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CHARLES BUKOWSKI

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Leia e pense...

O maior sofrimento como a maior felicidade nascem do amor.
                                                     (Leoni Kaseff)
ETERNO ABRAÇO 

Helena. Bela e doce Helena. Encantou-me assim que a vi de pé em frente à janela, as mãos delicadas apoiadas no parapeito. Sua pele pálida, seus longos e ondulados cabelos negros e seus olhos castanhos e expressivos me cativaram. Ah, aqueles olhos! Encontraram os meus e demonstraram o que parecia ser surpresa, então, se esboçou em seus delicados lábios um sorriso tímido. Naquele momento meu coração fez-se escravo do seu.
Era seu décimo sétimo aniversário. Minha família, por ser conhecida da família dela compareceu. Eu acabara de chegar de viagem, e fui convidado a ir com eles à comemoração, em mais uma tentativa de minha mãe para animar-me.
─ Desejo-lhe vida longa senhorita. – eu disse, fazendo uma pequena reverência e depois beijando sua mão.
─ Agradeço-lhe cavalheiro.
Depois disso, mal nos falamos, mas nossos olhares se cruzavam a cada instante. Nos dias seguintes, passamos a nos encontrar às escondidas. Ela era cheia de vida, pura, inocente e curiosa como uma criança.
Eram muitas as vezes em que eu tinha que pedir para que ela andasse um pouco mais devagar, para que eu não me esforçasse muito. Eu, ao contrário dela, era enfermo e quando não estava em sua companhia, encontrava-me deitado na cama, tão fraco que não aguentava nem andar. A verdade era que, essas longas caminhadas que compartilhávamos me tiravam as forças, deixando-me cansado e fazendo-me ficar em repouso pelo resto do dia. Mas eu não me importava, se fosse para vê-la eu continuaria cansado.
Pouco a pouco, minha doença foi se agravando e quando o médico disse que eu teria pouco tempo de vida, resolvi não contar a ela, para que não vivêssemos esses últimos momentos rondados pelo medo. Porém, outra má notícia se anunciou: Helena seria desposada dali à apenas dois dias, pois, já havia sido prometida a outro homem sem que soubesse e, agora, teria de se casar.
Ao ouvir essa trágica notícia uma tristeza pesada como chumbo se depositou em meu coração e uma onda de tosse me invadiu. A preocupação fez-se evidente nos olhos de Helena, que me abraçou e, pouco a pouco, fez com que eu me acalmasse. Aninhada em meus braços ela tinha uma das mãos entrelaçada na minha e, apertava com força os olhos fechados, como se doesse fisicamente saber que em breve nos separaríamos. Como se quisesse que aquele abraço durasse eternamente.
Na tarde seguinte, nos encontramos e percebi que Helena havia se isolado, talvez para ignorar a dor. Disse a ela que não poderia lhe oferecer muito por causa da minha doença, mas que poderíamos fugir. Ela abaixou a cabeça fazendo cair as lágrimas que lhe brotavam dos olhos e, disse que não tinha o direito de fazer com que eu me sujeitasse a tão grande sacrifício. Depois, me olhou com uma tristeza desesperadora nos olhos, me pediu perdão e sussurrou: 
            ─ Não.
 E se foi, correndo e soluçando, deixando-me ali, nos braços da Morte.

                                                           Autor: Fernanda Coutinho

sábado, 18 de agosto de 2012

Leia e pense...

