Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 22 de janeiro de 2012

Leia e pense...

Ninguém transforma ninguém. Ninguém se transforma sozinho. Nós nos transformamos no encontro.
                                                                    (Roberto Crema)


O mundo é um grande palco. Os homens e mulheres que o povoam são meros atores. Uns melhores, outros piores. Mas, todos fazem apresentações e diversos papéis na vida.
                                                          (William  Shakespeare)
DESESPERADOS PELA VIDA...

E tudo começou com uma conversa de fim de tarde em um bar. O delegado Da Costa relembrava seu início de carreira na polícia civil e, relatava incentivado pelos amigos, as investigações, as prisões e o casos solucionados que o tornaram famoso e renderam-lhe a alcunha de Da Costa Kid.
            ─ Começaram a me chamar assim porque o meu sobrenome lembra o Estado Americano de Dakota. Além disso, eu era muito novo, aliás, o mais novo. Mas o apelido pegou mesmo depois do tiroteio do edifício garagem, durante o sequestro do Frazãozinho, filho do falecido Frazão Gouveia, que hoje é o presidente do grupo. Bons tempos aqueles. Hoje em dia, nem bandido se faz como antigamente. Os de hoje são covardes, só sabem agir drogados e em bando. Não há mais honra, nem entre os policiais, que dirá na bandidagem. Às vezes acho que nasci na época errada.
            ─ Você não nasceu só na época errada, Da Costa. Acho que também nasceu no lugar errado.
            ─ Como assim, Vieira?
            ─ Você devia ter nascido nos Estados Unidos, na época do velho oeste. Saque primeiro homem...
Todos caíram na gargalhada, inclusive um homem que em uma mesa mais afastada, prestava atenção na conversa e, parecia já ter passado um pouco da conta na bebida. O delegado Da Costa e seus amigos foram embora, e aos poucos o bar foi ficando vazio, restando apenas o solitário homem que foi alertado por um dos garçons, sobre o fechamento do estabelecimento. Ele levantou-se, agradeceu e saiu cambaleando pela calçada. Jogou-se na cama do jeito que estava, ao chegar em  casa. As palavras do famoso policial ainda ecoavam, embaralhadas em suas recordações embriagadas daquele dia que terminava. Cansado, não conseguia dormir. Em meio à confusão da embriaguez, tentava encontrar o motivo de ter sido demitido de repente, sem aviso, sem motivo. Apenas a velha e padronizada alegação de redução de quadro e não adequação à nova realidade da empresa. Mas que nova realidade? A empresa estava agora como sempre estivera ao longo dos dez anos em que lá permanecera. A mesma política conservadora, as mesmas pessoas desqualificadas no comando, sempre à procura de culpados e não de soluções. Tudo em nome da manutenção do status, do poder, e do emprego. E dessa vez, ele havia sido eleito o culpado.
Inconformado, pegou uma das revistas em quadrinhos, que tanto gostava de ler e, começou a folhear pensando em como seria bom se a vida fosse como nessas histórias. Viagens, ação constante, despreocupação financeira, superação de perigos, aventuras após aventuras, sempre adocicadas com um bonito romance e verdadeiro amor.
Em pouco tempo, o sol iria desaparecer por detrás da montanha, deixando o local às escuras. Parados, os dois homens encaravam-se, avaliando-se mutuamente. A tensão era grande. Eles sabiam exatamente o que estava por acontecer e desejavam ardentemente acabar logo com tudo aquilo, mas mantinham-se quase que imóveis, ambos esperando por um sinal, por um movimento em falso do adversário. Avaliavam-se e comparavam-se, até que, em um momento decisivo, seus olhares cruzaram-se. Então a mistura de fúria e medo que havia em seus olhares fez com que eles sacassem suas armas.
O som estridente do despertador preencheu o quarto. Ainda meio tonto e com dor de cabeça, Roberto encolheu-se sob o lençol após interromper o, naquele dia, indesejável som. Deitado, ficou olhando para o espelho que havia na porta do roupeiro, registrando sua imagem fracassada. O desânimo tomou-lhe conta, quando se lembrou da sua nova e imposta condição de desempregado. Sentou-se recostado na cabeceira e pegou a revista que começara a ler na noite passada. Na capa dois cowboys, um deles com um saco de dinheiro em uma das mãos, se enfrentavam em um duelo, de onde somente um poderia sair com vida. Ele folheou novamente a revista e, ao fechá-la, olhou para a capa e pensou: Por que não?
