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PULP
CHARLES BUKOWSKI

sexta-feira, 13 de julho de 2012

FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS

A escuridão, a umidade e o fedor só intensificavam as dores que ela sentia. Não tinha a mínima idéia de onde estava, mas sabia que precisava sair dali com urgência. Seu corpo inteiro ardia. Deitada, olhando para a escuridão, começou a lembrar-se de tudo. Do porquê de estar agora ali. Espancada, violentada e quase estrangulada. Mais uma vítima de palavras doces, de insistentes olhares de desejo e de sorrisos disfarçados. Deixara-se seduzir por um príncipe encantado e, quase morrera nas mãos de um maníaco no cio. Por sorte, ele cometera um erro ao pensar que a havia matado quando ela desmaiou. Tentando reunir forças para levantar-se, ela sentiu algo cair sobre sua barriga e começar a caminhar. Tateando, descobriu tratar-se de um rato. O pavor a fez virar-se, mas sem forças, acabou rolando para baixo, caindo de bruços em uma fétida poça. Rastejou alguns metros, desmaiando em seguida.
O menino entrou correndo e gritando:
            ─ Pai, tem uma mulher morta lá perto do terreno do lixo. Ela tava morta, mas quando eu cheguei perto ela tossiu.
            ─ Calma Pedrinho. Que negócio é esse de tava morta e tossiu?
            ─ Foi sim, pai. Ela tá lá, toda suja e com sangue na boca e tossiu quando eu cheguei perto dela.
            ─ Vamos lá rápido. Se ela tossiu é por que ainda tá viva.
Com a ajuda do filho, a velha senhora limpava com uma toalha o corpo sujo e ensanguentado da moça.
            ─ Coitada. Bateram muito nela. E pelas marcas no pescoço, tentaram enforcar ela também.
            ─ Será que foi os cabeça lá do morro? Será que ela não tava devendo pra eles? ─ perguntou o rapaz enquanto passava outra toalha para a mãe.
            ─ Não sei, mas é melhor falar com o Pedrinho para não sair falando com ninguém sobre ela. ─ respondeu a velha.
            ─ Isso eu já falei. Ele prometeu que não vai falar pra ninguém.
            ─ Ela só vai precisar de uns dia, depois que ela melhorar, a gente manda ela embora.
Deitada, ela olhava para o teto. Um olhar parado, quase sem vida. Por mais que tentasse esquecer, as imagens vinham automaticamente, não havia como evitá-las. Quando dormindo, sonhava; quando acordada, pensava. E sempre, acompanhando os sonhos ou os pensamentos, estavam as imagens. Revia e sentia tudo, cada momento, cada galanteio, cada troca de olhares, o espancamento, o abuso sexual, as mãos apertando seu pescoço. Sentia-se mal por ter sido tão fácil, por não ter sabido evitar. O mal estar transformava-se em raiva, mais que raiva, em ódio quando lembrava que havia sido jogada no lixo. Usada e jogada no lixo.
            ─ E aí, moça? Você já tá em condições de ir embora? Fica aí o tempo todo olhando pro teto. Não fala nada, só chora. Nós não podemos ficar com você aqui por muito tempo. ─ disse a velha enquanto ajudava-a a sentar-se e dava-lhe um prato de arroz com feijão e ovo cozido.
Ela comeu sob o olhar silencioso da velha, perguntando ao terminar:
            ─ Há quantos dias estou aqui?
            ─ Até que enfim! Pensei que nunca fosse falar. Dez dias que você tá aqui. Meu neto que te viu lá no lixo e meu filho te trouxe pra cá, escondida no carrinho do Chico do papelão. Mas, me diz o que aconteceu com você. Comprou droga lá no morro e não pagou?
            ─ Não, claro que não. Foi um homem que conheci há alguns meses. Uma grande besteira que fiz. Comecei a sair com ele, mesmo sabendo que era casado. Começou com algumas trocas de olhares, depois ele aproximou-se e disse que me achava bonita, atraente, essas coisas que toda mulher gosta de ouvir.
            ─ E que todo homem gosta de falar até conseguir o que quer. ─ completou a velha.
            ─ É. Eu não tinha essa visão. Até gostava de ser elogiada, desejada, de ver os homens interessados em mim, me disputando. Mas, nesses dias que estive aqui deitada, pude pensar um pouco na minha vida e, concluí que contribuí muito mais do que imaginava para o fim do meu casamento. Meu ex-marido sempre dizia que eu dava muita abertura para os homens me falarem gracejos, e eu sempre rebatia dizendo que ele estava vendo demais, que o ciúme o estava fazendo imaginar coisas. Agora vejo, que na verdade, eu estava iludindo era a mim mesma. Infelizmente, só percebi isso depois de ter sido espancada, violentada, estrangulada e jogada no lixo. Usada e jogada no lixo como uma coisa qualquer.
            ─ Eu não fui estrangulada nem jogada no lixo, mas também fui espancada e violentada. Mais de uma vez, até. Eu era mais nova, que nem você. Aí, um dia eu fiquei grávida. O pai do meu filho era da polícia. Quando falei com ele que estava grávida, ele me espancou e nunca mais me procurou. Mas Deus não quis que eu perdesse a criança. Criei meu filho sozinha, fazendo unha e cabelo. E você? Tá grávida?
            ─ Não, claro que não.
            ─ Então, porque ele fez isso com você?