Teu corpo combina com meu jeito, nós dois fomos feitos muito pra nós dois.
                                                                   (Caetano Veloso)

Algumas coisas não precisam fazer sentido, basta valer a pena.
                                                                   (Renato Russo)
À FLOR DA PELE

Ele vestiu-se devagar. Talvez, tentando disfarçar o desapontamento consigo mesmo. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele, sempre tão viril, tão másculo, não conseguia mais sentir prazer com outras mulheres desde que a conhecera, que a tocara. Um encontro casual, uma conversa trivial sobre a superlotação do metrô. O contato físico forçado pelo rush, o cruzamento de olhares, a rouca suavidade da voz, o toque das peles, a excitação e o latejar do corpo, a troca de telefones. O segundo encontro, desta vez, sem acaso. Horas de conversa, de sorrisos, de identificação, de sintonia. No encontro das mãos, a certeza da química, a prova do toque. No beijo um sabor novo, único, mas estranhamente já conhecido. Sabor de si próprio.
Não tiveram pressa. Concordaram telepaticamente em aproveitar cada fase, pois, sabiam que a amizade e a cumplicidade já existentes, logo se mesclariam em intimidade. E assim foi. Em uma noite à sós, depois do jantar à luz de velas, da conversa sempre agradável, do toque que alcançava a alma e dos beijos atemporais, entregaram-se e deixaram-se descobrir. Intimidade, desejos e segredos vieram à tona, mas todo segredo é composto por uma dose de sedução e outra de maldição.
E era essa maldição que agora o perseguia. Ele tentava de todas as maneiras, esquecê-la em outros braços, outras bocas, outros corpos, mas faltava o toque, a química, o arrepio à flor da pele, que só com ela sentira. Seus pensamentos, seus sonhos e seus desejos eram todos destinados a ela. O sedutor irresistível dera lugar ao seduzido amaldiçoado.
Não sabendo mais o que fazer, nem como resistir, foi procurá-la. Apenas o silêncio, quando ela abriu a porta. Ele levantou a cabeça detendo-se nos olhos dela.
            ─ Não posso mais ficar longe de você. Você é, e sempre será a mulher da minha vida.
            ─ Eu sou e sempre serei uma mulher. Uma mulher aprisionada em um corpo masculino, mas sempre uma mulher. Sua mulher.
            ─ Seu segredo será nosso segredo, minha mulher.
Ele deu um passo e fechou a porta, deixando do lado de fora a dúvida, o medo, o preconceito. Abraçaram-se, e no abraço trocaram o único e verdadeiro sentimento que havia entre eles: amor.

                                                               Autor : Cicero Fernando Coutinho

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Leia e pense...

A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente.
                                     (Henry Kissinger)
FAÇA O QUE TEM QUE SER FEITO E NÃO OLHE PARA TRÁS