Passado um mês, no início da manhã de uma segunda-feira, Roberto, conferia detalhes do seu novo uniforme de trabalho. Botas pretas de cano curto enfeitadas com uma pequena espora, calça jeans tradicional e desbotada, cinto com uma brilhante e reflexiva fivela retangular, camisa quadriculada de manga comprida, boné estilo rodeio com suas iniciais e um improvisado colete de fotógrafo complementando o visual de cowboy moderno. Desceu até a garagem e montou em sua moto estradeira preta de 400 cilindradas, equipada na traseira com um alforje e um baú. Momentos depois, carregando um malote de lona, ele entrava em uma das lojas da empresa da qual fizera parte.
            ─ Oi, bom dia. ─ disse a gerente ao vê-lo ─ Tão cedo assim, acabei de fechar o movimento nesse instante. Aguarde um pouco que já vou preparar o malote. Você é novo, não é? Ainda não tinha visto você.
            ─ Sim, sou novo, mas não é esse tipo de papel que desejo. Quero o dinheiro, todo o dinheiro de abertura dos caixas. ─ disse ele, tirando do malote uma pistola automática ─ Isso é um assalto Dona.
Depois de trancar os poucos funcionários presentes em uma sala, ele caminhou até a calçada, colocando o malote com todo o dinheiro recolhido, dentro do baú. Montou na estradeira e saiu em disparada. Estava iniciada a sua desesperada trajetória de fora da lei.
            ─ Você está me dizendo que três lojas foram assaltadas em menos de uma hora? E pelo mesmo homem? ─ perguntou furioso o gerente de patrimônio.
            ─ Isso mesmo seu Peixoto. Ele chegou como se fosse o transportador de malotes de documentos das lojas. ─ respondeu um de seus supervisores.
            ─ Mas como? Os gerentes não conhecem os transportadores? Ele estava uniformizado?
            ─ O recolhimento nem sempre é feito pelo mesmo motoqueiro, e, além disso, a empresa contratada não possui um uniforme, somente um crachá de identificação, que pode facilmente ser falsificado. Infelizmente as câmeras das lojas não registraram o rosto dele. Ele manteve a cabeça baixa e a posição do boné atrapalhou a filmagem. Só contamos com a descrição feita pelos funcionários, principalmente pelas três gerentes, que foram as que tiveram um contato maior com ele.
            ─ Ele devia estar muito bem informado. Escolheu exatamente as lojas com um grande efetivo feminino no horário da manhã. Bem, vamos até a delegacia. As três gerentes ainda estão lá fazendo o registro das ocorrências. Depois, iremos às lojas, precisamos tomar algumas precauções, pois, como foi muito fácil, certamente ele irá voltar.
Satisfeito, ele sorriu ao terminar de contar o dinheiro. Uma quantia razoável para a primeira vez. Tudo havia saído como o planejado e bem mais fácil do que imaginara. Enquanto guardava o dinheiro em uma mochila, começou a pensar como seria seu segundo ataque. Teria que planejar com mais cuidado ainda, pois, de agora em diante estaria presente em todos os pesadelos de Peixoto.
Na delegacia o detetive que acabara de registrar as ocorrências, entrou na sala do delegado Da Costa:
            ─ Acho que o senhor vai gostar de ler isto. ─ disse, passando o registro para o delegado ─ Um homem vestido no estilo country assaltou três lojas do grupo Frazão Gouveia esta manhã. Chamou até as gerentes de "Dona" como um verdadeiro cowboy.
            ─ Meu amigo Peixoto deve estar furioso. ─ respondeu o delegado enquanto lia o registro.
            ─ Ele acabou de chegar para acompanhar a abertura do registro.
            ─ Diga a ele que mandei um abraço, que já estou ciente e que vamos dar total atenção ao caso. Ele ficará mais calmo ouvindo isso.
