Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 6 de outubro de 2013

Leia e pense...

Fatos não deixam de existir porque são ignorados.
                              (Aldous Huxley)
ENQUANTO A CIDADE DORME

A noite já ia alta quando Claudio desceu as escadas.  Não gostava muito de sair de casa à noite, mas, tivera a idéia de fotografar a cidade durante a madrugada, para o concurso de fotografias no qual se inscrevera. Fotos noturnas são difíceis de serem feitas, mesmo com os equipamentos cada vez mais modernos, mas, exatamente por sentir essa dificuldade, ele pensou que teria que se superar, aumentando assim, as chances de obter excelentes fotos. Não pretendia ir muito longe, apenas caminhar alguns quarteirões em seu próprio bairro. Teve certeza de ter feito uma boa escolha quando viu as luzes do giroscópio do carro da polícia colorindo as paredes de uma casa. Um pequeno grupo de pessoas se aglomerava na frente da casa e, também era tingido pelas luzes. Imediatamente tirou a máquina digital da mochila e aproximou-se, já fotografando. Pensando que Claudio fosse da imprensa, um dos policiais, informou que se tratava de um caso de abuso sexual de menor. Um homem que se dizia pastor atraíra uma menina de 15 anos até sua casa para uma suposta vigília. A polícia foi chamada por uma vizinha que já estava desconfiada das frequentes visitas de meninas, sempre à noite.
            ─ Quando chegamos, a menor estava só de calcinha deitada na cama e, ele só de bermuda em cima dela. Fotografa mesmo a cara dele.  disse o policial enquanto segurava o rosto do homem algemado.
Com a sirene ligada, o carro da polícia saiu cantando pela madrugada. Claudio continuou a caminhar pensando na sorte que tivera. Havia feito várias fotos da casa e das pessoas sob as luzes do giroscópio. Alguns minutos se passaram e outra aglomeração de pessoas chamou sua atenção, desta vez, nas proximidades de um bar. Duas mulheres completamente bêbadas se embolavam em seus próprios cabelos, enquanto aos gritos, rolavam no chão. Receoso e, procurando ser o mais discreto possível, Claudio clicou algumas vezes o combate feminino e as pessoas que ao redor assistiam e nada faziam, a não ser, rir.  Afastou-se do local quando as mulheres, cansadas, trocaram os tapas e unhadas pelos xingamentos. Mal acabara de guardar a máquina na mochila, assustou-se com um mendigo que se escondia sob camadas de papelão e, ao vê-lo passar pediu um cigarro. Parou para dizer que não fumava e, acabou puxando conversa com o decepcionado mendigo que foi logo dizendo:
            ─ Não tem cigarro? Pô, maió vacilo. Não quero conversa, quero um cigarro pra enganá a fome.
Claudio abriu a mochila e ofereceu um pacote de biscoito. O mendigo deu um sorriso negro, enquanto quase tomava o pacote da mão de Claudio. Mais ou menos, uns seis biscoitos depois, o mendigo conversava como se ambos fossem velhos conhecidos. Falou sobre sua vida, sobre as noites nas ruas, e várias outras coisas enquanto era fotografado.  A conversa durou até o último biscoito ser engolido. Enganada a fome, o mendigo despediu-se e novamente camuflou-se sob as camadas de papelão.
Passando por uma esquina, Claudio foi abordado por um travesti de voz quase robótica. Parou, agradecendo o convite e, apresentando-se como fotógrafo, perguntou se poderia fazer umas fotos do travesti em seu local de trabalho.
            ─ Vou sair no jornal, é? Se eu soubesse tinha vindo loira hoje. Pode dar seus cliques, querido. Mas, só de longe. Nada de close, hein...
O travesti saracoteou para lá e para cá, exibindo todo o seu estoque de olhares, bocas e poses. Claudio notou que, havia uma espécie de divisão de territórios. Em um lado da rua ficavam os travestis e no outro as mulheres. Utilizando-se dos recursos da máquina, aproveitou para registrar a organizada e, até aquele momento, pacífica concorrência. Agradeceu ao travesti, que retribuiu com um biquinho vermelho. Continuou a se embrenhar na noite, chegando desta vez ao local onde havia acontecido uma violenta colisão entre dois veículos. Misturou-se aos fotógrafos que já estavam no local, fotografando a tragédia de vários ângulos. A deformação dos carros completamente retorcidos, as ilhas de sangue pelo chão, o corpo coberto com papelão, que o fez lembrar-se do mendigo, as luzes dos carros da polícia e das ambulâncias iluminando o macabro show, assistido por várias pessoas saídas de todos os cantos da noite. Quando se afastava, mais um carro da polícia se aproximou do local. Dentro do carro, no banco traseiro, um jovem casal. Um dos policiais saiu e, apertando a mão de outro que estava no local do acidente, disse:
            ─ O negócio foi feio aqui.
            ─ Se foi. Por sorte não morreram todos. Sábado é fogo, mas, já está tudo sob controle.
            ─ Ok! Estamos indo para a DP. Apreendemos o casalzinho ali no flagrante. Fazendo saidinha de banco. Usaram crack. Ele tem dezessete e ela dezesseis anos. Os pais nem devem imaginar o que eles andavam aprontando por aí.
Claudio olhou para o relógio e, arregalou os olhos ao ver que faltava pouco para o amanhecer. Sem perceber, havia se afastado muito de casa. Andara quilômetros. Dentro do ônibus, viu a cidade gradativamente se iluminar com a luz do dia.  Enquanto descarregava as fotos da máquina para o computador, pôs-se a relembrar as desventuras que havia presenciado. Examinou atentamente cada fotografia, sentindo-se um alienado, por, nem ao menos imaginar, que tudo aquilo acontecesse enquanto a cidade dorme.

                                                        Autor: Cicero Fernando Coutinho