A escuridão, a umidade e o fedor só intensificavam as dores que ela sentia. Não tinha a mínima idéia de onde estava, mas sabia que precisava sair dali com urgência. Seu corpo inteiro ardia. Deitada, olhando para a escuridão, começou a lembrar-se de tudo. Do porquê de estar agora ali. Espancada, violentada e quase estrangulada. Mais uma vítima de palavras doces, de insistentes olhares de desejo e de sorrisos disfarçados. Deixara-se seduzir por um príncipe encantado e, quase morrera nas mãos de um maníaco no cio. Por sorte, ele cometera um erro ao pensar que a havia matado quando ela desmaiou. Tentando reunir forças para levantar-se, ela sentiu algo cair sobre sua barriga e começar a caminhar. Tateando, descobriu tratar-se de um rato. O pavor a fez virar-se, mas sem forças, acabou rolando para baixo, caindo de bruços em uma fétida poça. Rastejou alguns metros, desmaiando em seguida.
O menino entrou correndo e gritando:
            ─ Pai, tem uma mulher morta lá perto do terreno do lixo. Ela tava morta, mas quando eu cheguei perto ela tossiu.
            ─ Calma Pedrinho. Que negócio é esse de tava morta e tossiu?
            ─ Foi sim, pai. Ela tá lá, toda suja e com sangue na boca e tossiu quando eu cheguei perto dela.
            ─ Vamos lá rápido. Se ela tossiu é por que ainda tá viva.
Com a ajuda do filho, a velha senhora limpava com uma toalha o corpo sujo e ensanguentado da moça.
            ─ Coitada. Bateram muito nela. E pelas marcas no pescoço, tentaram enforcar ela também.
            ─ Será que foi os cabeça lá do morro? Será que ela não tava devendo pra eles? ─ perguntou o rapaz enquanto passava outra toalha para a mãe.
            ─ Não sei, mas é melhor falar com o Pedrinho para não sair falando com ninguém sobre ela. ─ respondeu a velha.
            ─ Isso eu já falei. Ele prometeu que não vai falar pra ninguém.
            ─ Ela só vai precisar de uns dia, depois que ela melhorar, a gente manda ela embora.
Deitada, ela olhava para o teto. Um olhar parado, quase sem vida. Por mais que tentasse esquecer, as imagens vinham automaticamente, não havia como evitá-las. Quando dormindo, sonhava; quando acordada, pensava. E sempre, acompanhando os sonhos ou os pensamentos, estavam as imagens. Revia e sentia tudo, cada momento, cada galanteio, cada troca de olhares, o espancamento, o abuso sexual, as mãos apertando seu pescoço. Sentia-se mal por ter sido tão fácil, por não ter sabido evitar. O mal estar transformava-se em raiva, mais que raiva, em ódio quando lembrava que havia sido jogada no lixo. Usada e jogada no lixo.
            ─ E aí, moça? Você já tá em condições de ir embora? Fica aí o tempo todo olhando pro teto. Não fala nada, só chora. Nós não podemos ficar com você aqui por muito tempo. ─ disse a velha enquanto ajudava-a a sentar-se e dava-lhe um prato de arroz com feijão e ovo cozido.
Ela comeu sob o olhar silencioso da velha, perguntando ao terminar:
            ─ Há quantos dias estou aqui?
            ─ Até que enfim! Pensei que nunca fosse falar. Dez dias que você tá aqui. Meu neto que te viu lá no lixo e meu filho te trouxe pra cá, escondida no carrinho do Chico do papelão. Mas, me diz o que aconteceu com você. Comprou droga lá no morro e não pagou?
            ─ Não, claro que não. Foi um homem que conheci há alguns meses. Uma grande besteira que fiz. Comecei a sair com ele, mesmo sabendo que era casado. Começou com algumas trocas de olhares, depois ele aproximou-se e disse que me achava bonita, atraente, essas coisas que toda mulher gosta de ouvir.
            ─ E que todo homem gosta de falar até conseguir o que quer. ─ completou a velha.
            ─ É. Eu não tinha essa visão. Até gostava de ser elogiada, desejada, de ver os homens interessados em mim, me disputando. Mas, nesses dias que estive aqui deitada, pude pensar um pouco na minha vida e, concluí que contribuí muito mais do que imaginava para o fim do meu casamento. Meu ex-marido sempre dizia que eu dava muita abertura para os homens me falarem gracejos, e eu sempre rebatia dizendo que ele estava vendo demais, que o ciúme o estava fazendo imaginar coisas. Agora vejo, que na verdade, eu estava iludindo era a mim mesma. Infelizmente, só percebi isso depois de ter sido espancada, violentada, estrangulada e jogada no lixo. Usada e jogada no lixo como uma coisa qualquer.