Peixoto estava nervoso, mas tentava aparentar tranquilidade. Machista, sempre fora contra ao que chamava de "invasão feminina" nos cargos de chefia, apesar de não declarar abertamente seu ponto de vista. Para ele, era óbvio que o assaltante estava bem informado e escolhera lojas com predominância feminina em seus quadros de funcionários. Porém, esta não era a primeira vez que lojas da empresa eram assaltadas, e nem seria a última, tinha consciência disso, mas tinha que de alguma forma minimizar futuras possibilidades de novos assaltos. Era este o seu trabalho.
Demonstrando irritação, o homem entrou na loja e falou:
            ─ Gostaria de fazer uma reclamação sobre um produto que comprei. Quem é o gerente?
Intimidado, o atendente apontou para o lado, indicando o gerente.
            ─ Comprei um produto que veio danificado. ─ disse o homem dando uma sacola plástica ao gerente.
Depois de verificar o produto, como se estivesse seguindo um roteiro o gerente falou:
            ─ A nota fiscal. O senhor está com a nota fiscal?
            ─ Ah! A nota fiscal. Isto serve como nota fiscal? ─ perguntou o homem, tirando do bolso a pistola ─ É um assalto companheiro. Todos vocês venham para cá e entrem, agora mesmo.
Minutos depois, a moto saía em disparada, e antes que virasse a esquina pode-se ouvir um grito no melhor estilo cowboy:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Inconformado, Peixoto ouvia de cabeça baixa, como que contendo uma explosão de fúria.
            ─ Mais duas lojas assaltadas seu Peixoto, dessa vez no interior. Ficamos preocupados com as situadas aqui no centro da cidade e ele agiu no interior. Pelas informações, foi o mesmo homem vestido de cowboy e usando uma moto com um baú. Além das notas, levou dois sacos de moedas de um real.
            ─ Cinco lojas assaltadas no espaço de nove dias. Ele é esperto, mas vamos pegá-lo. Siga os trâmites legais, registre as ocorrências e colha o máximo de informação que puder a respeito dele.
Duas semanas depois, na delegacia, Peixoto ouvia de Da Costa o que a polícia descobrira sobre o já famoso cowboy.
            ─ Ele conhece bem o funcionamento das lojas. Tudo indica que pode estar recebendo ajuda de funcionários, ex-funcionários ou ele mesmo pode ser um ex-funcionário. Um dos gerentes disse que apesar do boné e da barba por fazer, teve a impressão de já tê-lo visto antes. Quero que você providencie uma lista com os nomes das pessoas demitidas nos últimos três meses.
            ─ Você receberá essa lista hoje mesmo, Da Costa. Virou uma questão de honra pegar esse cara. Ele já tem até admiradores entre os funcionários.
            ─ Talvez seja exatamente este, o desejo dele. Ficar famoso, estar na mídia. Ser admirado como um justiceiro pelos funcionários. Mais uma coisa, Peixoto. Temos uma pista que talvez você já tenha percebido. Depois de nove lojas assaltadas em quatro semanas, percebemos que em cada semana os assaltos ocorreram em dias diferentes. Na verdade, ele está seguindo a sequência dos dias da semana.
            ─ Que sequência? ─ perguntou Peixoto que nada havia percebido.
            ─ O primeiro assalto foi numa segunda-feira, o segundo na terça-feira, e assim por diante, até o mais recente que foi numa quinta-feira. Se ele continuar a seguir este padrão de comportamento, o próximo assalto será esta semana, na sexta-feira.
Da Costa ficou observando Peixoto sair da sala com um ar pensativo. Sabia que apesar de bem intencionado, Peixoto era um homem rude, que mantinha o cargo de chefe de segurança do grupo Frazão Gouveia, mais pela lealdade de anos trabalhando para o velho Frazão, do que por competência profissional. Mesmo de posse de informações, se limitaria a enviar um e-mail para as lojas, pedindo atenção a todos, e ficaria a espera dos acontecimentos.
