas proximidades de um bar. Duas mulheres completamente bêbadas se embolavam em seus próprios cabelos, enquanto aos gritos, rolavam no chão. Receoso e, procurando ser o mais discreto possível, Claudio clicou algumas vezes o combate feminino e as pessoas que ao redor assistiam e nada faziam, a não ser, rir.  Afastou-se do local quando as mulheres, cansadas, trocaram os tapas e unhadas pelos xingamentos. Mal acabara de guardar a máquina na mochila, assustou-se com um mendigo que se escondia sob camadas de papelão e, ao vê-lo passar pediu um cigarro. Parou para dizer que não fumava e, acabou puxando conversa com o decepcionado mendigo que foi logo dizendo:
            ─ Não tem cigarro? Pô, maió vacilo. Não quero conversa, quero um cigarro pra enganá a fome.
Claudio abriu a mochila e ofereceu um pacote de biscoito. O mendigo deu um sorriso negro, enquanto quase tomava o pacote da mão de Claudio. Mais ou menos, uns seis biscoitos depois, o mendigo conversava como se ambos fossem velhos conhecidos. Falou sobre sua vida, sobre as noites nas ruas, e várias outras coisas enquanto era fotografado.  A conversa durou até o último biscoito ser engolido. Enganada a fome, o mendigo despediu-se e novamente camuflou-se sob as camadas de papelão.
Passando por uma esquina, Claudio foi abordado por um travesti de voz quase robótica. Parou, agradecendo o convite e, apresentando-se como fotógrafo, perguntou se poderia fazer umas fotos do travesti em seu local de trabalho.
            ─ Vou sair no jornal, é? Se eu soubesse tinha vindo loira hoje. Pode dar seus cliques, querido. Mas, só de longe. Nada de close, hein...
O travesti saracoteou para lá e para cá, exibindo todo o seu estoque de olhares, bocas e poses. Claudio notou que, havia uma espécie de divisão de territórios. Em um lado da rua ficavam os travestis e no outro as mulheres. Utilizando-se dos recursos da máquina, aproveitou para registrar a organizada e, até aquele momento, pacífica concorrência. Agradeceu ao travesti, que retribuiu com um biquinho vermelho. Continuou a se embrenhar na noite, chegando desta vez ao local onde havia acontecido uma violenta colisão entre dois veículos. Misturou-se aos fotógrafos que já estavam no local, fotografando a tragédia de vários ângulos. A deformação dos carros completamente retorcidos, as ilhas de sangue pelo chão, o corpo coberto com papelão, que o fez lembrar-se do mendigo, as luzes dos carros da polícia e das ambulâncias iluminando o macabro show, assistido por várias pessoas saídas de todos os cantos da noite. Quando se afastava, mais um carro da polícia se aproximou do local. Dentro do carro, no banco traseiro, um jovem casal. Um dos policiais saiu e, apertando a mão de outro que estava no local do acidente, disse:
            ─ O negócio foi feio aqui.
            ─ Se foi. Por sorte não morreram todos. Sábado é fogo, mas, já está tudo sob controle.
            ─ Ok! Estamos indo para a DP. Apreendemos o casalzinho ali no flagrante. Fazendo saidinha de banco. Usaram crack. Ele tem dezessete e ela dezesseis anos. Os pais nem devem imaginar o que eles andavam aprontando por aí.
Claudio olhou para o relógio e, arregalou os olhos ao ver que faltava pouco para o amanhecer. Sem perceber, havia se afastado muito de casa. Andara quilômetros. Dentro do ônibus, viu a cidade gradativamente se iluminar com a luz do dia.  Enquanto descarregava as fotos da máquina para o computador, pôs-se a relembrar as desventuras que havia presenciado. Examinou atentamente cada fotografia, sentindo-se um alienado, por, nem ao menos imaginar, que tudo aquilo acontecesse enquanto a cidade dorme.

                                                        Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 8 de setembro de 2013

TENHA NA SUA ESTANTE:
Resumo do livro: “Carlinhos deveria ser apenas mais um jovem abastado morador de Ipanema. Vindo de uma família destruída, vítima da perda do seu pai ainda na infância, o que lhe sobra em dinheiro falta em amor, afeto e atenção. Pelo menos segundo sempre lhe pareceu. Ao completar dezoito anos, Carlinhos finalmente recebe, com a maioridade, o direito de administrar sua própria parte na herança. A partir desse momento, a vida rica da alta sociedade carioca, almejada e perseguida por tantos, se transforma na sua maldição.”
Para mais detalhes da obra, acesse: https://www.facebook.com/UmRatoDeTresCabecas