            ─ Eu não fui estrangulada nem jogada no lixo, mas também fui espancada e violentada. Mais de uma vez, até. Eu era mais nova, que nem você. Aí, um dia eu fiquei grávida. O pai do meu filho era da polícia. Quando falei com ele que estava grávida, ele me espancou e nunca mais me procurou. Mas Deus não quis que eu perdesse a criança. Criei meu filho sozinha, fazendo unha e cabelo. E você? Tá grávida?
            ─ Não, claro que não.
            ─ Então, porque ele fez isso com você?
            ─ Porque descobri que eu não era a única amante dele, era apenas mais uma. Nós discutimos, e ele disse que, eu que me insinuei pra ele com olhares. Que eu tinha dado mole e ele só fez o que todo homem faria. Fez o que tinha que ser feito. O que eu havia pedido com meus olhares. Nervosa, dei um tapa nele. Então, ele me espancou, depois me violentou e antes de me estrangular falou no meu ouvido: "Pra você aprender que, homem que é homem, faz o que tem que ser feito e não olha pra trás."
Ela começou a chorar, enquanto a velha levantava-se e recolhia o prato, dizendo antes de sair do pequeno quarto:
            ─ Depois do que aconteceu comigo, eu não olhei mais pra trás, não olhei mais pro meu passado. E acho que você devia fazer a mesma coisa.
Diante do espelho ela finalmente sorriu ao ver seu novo visual. Os cabelos bem curtos e as sobrancelhas desenhadas combinavam a maquiagem a deixando com um ar mais sério.
            ─ Ficou muito bom. A senhora deveria montar um salão na zona sul, para ganhar mais dinheiro. Quase não estou me reconhecendo.
            ─ Obrigado, mas acho que você não vai se reconhecer se continuar com essa idéia maluca de ir atrás dele.
            ─ Mais cedo ou mais tarde, vamos nos encontrar. Eu só vou adiantar o encontro. Vou tomar cuidado, só preciso saber como vou reagir ao vê-lo.
            ─ Você devia ter ido prestar queixa na polícia, isso sim.
            ─ Não. Isso é entre eu e ele.
Não podia ter sido mais fácil. Bastou procurar nos lugares onde os dois costumavam ir, para que ela o encontrasse. Lá estava ele, acompanhado de outra mulher, como sempre educado, falando baixo, olhando nos olhos, sorrindo, encantando mais uma. Mais uma que poderia terminar jogada no lixo. Observando os dois, sentia seu coração bater acelerado, compreendendo naquele momento que, assim como o amor, o ódio também nascia nas batidas do coração. Agradeceu a sorte, quando após atender ao telefone celular, a mulher retirou-se deixando-o sozinho na mesa. Ele permaneceu bebendo por mais uma hora, saindo depois de esvaziar a última de muitas garrafas de cerveja. Ao chegar ao estacionamento, ele demorou um pouco para abrir a porta do carro, sendo surpreendido por ela.
            ─ Lembra de mim, desgraçado? ─ disse, empurrando-o para dentro do carro enquanto o ameaçava com uma pequena pistola.
Ela entrou pela porta traseira, sentando-se atrás dele.
            ─ Então, você tá mesmo viva, né sua piranha? Eu desconfiei quando não vi nada sobre você nos jornais. Mas foi bom você aparecer. Eu não gosto de deixar nada mal feito, pela metade.  O que você quer? Ir pro motel comigo?
            ─ Dirige e cala essa boca seu verme. Vamos lá pro lixão onde você me jogou.
Calado e olhando para ela pelo retrovisor, ele obedeceu. Já na estrada, percebendo o nervosismo dela, ele foi aos poucos, aumentando a velocidade. Ao aproximar-se de uma curva, freou bruscamente. Com a freada ela foi impulsionada para frente deixando escapulir de sua mão a pistola. Ele acelerou enquanto se inclinava para o lado, tentando pegar a pistola que caíra na frente do banco do carona. Ela então jogou-se para frente, segurando e puxando o braço dele para trás. Em alta velocidade percorreram mais um trecho da estrada, até que, em outra curva ele perdeu a direção. Capotando, o carro invadiu o acostamento em declive. A porta traseira abriu-se, projetando-a para fora carro. Mesmo tendo sofrido vários cortes e com fortes dores, ela conseguiu levantar-se e caminhar até o carro que caíra, alguns metros a frente, completamente destruído. Preso entre as ferragens, com o sangue a escorrer-lhe pela face, ele olhou para ela.
            ─ Tá vendo a merda que você fez? Me ajude a sair daqui sua vagabunda. Anda logo. 
Após um pequeno estouro no motor, o carro começou a incendiar-se. Sem conseguir se mexer, ele gritou:
            ─ Porra, me tira daqui, sua piranha. Depois que tudo isso passar eu te dou um trato. Do jeito que você gosta. ME TIRA DAQUI SUA VAGABUNDA, SUA FILHA da...
Sob o clarão das labaredas, ela virou-se e, com passos lentos, começou a se afastar.
Ela não olhou para trás.