A porta metálica ainda estava à meia altura, quando se abaixando, o homem entrou ordenando ao funcionário que a arriasse novamente. Arregalando os olhos o rapaz obedeceu, sendo conduzido sob a mira da pistola para junto das outras três pessoas que completavam a equipe da manhã. Ao ver o já famoso cowboy, a mulher vestida com uniforme da gerência, sorriu, falando:
            ─ Fique tranqüilo. Você não vai precisar usar essa arma. Aqui, somos todos seus fãs, principalmente eu.
            ─ Então sejam rápidos e coloquem todo o dinheiro nos sacos. Não pensem que acredito nesta história de fãs.
Enquanto colocava o dinheiro nos sacos, a mulher olhava para o cowboy, completamente fascinada. Ao término, antes que ele deixasse todos trancados na sala da gerência, com um lindo sorriso ela disse:
            ─ Você não deveria levar somente o dinheiro.
            ─ Como assim? O que mais há de valor aqui?
            ─ Você devia me levar com você. ─ disse ela ainda sorrindo.
Ele também sorriu e, antes de fechar a porta seus olhares cruzaram-se, fazendo-o hesitar. Por um momento, pensou realmente em levá-la. Porém suas divagações terminaram quando o telefone da loja tocou. Ele saiu rapidamente, caminhando apressado até a motocicleta, estacionada alguns metros à esquerda da loja. Ao arrancar, cruzou com um carro da polícia que vinha em sentido contrário e, olhando para os policiais no interior do carro, gritou:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Surpreendidos, os policiais saíram do carro já sacando suas armas, mas o cowboy já ia longe.
            ─ Vamos atrás dele. Ele vai se arrepender de ter tirado onda com a nossa cara. ─ disse um deles enquanto retornava para o veículo.
Saíram em disparada cantando pneus, sirene ligada, no mais perfeito estilo americano.
            ─ Atenção todas as viaturas próximas a Avenida Central. Acabamos de cruzar com um elemento suspeito em uma motocicleta, que provavelmente é o cowboy procurado por vários assaltos a lojas nas últimas semanas. Ele está indo em direção ao subúrbio.
Minutos depois, em alta velocidade, o cowboy costurava o pesado trânsito da Avenida Central, perseguido por três carros da polícia. A estes, se juntou pouco depois, um carro preto com um giroscópio ligado. Era o delegado Da Costa que costumava fazer por ali seu trajeto para a delegacia.
O cowboy parecia se divertir com a situação, pois, ora acelerava e deixava a polícia para trás, ora diminuía a velocidade, permitindo uma aproximação. Por fim, acelerou, desaparecendo do campo de visão dos policiais, que ao passarem por baixo de uma passarela, ouviram o ronco da motocicleta e ao longe, um já conhecido grito:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Após as freadas bruscas, os policiais tiveram que se contentar em ver o cowboy desaparecer na pista de sentido contrário da avenida.
            ─ Não acredito que fomos enganados pelo velho truque da passarela. ─ disse Da Costa, sorrindo ─ Já estou começando a gostar desse cara.
A perseguição foi o assunto do dia. Emissoras de televisão e rádio exploravam ao máximo o ocorrido na tentativa de aumentar suas audiências. Especialistas em segurança, psicólogos, políticos e vários outros profissionais tentavam explicar os motivos que levavam o cowboy a agir daquela forma. Nas lojas do grupo Frazão Gouveia, não se falava em outra coisa. Peixoto não conseguia esconder sua raiva e, menos ainda, o medo de perder o emprego de chefe de segurança patrimonial. Nervoso, abriu a gaveta da mesa de trabalho e pegou o coldre de couro com a pistola automática. Levantou-se, colocando-o com certa dificuldade na cintura. Sua irritação aumentou ainda mais, ao perceber, talvez pela primeira vez, que os vários anos de empresa e os muitos croissants consumidos na hora do lanche, renderam-lhe uma considerável barriga. E assim, com cara de poucos amigos e tentando encolher a barriga, ele foi para casa, pensando em uma maneira de acabar de vez com a farra do cowboy.
