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PULP
CHARLES BUKOWSKI

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

SPECTACULUM  MIRABILE  VISU

Não posso afirmar que existam sereias, mas, posso garantir que há deusas na terra nascidas. Algumas mulheres são deusas, mas, falta-lhes a lembrança dessa divindade. Acostumei-me ao caminhar pelo parque a ver uma dessas deusas. Trazia em seus olhos, ao invés de pupilas, duas estrelas intensamente brilhantes, raras gemas, preciosas, perfeitas.
Seu sorriso trazia uma sensação de frescor que só as manhãs possuem.
Seu perfume inebriante, devastador, uma amálgama de êxtase e agonia.
Seu andar. Aaaah! Seu andar ... Somente uma frase em latim para imaginá-lo: "Vera incessu patuit dea"
Sua beleza tamanha, que admito, me faltam ainda, engenho e arte para descrevê
-la.
Enquanto acompanhava seu caminhar, eu pensava:
Mulheres como ela deveriam ser admiradas, contempladas, adoradas. Não apenas desejadas.
Deveriam receber um tratamento divino, não apenas pelo corpo esculpido, mas pelo olhar, pelo andar, pelo perfume, pelo sorriso.
Mulheres como ela eram deusas, e ela era uma deusa, embora sequer suspeitasse de sua condição divina.
Uma deusa paradoxal: o olhar hipnotizante, algo a se evitar. O sorriso encantador, algo a se desejar. O perfume, um gatilho, algo a se temer: um almíscar envolvente que invade o cérebro, aperta o coração e inebria, provocando ao mesmo tempo, uma sensação de êxtase e agonia.
Ainda não sei se é o olhar, o sorriso, ou o andar o que mais me fascina e balança, só sei que tudo me encanta.

Um dia, decidi ousar e acompanhá-la bem de perto em sua caminhada, lado a lado. Por alguns momentos tive a impressão de caminhar no azul do céu, ao lado de uma deusa. E tamanha foi minha felicidade que: vox faucibus haesit.
As noites tornaram-se azuis, pois, sonhar com ela, sentir seu perfume, seu toque e poder tocá-la era estar no paraíso, porém, acordar e ver que tudo foi um sonho, era ser lançado ao purgatório.
Já dependente do seu perfume, do seu sorriso e do seu encanto, escrevi-lhe um bilhete, algo tão ultrapassado que hesitei em entregá-lo.
Com uma expressão de espanto ela pegou o papel e leu, sem parar de caminhar.

"Vem! E se, entre nós dois, não acontecer uma explosão de amor, então, não tenha piedade e, mate-me de amor."

Ela olhou para trás e, com um encantador sorriso de desdém, jogou o papel em uma lixeira, me deixando alí, como eu havia pedido: morto... morto de amor.

                                                                                               Autor: Cicero Fernando Coutinho

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