                                             Autor: Cicero Fernando da S. Coutinho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Leia e pense...

Toda a carne tem cegueiras de desejos a quem ninguém pode resistir.
                         (Albino Forjaz de Sampaio)
CÍRCULO VICIOSO - Parte VI

Subjugada, Alice rendeu-se, entregou-se completamente ao desejo instintivo e incontrolável de Aquiles, que a possuiu furiosamente. Durante um longo tempo ele cavalgou-a, fazendo-a emitir gemidos e sons incompreensíveis em meio à contrações e espasmos de prazer. Em seguida, fez com que ela se ajoelhasse no chão, e inclinasse o corpo sobre a cama. Alice sentiu então, uma penetração vigorosa, profunda, que preencheu totalmente, sua carne, suas entranhas, atingindo seu ponto mais secreto e íntimo. Experimentando um prazer intenso e até então inconcebível, sua submissão e passividade foram dando lugar ao desejo despudorado de prazer e dominação. Ela deixou de pedir e passou a exigir que Aquiles lhe desse prazer e, a cada estocada, a cada centímetro de invasão, deliciava-se com as novas e intensas sensações que faziam seus músculos retraírem-se, sua pele arrepiar-se, levando-a a atingir um orgasmo tão intenso e prazeroso que a fez ter certeza de que não se tratava apenas de um orgasmo da carne, mas também da alma.
Ao sentir Alice estremecer de prazer, Aquiles segurou seus cabelos, preparando-se para o ato final e para a absorção de energia. Porém, antes que fizesse qualquer movimento, sentiu a cabeça de Alice pender pesada para o lado, enquanto ela desmaiava de prazer. Assustado, sentiu uma evasão de energia e teve dificuldade em interromper o coito. Vestiu-se rapidamente, deixando Alice desmaiada com metade do corpo sobre a cama e saiu silenciosamente.
O forte som do motor fez a menina correr até a janela na tentativa de ver o avião que chegava, sendo impedida pelo telhado verde, formado pela copa das árvores. Percebendo a curiosidade da menina, Elza puxou conversa.
            ─ Que correria é essa, menina? Parece que nunca viu um avião.
            ─ De pertinho nunca vi mesmo não. Só lá no alto do céu.
            ─ Se você me ajudar a fazer a comida, eu te levo pra ver os avião lá na pista do patrão.
            ─ Obaa! Leva de verdade dona Elza?
            ─ Claro que levo menina. Eu também gosto de ver aqueles avião, cada um mais bonito que o outro.
A menina apressou-se em lavar o arroz, enquanto Elza achava graça do seu entusiasmo. Havia se afeiçoado à pequena, que ainda exibia uma inocência infantil e, por isso, era tão valiosa para o seu patrão. Geraldo entrou na cozinha e arrancou uma banana d'água do cacho que estava sobre a mesa, descascando e colocando praticamente toda a banana na boca, sendo observado pela menina que ficara séria ao vê-lo.
            ─ Essa cabritinha fica me encarando de cara feia. Vê se pode isso, Elza? ─ disse Geraldo com a boca cheia e cuspindo. ─ Se não fosse a escolhida do patrão já tinha te amansado sua moleca atrevida.
            ─ Vai cuidar da sua vida, Geraldo. Quando a comida estiver pronta eu chamo você. Tá chegando um monte de gente e você sabe que o patrão não gosta de nada errado nesses dias.