Roberto não conseguia parar de pensar na proposta feita pela mulher. Apesar da perseguição, e de saber que o cerco se fecharia ainda mais, ele só conseguia pensar no sorriso e no brilho do olhar dela ao sugerir que ele a levasse. Guardou o dinheiro, fazendo uma rápida contagem da quantia acumulada. Em pouco mais de um mês, já conseguira nas investidas, muito mais que o recebido como indenização pelos seus dez anos trabalhados. Pensou em juntar esse dinheiro às suas economias e à sua indenização e fugir para outro Estado, onde recomeçaria sua vida de cidadão dentro da lei. Depois de algum tempo, baixada a poeira, poderia voltar para buscá-la. Deitado na cama, seus pensamentos fluíam como raios, criando uma tempestade de possibilidades de um final feliz ao lado de um grande amor. Tudo o que ele sempre sonhou.
Em um mapa do Estado, Da Costa tentava prever em que região seria a próxima investida. Pretendia capturar o cowboy antes que Peixoto perdesse o controle. Conhecia-o há muito tempo e, tinha consciência de sua instabilidade, disfarçada sob a fala mansa e uma falsa tranqüilidade. Chamou Vieira, seu velho parceiro, para verificar o progresso das investigações.
            ─ E então? Conseguiu alguma coisa? Alguém viu ou pensa ter visto o cowboy por aí?
            ─ Claro que sim. Todo mundo viu, todo mundo já falou com ele, todo mundo gosta dele. Ele tá virando uma celebridade.
            ─ Nem os nossos informantes mais confiáveis? ─ perguntou Da Costa enquanto olhava para o mapa sobre a mesa.
            ─ Ninguém vai entregar o cara, porque tá todo mundo na maior expectativa de vê-lo novamente em ação. Tem até apostas rolando. Quando será o próximo assalto? Quais lojas da Frazão Gouveia serão as da vez, coisas desse tipo.
            ─ O povo gosta desse tipo de coisa. Mas tenho certeza que ele agirá novamente amanhã, sábado.
            ─ Já que você tem tanta certeza, não quer fazer uma fezinha? ─ disse Vieira rindo, com as mãos cruzadas sobre a barriga.
            ─ Você não perde a piada, não é Vieira? Deixa eu fazer uma graça também. Levanta esse traseiro gordo e vai fazer o seu trabalho.
Vieira saiu rindo como era de costume. Era um policial eficiente, mas muito boa praça, e Da Costa não abria mão de ter o velho amigo em sua equipe.
Ao dar a primeira volta na chave, a gerente ouviu o ronco do motor da motocicleta e virou-se. Diante dela e dos três funcionários que a acompanhavam para a abertura da loja, o cowboy parou e sorriu estendendo a mão com um malote vazio.
            ─ Vá lá dentro encha o malote e venha para irmos embora daqui.
            ─ Você está falando sério? ─ perguntou ela, entusiasmada.
            ─ Claro que estou. Só voltei aqui por sua causa. A não ser que a proposta não esteja mais de pé?
            ─ Agora mais ainda. Espere aqui. Pessoal, está tudo bem, vamos entrar, preciso falar com vocês.
            ─ Não demore. ─ disse ele sorrindo, mas não conseguindo esconder a tensão.
Minutos depois, ela retornou com o malote cheio. Ele jogou o malote no interior do baú e rapidamente sentou na moto, estendendo a mão para que ela sentasse na garupa. Sorrindo ela o abraçou por trás segurando-se e, quando já saíam disse:
            ─ Dessa vez vamos gritar juntos.
Acelerando a motocicleta, ele sorriu e juntos gritaram:
            ─ Hiiirrraaa!!!
O grito de triunfo foi interrompido pelo som de tiros. Instintivamente ele começou a costurar o trânsito, para dificultar a mira do atirador. Dentro do carro, Peixoto xingou todos os palavrões que sabia ao perceber a esperteza do cowboy. Jogou a pistola sobre o banco do carona e acelerou no encalço da dupla. Ele dirigia como um louco, desrespeitando todas as normas de trânsito e, apesar de se aproveitar bem do tráfego intenso da manhã e da vantagem de estar de motocicleta, o cowboy não conseguia se distanciar muito. Quando chegaram a Avenida Central, pela primeira vez, o cowboy temeu ser pego, ao ver pelo retrovisor que Peixoto parecia estar disputando uma corrida de fórmula um. Ao entrarem em um trecho longo de reta, a distância entre eles não era grande e antes que o cowboy pudesse aumentá-la, Peixoto pegou novamente sua pistola, disparando vários tiros. Na garupa, a moça gritou ao sentir uma bala perfurar sua perna. Imediatamente, o cowboy diminuiu a velocidade e olhando para trás disse:
            ─ Acabou. A brincadeira de mocinho e bandido acabou. Não vou mais por você em perigo. Meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando resolvi trazer você?
