Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Leia e pense...

É espantoso como é completa a ilusão de que beleza é bondade.
                                                   (Leon Tolstoi)


Nossos sentidos não nos enganam. O que nos engana é o nosso julgamento.
                                                   (Johann Goethe)
UM ANJO CUIDA DE VOCÊ

O coração de Lilian disparou quando os seus olhos cruzaram com os olhos do homem que acabara de entrar no ônibus. Um homem de meia idade, que apesar de, até estar bem vestido, tinha uma aparência rude, sinistra e intimidadora.  Ele olhou para todos os passageiros do ônibus, sentando-se depois, justamente ao lado de Lilian que sentiu um calafrio percorrer seu corpo aumentando seu desespero.  Instintivamente, levantou-se, pedindo licença ao homem e sentou-se pouco a frente, ao lado de um rapaz que notando seu nervosismo perguntou:
            ─ Tudo bem com você?
Abaixando a cabeça e sem olhar para o lado ela respondeu:
            ─ Acho que aquele homem que subiu agora no ônibus, ia me assaltar.
O rapaz olhou para trás e, ao ver que o homem os observava, fechou o semblante, não conseguindo, porém, encará-lo por muito tempo.
            ─ Fique tranquila, ele não se atreverá a fazer nada enquanto você estiver aqui perto de mim.
Alguns minutos depois, ela ainda nervosa falou:
            ─ Está chegando o meu ponto e, estou com medo de descer e ele vir atrás de mim.
            ─ Posso descer também e acompanhar você até sua casa?  ─ perguntou o rapaz.
            ─ Sim. ─ ela respondeu trêmula.
            ─ Então, vamos. Não tenha medo. Eu estou com você.
Quando o ônibus arrancou, ela não resistiu e olhou, tentando ver se o homem realmente havia ficado em seu interior. Novamente seus olhares cruzaram-se, acelerando seu coração e trazendo de volta ao seu corpo o calafrio.
Três meses depois, caminhando de mãos dadas, eles, agora namorados, relembravam o dia em que haviam se conhecido.
            ─ Você estava branca de medo quando se sentou ao meu lado.
            ─ Seu bobo. Aquele homem horroroso entrou no ônibus só para me fazer mudar de lugar e conhecer você. Meu Anjo da Guarda.
            ─ E eu conheci minha Princesa solitária. Minha Branca de Medo. ─ disse ele rindo, enquanto ela dava tapinhas de amor em seu braço.
            ─ Seu Bobo da Guarda.
            ─ Tá bom, tá bom... Minha Branca de Neve.
Ela despertou sentindo uma forte dor de cabeça. Sua visão estava embaçada, seu corpo pesado. Esticou o braço para o lado, tentando encontrar seu príncipe, mas, estava só na cama. Quando sua visão começou a clarear, levantou-se com dificuldade, tonta e cambaleante. Procurou pelo seu telefone celular e, enquanto andava pela casa percebeu a falta de seu precioso notebook, além de outros eletroeletrônicos e objetos de valor. Para seu desespero sua bolsa também havia sumido, juntamente com seus cartões de crédito.
O som ininterrupto da campainha podia ser ouvido em todo o prédio. A porta foi aberta por uma mulher sarada, de corpo visivelmente malhado, vestindo um micro short e mini blusa.
            ─ Que negócio é esse aqui na minha porta? Quem é você?
            ─ Quero falar com o Flavio.
            ─ Que Flavio? Cê tá maluca? Aqui não tem ninguém com esse nome.
            ─ Como não tem? Eu estive aqui algumas vezes, com ele.
            ─ Querida, eu moro aqui sozinha. Se você não parar de fazer escândalo na minha porta, eu vou chamar a polícia.
Percebendo que não teria como provar que realmente estivera algumas vezes no apartamento, ela desistiu. Saiu do pequeno prédio de quatro andares, chorando, completamente desolada.
Quando já se aproximava de casa, sentiu um calafrio, que logo se transformou em medo, ao reconhecer no homem que encostado em um poste, a observava, aquele que tentara assaltá-la há alguns meses. Tentou ignorá-lo e acelerou o passo, mas parou pouco adiante ao ouvir o homem perguntar:
            ─ Ele enganou você, não foi?
Trêmula, ela virou-se e, ainda chorando, perguntou:
            ─ Como você sabe disso? Você conhece ele?
            ─ Conheço você. Desde que nasceu.
            ─ Me conhece como? Eu nunca havia te visto até aquele dia no ônibus.
            ─ Você nunca havia me notado. Mas, infelizmente, naquele dia você me notou apenas porque me temeu. Julgou-me pela minha aparência. Não permitiu que eu a ajudasse. Mas, venha comigo que você entenderá o que estou dizendo.
O homem começou a caminhar. Seus passos eram firmes e rápidos, ela quase corria tentando acompanhá-lo.
            ─ Espere um pouco. Pra onde estamos indo? Será que posso confiar em você? Você é da polícia?
            ─ Se pode ou não confiar em mim, cabe a você decidir. Se eu sou da polícia? De certa forma pode-se dizer que sim. Para onde estamos indo? Veja você mesma, já chegamos.