            ─ Já tá tudo preparado, Elza. Só estou esperando as ordens dele. ─ respondeu ele, pegando mais uma banana antes de sair fazendo cara feia para a menina.
Em uma atitude de desafio, a menina olhou para ele de soslaio e apertou os olhos retribuindo a cara feia. Percebendo a coragem da pequena, Elza sorriu e comentou:
            ─ Mas onde já se viu?  Encarar o Geraldo desse jeito. Você não tem medo dele?
            ─ Eu não. Ele não é meu pai.
            ─ Pois devia. Todo mundo tem. Geraldo não é flor que se cheire. Devia ter nascido na época do cangaço.
Nesse momento mais um avião passou sobre a casa fazendo a menina sorrir para Elza.
Na sede da fazenda, Ronaldo Galdino recebia pessoalmente os convidados agradecendo a presença de todos. Na realidade seus convidados eram exatamente dez amigos, mas para cada um deles havia duas mulheres convidadas. Com comida e bebidas totalmente liberados, em pouco tempo praticamente todos estavam bêbados, principalmente as mulheres, que eram incentivadas ao consumo de álcool e drogas, para assim perderem a inibição. Mesmo sem consumir drogas, Júlia já bêbada, dançava e participava quase que inconscientemente das brincadeiras eróticas e, alguns copos depois da consequente orgia, assumindo assim, seu papel de bacante.  De madrugada, quando praticamente todos já haviam sucumbido ao cansaço, o avião trazendo Edna e Lúcio, aterrizou.  Sem demonstrar nenhum cansaço, ela dirigiu-se ao escritório onde Ronaldo a aguardava.
            ─ Entre Edna. Estava ansioso por sua chegada. Onde está o seu pastor alemão? ─ perguntou ironicamente, referindo-se a Lúcio.
            ─ Não vim até aqui para ouvir suas piadas, Ronaldo. Temos negócios a tratar. Sejamos diretos.
            ─ Tenho quatro meninas para você. Duas de catorze e duas de dezesseis. Amanhã você poderá vê-las. Mas quero fazer uma proposta.
            ─ E qual seria?
            ─ Você já deve ter percebido que amanhã iniciaremos mais uma jornada. Quero desafiar você e o Lúcio. Se o seu cãozi..., quer dizer, seu preferido, vencer, você as leva como parte do prêmio.
            ─ E se perdermos?
            ─ Você fica me devendo um favor.
            ─ Essa é boa. Acha mesmo que eu ficaria te devendo algo que nem imagino o que possa ser? Seja mais preciso se quiser um acordo.
            ─ Certo. Você não é tola e talvez já tenha percebido que há uma energia diferente no ar. Há outra como você, caminhando por aí. Eu a quero. Quero que você a encontre e a traga para mim. Ou vai querer que o seu reinado seja ameaçado?
Edna vislumbrou na proposta de Ronaldo, a chance de neutralizar de vez sua desconhecida rival. Como ele, em breve todos os lobos estariam a sua procura, o que poderia torná-la uma rival muito poderosa e perigosa, principalmente se fosse jovem.
            ─ Realmente, eu já desconfiava disso, mas você parece ter certeza. O que o leva a essa certeza?
            ─ A morte do lobo ancião. O mais velho de todos que caminhava por aqui, transferiu toda sua energia vital para uma jovem escolhida, antes de morrer. Isso aconteceu há um ano. E ela está por aí, solta, tendo que aprender sozinha a lidar com sua nova condição. Precisa de um mentor.