            ─ Eu pedi para vir. Foi escolha minha e não estou arrependida. Acelere senão vamos levar mais tiros.
Depois de sair da Avenida por um acesso inviável para um automóvel, eles sentiram-se mais seguros e pararam. O sangue já havia manchado toda a calça jeans da moça que não escondia estar sentindo muita dor.
            ─ Como você está?
            ─ Estou bem. Só que dói muito.
            ─ Graças a Deus, não parece ser grave. Já sei o que vamos fazer. Vou deixá-la na Avenida. Você diz que eu a obriguei a vir comigo. Com certeza alguém vai levá-la para o hospital mais próximo.
            ─ Mas quando nos veremos de novo?
            ─ Sinceramente, não sei. Mas tive uma idéia. Vamos trocar nossos celulares. Quando você estiver melhor e tudo estiver mais tranqüilo, você liga para o seu celular que vai estar comigo, aí então eu vou te buscar e vamos para bem longe daqui. Se alguém perguntar, diga que perdeu o celular, nessa confusão toda.
O abraço foi apertado e o beijo inesquecível, antes que ele saísse desesperado, mais por deixá-la para trás, do que por estar fugindo. Ela permaneceu encostada no poste até perdê-lo de vista, quando virou e acenou para o carro que vinha ao longe. A porta do carona abriu-se e, do interior do carro alguém falou:
            ─ Então te acertei, né? Tá doendo sua vagabunda?
Deitada, amordaçada, algemada e ferida, ela não conseguia distinguir o que era pior. Sua boca doía, seus pulsos doíam, sua perna doía e sangrava. Depois de um bom tempo sacolejando no banco detrás, ela finalmente percebeu o carro parar. Puxando-a pelos cabelos, Peixoto a tirou do carro. O sol já estava bem alto e o calor insuportável. Na tentativa de identificar o local, ela olhou para todos os lados. Dando uma risadinha, Peixoto disse:
            ─ Tá tentando descobrir onde você tá? Isso aqui é uma pedreira. Uma pedreira desativada há muito tempo. Ninguém vem aqui. É muito longe. E quente também, por causa das pedras sabe? O sol batendo no paredão de pedra o dia todo faz aumentar o calor por aqui.
Entraram em uma pequena casa abandonada e ele a empurrou para chão. Cortou a calça jeans com uma faca esportiva que tirou da maleta, e verificou o ferimento.
            ─ Você deu sorte. A bala só pegou na carne, nem ficou alojada. Enquanto faço um curativo, vou falar o que quero que você faça. Daqui a pouco você vai ligar para o seu namoradinho cowboy e vai mandar ele vim até aqui me encontrar. Sozinho. Vai ser um duelo, só eu e ele. Como nos filmes de bang-bang. Quero ver se esse cowboy é bom mesmo.
Terminado o curativo, ele sentou-se na velha cadeira de ferro e tirou-lhe a mordaça. O alívio foi tão grande que, por alguns momentos ela esqueceu-se das algemas e do ferimento.
            ─ Por favor, me dê um pouco de água.
Dando risadas, ele pegou uma garrafa de plástico e encheu em uma torneira que havia em outro cômodo da casa.
            ─ Sabe como eu cheguei bem na hora que vocês tavam fugindo?  Depois do assalto na sua loja, eu conversei com seus funcionários e não foi difícil descobrir que você tinha dado mole pro cowboy. ─ foi contando enquanto a ajudava a beber. ─ Então, foi só fazer uma promessa de promoção para o mais falante deles. Ele ficou de olho em você e me avisou. Nessas horas que a gente vê como um minuto faz diferença, não é mesmo? Mas agora, vamos deixar as histórias de lado e vamos ao que interessa.
Ele colocou a garrafa no para-peito da janela e tirou do bolso da calça, um telefone celular.