            ─ Porque descobri que eu não era a única amante dele, era apenas mais uma. Nós discutimos, e ele disse que, eu que me insinuei pra ele com olhares. Que eu tinha dado mole e ele só fez o que todo homem faria. Fez o que tinha que ser feito. O que eu havia pedido com meus olhares. Nervosa, dei um tapa nele. Então, ele me espancou, depois me violentou e antes de me estrangular falou no meu ouvido: "Pra você aprender que, homem que é homem, faz o que tem que ser feito e não olha pra trás."
Ela começou a chorar, enquanto a velha levantava-se e recolhia o prato, dizendo antes de sair do pequeno quarto:
            ─ Depois do que aconteceu comigo, eu não olhei mais pra trás, não olhei mais pro meu passado. E acho que você devia fazer a mesma coisa.
Diante do espelho ela finalmente sorriu ao ver seu novo visual. Os cabelos bem curtos e as sobrancelhas desenhadas combinavam a maquiagem a deixando com um ar mais sério.
            ─ Ficou muito bom. A senhora deveria montar um salão na zona sul, para ganhar mais dinheiro. Quase não estou me reconhecendo.
            ─ Obrigado, mas acho que você não vai se reconhecer se continuar com essa idéia maluca de ir atrás dele.
            ─ Mais cedo ou mais tarde, vamos nos encontrar. Eu só vou adiantar o encontro. Vou tomar cuidado, só preciso saber como vou reagir ao vê-lo.
            ─ Você devia ter ido prestar queixa na polícia, isso sim.
            ─ Não. Isso é entre eu e ele.
Não podia ter sido mais fácil. Bastou procurar nos lugares onde os dois costumavam ir, para que ela o encontrasse. Lá estava ele, acompanhado de outra mulher, como sempre educado, falando baixo, olhando nos olhos, sorrindo, encantando mais uma. Mais uma que poderia terminar jogada no lixo. Observando os dois, sentia seu coração bater acelerado, compreendendo naquele momento que, assim como o amor, o ódio também nascia nas batidas do coração. Agradeceu a sorte, quando após atender ao telefone celular, a mulher retirou-se deixando-o sozinho na mesa. Ele permaneceu bebendo por mais uma hora, saindo depois de esvaziar a última de muitas garrafas de cerveja. Ao chegar ao estacionamento, ele demorou um pouco para abrir a porta do carro, sendo surpreendido por ela.
            ─ Lembra de mim, desgraçado? ─ disse, empurrando-o para dentro do carro enquanto o ameaçava com uma pequena pistola.
Ela entrou pela porta traseira, sentando-se atrás dele.
            ─ Então, você tá mesmo viva, né sua piranha? Eu desconfiei quando não vi nada sobre você nos jornais. Mas foi bom você aparecer. Eu não gosto de deixar nada mal feito, pela metade.  O que você quer? Ir pro motel comigo?
            ─ Dirige e cala essa boca seu verme. Vamos lá pro lixão onde você me jogou.
Calado e olhando para ela pelo retrovisor, ele obedeceu. Já na estrada, percebendo o nervosismo dela, ele foi aos poucos, aumentando a velocidade. Ao aproximar-se de uma curva, freou bruscamente. Com a freada ela foi impulsionada para frente deixando escapulir de sua mão a pistola. Ele acelerou enquanto se inclinava para o lado, tentando pegar a pistola que caíra na frente do banco do carona. Ela então jogou-se para frente, segurando e puxando o braço dele para trás. Em alta velocidade percorreram mais um trecho da estrada, até que, em outra curva ele perdeu a direção. Capotando, o carro invadiu o acostamento em declive. A porta traseira abriu-se, projetando-a para fora carro. Mesmo tendo sofrido vários cortes e com fortes dores, ela conseguiu levantar-se e caminhar até o carro que caíra, alguns metros a frente, completamente destruído. Preso entre as ferragens, com o sangue a escorrer-lhe pela face, ele olhou para ela.
            ─ Tá vendo a merda que você fez? Me ajude a sair daqui sua vagabunda. Anda logo. 
Após um pequeno estouro no motor, o carro começou a incendiar-se. Sem conseguir se mexer, ele gritou:
            ─ Porra, me tira daqui, sua piranha. Depois que tudo isso passar eu te dou um trato. Do jeito que você gosta. ME TIRA DAQUI SUA VAGABUNDA, SUA FILHA da...
Sob o clarão das labaredas, ela virou-se e, com passos lentos, começou a se afastar.
Ela não olhou para trás.

                                             Autor: Cicero Fernando da S. Coutinho

5 comentários:

  1. Adorei!!
    O título é maravilhoso,chama atenção logo de inicio... ¨"FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS".
    Essa história chama a atenção do leitor facilmente,é muito boa...msm!!
    Parabéns por mais essa publicação!! mt boa!!

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  2. Menino sumido! Senti falta das prosas e dos seus textos.
    Gostei do texto, soube prender a atençao. Acho que a vingança poderia ter uma pitada sádica, mas não ligue, é a minha fase.
    Tá ótimo texto e aguardo a continuaçao do seu conto.
    Beijos e um abraço bem apertado.

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  3. Vc sabe prender a atenção e atiçar a curiosodade do leitor.
    Parabéns Cícero!

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  4. Eletrizante narrativa e um final genial.
    Parabéns pelo ótimo "triller".

    Solange Mára (http://contosefabulasdasol.blogspot.com.br/)

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