            ─ Um ano? E porque você ainda não a localizou?
            ─ Porque só fiquei sabendo de tudo isso, há três dias. E sei também que, encontrá-la, será muito mais fácil para você. Além de interessante.
            ─ Pretende usá-la nos seus rituais? Você não desiste mesmo, não é? Mas tudo bem, você me convenceu. Temos um acordo.
            ─ Sabia que você seria inteligente e aceitaria. Então, até amanhã, Edna, e que vença o melhor.
Chegando ao quarto, Edna encontrou Lúcio diante da ampla janela a observar a escuridão.
            ─ O que você está fazendo aí?
            ─ Esperando você. Há muitas aqui dessa vez. Posso sentir o cheiro de todas elas.
            ─ O Ronaldo quer todos os competidores bem atiçados. Ele me fez uma proposta. Se você vencer levamos as meninas como parte do prêmio.  Quatro ninfetas. Teremos um bom lucro com sua vitória.
Lúcio sorriu e aproximou-se de Edna, que já estava sem roupas, ajoelhando-se. Ela afagou seus cabelos e segurando em seu queixo o fez ficar de pé, beijando-o.
            ─ Venha querido, quero que você fique bem faminto. Em algumas horas você precisará de todo apetite e fúria que for capaz de conter.
Na manhã seguinte, ainda sofrendo os efeitos da bebedeira e do uso das drogas, o grupo foi convidado a participar de uma competição que premiaria a todos generosamente, com cinco mil reais, somente pela participação. E para os vencedores, caberia o prêmio maior de cem mil reais.  Os competidores seriam divididos em doze trios, compostos por um homem e duas mulheres, que seriam deixadas em pontos diferentes no interior da mata e, caberia ao homem descobrir a localização de cada uma das parceiras e depois reconduzi-las de volta.
            ─ É claro que não será fácil. Mas será divertido. Vocês terão que subir em árvores, mergulhar, nadar, descobrir trilhas e pistas na mata para poderem voltar. Mas garanto a vocês que tudo isso dentro da maior segurança. Não precisam se preocupar. ─ explicava Ronaldo ─ Sugiro que sejam espertos e dificultem a vida de seus adversários. Boa sorte a todos.
Em três pequenas lanchas, as mulheres, em grupos de oito, foram levadas pelo rio para os pontos onde cada uma seria deixada. Somente após o retorno das lanchas, os homens poderiam seguir a partir de um ponto pré-estabelecido.
Com exceção de Ronaldo e Lúcio, todos os homens não aparentavam boas condições, devido aos excessos da noite anterior. As lanchas retornaram e todos foram embarcados. Sem se falarem, Ronaldo e Lúcio seguiam na terceira lancha. Olhares furiosos se cruzavam num duelo de intimidação. Ao chegarem a uma bifurcação do rio as lanchas desligaram os motores para que todos pudessem mergulhar e, depois, continuar pelo interior da mata, a busca às mulheres. Mesmo tendo sido os últimos a mergulharem, em uma demonstração de incrível vigor físico, Ronaldo e Lúcio foram os primeiros a atingir a margem. E, antes de continuarem, silenciosamente trocaram um último olhar, que poderia ao mesmo tempo, ser de desafio ou respeito mútuo. Furiosos, famintos e sedentos, como uma matilha, todos se embrenharam na mata. Começava ali, uma caçada cruel e mortal.