            ─ Diz aí o telefone do seu namoradinho cowboy.
            ─ Ele não é meu namorado, eu não sei o número do celular dele e mesmo que soubesse não daria para você.
            ─ É mesmo? Então acho que vou ter que te dar uma força. ─ disse antes de desferir um violento tapa no rosto da moça.
Já enfraquecida pelo ferimento, ela não resistiu muito antes de revelar a troca de celulares para um futuro contato.
            ─ Espertos vocês, hein... Querendo enganar o velho Peixoto. Pronto, tá chamando. Ora, ora, ora, até que enfim nos falamos senhor cowboy. Sabe quem está falando? Sou o chefe de segurança patrimonial do Grupo Frazão Gouveia. O senhor tem me causado muitos problemas. Mas agora chegou a minha vez de dar as cartas. Tô aqui com a sua namoradinha. Ela não está muito bem. Se você quiser vê-la novamente preste atenção em tudo que vou falar.
Entre risadas e ameaças, Peixoto explicou em detalhes como e onde seria o encontro final entre eles.
            ─ Não faça nada diferente do que falei. Se você não vier sozinho, mato ela antes que você chegue aqui em cima.
Roberto certificou-se de que estava tudo no alforje e deu partida na motocicleta. Exatamente na hora estipulada ele parou junto ao grande portão da antiga pedreira e ali, conforme exigência de Peixoto, trocou de roupa. Seguiu então, até uma cancela onde deixou a moto e continuou a pé. Sabia que desde o portão, estava sendo observado por Peixoto e, que a única saída era realmente enfrentá-lo em um duelo. Já próximo da velha casa, viu a moça amarrada à velha cadeira de ferro. Atrás dela, de pé, com uma arma no coldre e uma escopeta na mão, Peixoto o aguardava.
            ─ Pare aí mesmo cowboy, e tire o boné. Quero ver o seu rosto. Meu Deus! Mas você é o Roberto do setor financeiro. Você foi demitido alguns meses atrás. O que deu na sua cabeça homem? Você sempre foi tão certinho.
            ─ Por isso mesmo, Peixoto. Sempre fui tão certinho e levei um pé na bunda. Enquanto enrolões como você continuam fazendo suas cagadas na empresa.
            ─ Seu merda de escritório. Você quase me ferrou. Levei anos para chegar a chefe de segurança. Forjei assaltos nas lojas, prendi e mandei pro inferno os ladrõezinhos baratos que faziam os assaltos pra mim. Sequestrei e ajudei o convencido do Da Costa a libertar o Frazãozinho, tudo tão bem planejado, para você quase pôr tudo a perder por causa do seu empreguinho de escriturário de merda.
            ─ Chega de blábláblá, Peixoto. Vamos acabar logo com isso. Hoje o escriturário de merda vai matar você e ficar com a mocinha.
Dominado pela raiva, Peixoto saiu detrás da cadeira onde estava a moça, caminhando para o lado. Parou diante do cowboy, jogando para longe a escopeta. Sua raiva transformou-se no mais puro ódio, quando viu surgir pelo lado oposto da casa, o delegado Da Costa, que parou  pouco atrás do cowboy.
            ─ Seu merda, eu disse para você não trazer ninguém.
            ─ Eu não vim com ele, Peixoto. Cheguei aqui primeiro. Você lembra que eu disse para você que um dos gerentes tinha a impressão de já ter visto o cowboy. Pois é, graças a isso nós chegamos ao Roberto. Grampeamos os telefones dele. Quando você ligou para ele, você mais uma vez me ajudou a solucionar um caso. Depois que você disse para ele o local do encontro, fiquei com a pulga atrás da orelha. O mesmo local do cativeiro do Frazãozinho? E agora, ouvindo o seu desabafo finalmente descobri toda a verdade sobre o seqüestro.
            ─ Não tenho nada contra você Da Costa. Mas se você quer remoer coisas antigas, é só entrar na fila. Acabo com ele e depois com você.
            ─ Já estou na fila Peixoto.