Olhando à sua volta, ela se deu conta de estar na rodoviária.
            ─ Mas como chegamos aqui tão rápido? Estávamos em um bairro bem distante daqui.
            ─ Tempo e espaço são relativos. Einstein sabia o que estava falando. Olhe lá embaixo. Na fila do segundo ônibus.
            ─ É ele. Vamos até...
Antes que ela terminasse a frase, o homem segurou em seu braço. Ao sentir seu toque ela arrepiou-se. Quando olhou novamente para frente, já estavam a apenas alguns metros de Flavio, que ao vê-los, correu na direção oposta.
Ela o perseguiu, mas, o perdeu de vista na saída da rodoviária. Procurou em vão pelo homem que a acompanhara até ali. Ao se ver mais uma vez sozinha começou a caminhar e chorar, quando alguns metros adiante percebeu em uma rua pouco iluminada os dois homens parados, como que preparados para um confronto. Correu na direção de ambos:
            ─ Flavio, o que aconteceu? Por que você me roubou? Por que estava fugindo?
Flavio apenas olhou para ela e sorriu. Seu sorriso era tão encantador que a fez sentir vontade de abraçá-lo.
            ─ O que quer que tenha acontecido eu vou entender. Preciso de você. Você é o meu Anjo da Guarda.
Flavio gargalhou alto e, olhando para o homem à sua frente disse:
            ─ Está vendo? Ela acha que eu sou o Anjo da Guarda dela.
O homem olhou sério para Lilian, dizendo:
            ─ Você continua fazendo julgamentos errados. Ele é um espírito errante, que se alimenta do amor e da crença de suas vítimas. Precisa ganhar a confiança das pessoas para depois enganá-las. Só assim consegue restaurar suas forças. Alimentando-se da crença, da decepção e do desespero de suas vítimas.
Chorando cada vez mais, ela perguntou:
            ─ Isso não é verdade. Como você sabe disso?
            ─ Eu sei por que eu sou o seu Anjo da Guarda. E não ele.
Lilian não conseguia mais controlar o choro. Sentindo-se fortalecido com a situação, Flavio investiu contra o homem que, rapidamente esquivou-se segurando-o pelo braço. Os dois encontravam-se agora frente a frente, medindo forças. Flavio tentava a todo custo evitar que o homem segurasse em suas mãos. Mas, seus esforços foram em vão, pois, depois de algum tempo o homem finalmente conseguiu segurá-las e dominá-lo.  Um brilho intenso tomou conta das mãos entrelaçadas. Instintivamente Lilian virou o rosto para o lado e antes que pudesse fechar os olhos, ouviu o homem dizer:
            ─ Vire-se e feche bem os olhos.
Ela obedeceu e, mesmo assim pôde perceber um imenso clarão tomar conta do local. Quando momentos depois abriu os olhos e virou-se, viu apenas o homem caído de joelhos e ofegante.
            ─ Onde está o Flavio? O que aconteceu com ele?
            ─ Ele recebeu uma dose maciça de energia e transformou-se em luz.
            ─ Transformou-se em luz? Como isso é possível?
            ─ Ele era um ser feito de trevas e foi transformado em luz. Está agora percorrendo o espaço, entre as estrelas.
Caminhando ao lado do homem ela, envergonhada, não sabia o que dizer.
            ─ Me perdoe por ter achado que você, o meu verdadeiro Anjo da Guarda, era um ladrão.
            ─ Você fez o que a maioria das pessoas insiste em fazer.  Julgar baseando-se apenas na aparência física. Desde crianças, vocês aprendem que devem associar a beleza ao Bem e a falta de beleza ao Mal. Mas, a realidade não se apresenta como nos filmes em que os anjos são sempre jovens, loiros de olhos azuis ou verdes, atléticos e com lindas asas brancas. O Bem e o Mal não possuem formas definidas, nem tão pouco, estão associados à beleza ou a sua falta. É tudo uma questão de luz e trevas. Apenas isso.
Eles caminharam em silêncio por um tempo, até que ela perguntou:
            ─ Vou vê-lo novamente? Você estará por perto sempre que eu precisar?
            ─ Pode ser que você me veja novamente ou não. Posso ajudá-la mesmo que você não perceba minha presença. Quando entrei naquele ônibus eu tentei avisá-la apenas olhando para você. Mas, ao me julgar e me temer, você bloqueou e recusou minha ajuda. Ainda tentei evitar sentando-me ao seu lado, mas, você exerceu o seu livre arbítrio e levantou-se. Tanto o Bem quanto o Mal, só podem agir em sua vida se você permitir. Foi o que você fez ao sentar-se ao lado dele e, hoje ao me acompanhar. Você permitiu que entrássemos em sua vida.
Ela parou e, chorando, pediu a ele um abraço. Ele a abraçou, e ela sentiu novamente um calafrio percorrer seu corpo, mas, desta vez não havia medo, e sim, uma sensação de luz e paz.
            ─ Obrigada. É a única coisa que posso dizer. Obrigada.
            ─ Vá em paz. Creia em Deus e, lembre-se sempre que, aonde quer que você vá, um anjo cuida de você. 


                                                           Autor: Cicero Fernando Coutinho