Em pouco tempo, o sol iria desaparecer por detrás da pedreira, deixando o local às escuras. Parados, os três homens encaravam-se. A tensão era grande. Eles sabiam exatamente o que estava por acontecer e desejavam ardentemente acabar logo com tudo aquilo, mas mantinham-se quase que imóveis, todos esperando por um sinal, por um movimento em falso. Avaliavam-se e comparavam-se, até que, em um momento decisivo, os olhares do cowboy e Peixoto cruzaram-se. Então a mistura de fúria e medo que havia em seus olhares fez com que eles sacassem suas armas. Ouviu-se o som de um tiro, apenas um tiro. Com os olhos saltando de ódio, Peixoto caiu de joelhos com a pistola na mão, antes de tombar para trás. Da Costa aproximou-se do cowboy também com a pistola na mão e juntos caminharam até o corpo de Peixoto.
            ─ Dois tiros? Mas eu só atirei uma vez. ─ disse o cowboy.
            ─ Eu também atirei rapaz. Achei que você não era páreo para ele.
            ─ Mas eu só ouvi o som de um tiro.
            ─ Eu também. ─ concordou Da Costa.
            ─ Então, quer dizer que sacamos e atiramos ao mesmo tempo. Dois saques, o mesmo tempo, um único som. Incrível isso. E agora? Como termina entre nós dois? ─ perguntou o cowboy enquanto se afastava, deixando o corpo de Peixoto entre ele e Da Costa.
            ─ Se eu vencer saio daqui como o homem que matou Peixoto e o lendário delegado Da Costa. O pistoleiro mais rápido. Se você vencer, você sai daqui como o justiceiro que vingou Peixoto, matando o ladrão louco, o cowboy.
Da Costa sorriu e olhou em volta, detendo o olhar sobre a moça que ainda permanecia amordaçada e amarrada à cadeira.
            ─ Tenho uma proposta melhor. Nunca vamos saber qual de nós dois é o mais rápido.
            ─ Não entendi. ─ disse o cowboy, abrindo ligeiramente os braços.
            ─ Porque precisamos um do outro. Você não é um bandido, é um fora da lei. Há aí, uma pequena e sutil diferença. Você é um cara que acha que perdeu tudo e resolveu bancar o justiceiro. Você agiu sozinho e não disparou um tiro sequer, não feriu ninguém nos vários assaltos que fez. Mas agora a pouco, quando não teve escolha, foi muito eficiente. Fez o que tinha que ser feito. Acho que por isso me interessei mais pelas investigações, até simpatizei um pouco com você.
            ─ Engraçado você dizer isso, pois, de certa forma você ajudou a me criar. Alguns meses atrás, no dia em que fui demitido, eu estava tentando me consolar com várias cervejas em um bar, quando você chegou com uns amigos e começou a falar sobre seus primeiros anos na polícia. Bebi muito naquela noite, e acho que a mistura de álcool, indignação, raiva, arrependimento e algumas coisas que você falou lá no bar, me fizeram mudar, me fizeram deixar de querer ser sempre o certinho.
─ Então cowboy, vamos deixar como está. Nunca haverá um duelo entre nós. Pegue sua namorada e saia daqui. Vou dar alguns dias para que ela se recupere, depois, continuarei no encalço de vocês. Se vocês derem mole, prendo vocês por algum tempo.
─ Como por algum tempo? Quer dizer que vamos ficar brincando de gato e rato?
─ Não. De bandido e mocinho. Vamos manter a imprensa ocupada vendendo nossas histórias.
─ Mas, outras pessoas podem se machucar com isso.
─ Lá vem você bancando o certinho de novo. A vida é uma brincadeira rapaz. Não se deve levá-la muito a sério. Estamos em um palco onde todos representam um papel. A diferença é que pessoas como nós, são os atores principais, os outros são apenas coadjuvantes. Então, viva e deixe...
Da Costa calou-se antes de completar a frase e pôs a pistola de volta no coldre, sendo imitado pelo cowboy. Juntos libertaram a moça das amarras e da mordaça. Depois de um breve silêncio, como se tivessem ensaiado, os três gritaram em uma só voz:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Ao ouvirem de volta o eco, os três caíram na gargalhada.
O eco da pedreira amplificou suas gargalhadas...

                                                     Autor: Cicero Fernando Coutinho