                                             Autor: Cicero Fernando Coutinho

segunda-feira, 26 de março de 2012

Leia e pense...

Penso na morte menos do que ela pensa em mim.

                     (Chico Anysio)
CHICO ANYSIO, IMORTAL

Os portões do céu abriram-se e, Deus em toda sua glória, veio receber Chico Anysio e todos os seus personagens.  Percebendo a movimentação, a Morte imediatamente dirigiu-se aos portões do céu e pôs-se a observar a entrada do todos. Pantaleão passou e deu de braço; Bento Carneiro, uma cuspidela de lado; Bozó sorriu maliciosamente; Silva piscou e jogou um beijinho; Azambuja saindo da fila passou por trás e beliscou discretamente a nádega da Morte, que virando-se, ninguém viu, pois, ele rapidamente retornando à fila, entrou no céu. E assim, um a um, eles iam entrando rumo à imortalidade, quando a Morte resolveu questionar.
            ─ Isto não está certo. Um homem com duzentas e dez vidas, e eu não posso levar nenhuma. Todas merecem a imortalidade?
Deus, que até aquele momento a ignorara, respondeu:
            ─ Este homem dedicou suas vidas a alegria. Multiplicou risos em gargalhadas. Estimulou o pensamento crítico e as artes, praticou a generosidade. Utilizou cada uma com humor e sabedoria.  Nada há para você aqui.
A Morte continuou observando a entrada de todos, até que, no fim da fila, apareceu sorrindo, Chico Anysio. E mais uma vez ela questionou:
            ─ Duzentas e dez vidas com humor e sabedoria? Isto é impossível. Eu não...
Com o dedo em riste, Deus interrompeu a Morte:
            ─ Calaaadaaa!!!
A morte abaixou a cabeça e retirou-se.
Abrindo os braços, Deus olhou para Chico Anysio e disse:
            ─ Vem, Chico, entra. Entra e vamos conversar. Mas, hein?!?!

                                                  Autor: Cicero Fernando Coutinho

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Leia e pense...

O prazer visita-nos muitas vezes; mas a mágoa agarra-se cruelmente a nós.
                                          (John Keats)
GOTAS DE MÁGOA

A mágoa que se traz no peito
Com água não se mistura
A mágoa que dói sem jeito
Não se dilui, perdura.
Quisera eu pudesse entender
Essa dor que me amargura
Quem sabe eu pudesse esquecer
A mágoa que me tortura.
Faria evaporar essa mágoa
Para bem alto no céu
Para depois despencar
Numa chuva de gotas de mel.
Mas a mágoa que me entristece
Me congela  e me perfura
Me faz sozinho ficar
Numa vida de clausura.

                             Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 22 de janeiro de 2012

Leia e pense...

Ninguém transforma ninguém. Ninguém se transforma sozinho. Nós nos transformamos no encontro.
                                                                    (Roberto Crema)


O mundo é um grande palco. Os homens e mulheres que o povoam são meros atores. Uns melhores, outros piores. Mas, todos fazem apresentações e diversos papéis na vida.
                                                          (William  Shakespeare)
DESESPERADOS PELA VIDA...

E tudo começou com uma conversa de fim de tarde em um bar. O delegado Da Costa relembrava seu início de carreira na polícia civil e, relatava incentivado pelos amigos, as investigações, as prisões e o casos solucionados que o tornaram famoso e renderam-lhe a alcunha de Da Costa Kid.
            ─ Começaram a me chamar assim porque o meu sobrenome lembra o Estado Americano de Dakota. Além disso, eu era muito novo, aliás, o mais novo. Mas o apelido pegou mesmo depois do tiroteio do edifício garagem, durante o sequestro do Frazãozinho, filho do falecido Frazão Gouveia, que hoje é o presidente do grupo. Bons tempos aqueles. Hoje em dia, nem bandido se faz como antigamente. Os de hoje são covardes, só sabem agir drogados e em bando. Não há mais honra, nem entre os policiais, que dirá na bandidagem. Às vezes acho que nasci na época errada.
            ─ Você não nasceu só na época errada, Da Costa. Acho que também nasceu no lugar errado.
            ─ Como assim, Vieira?
            ─ Você devia ter nascido nos Estados Unidos, na época do velho oeste. Saque primeiro homem...
Todos caíram na gargalhada, inclusive um homem que em uma mesa mais afastada, prestava atenção na conversa e, parecia já ter passado um pouco da conta na bebida. O delegado Da Costa e seus amigos foram embora, e aos poucos o bar foi ficando vazio, restando apenas o solitário homem que foi alertado por um dos garçons, sobre o fechamento do estabelecimento. Ele levantou-se, agradeceu e saiu cambaleando pela calçada. Jogou-se na cama do jeito que estava, ao chegar em  casa. As palavras do famoso policial ainda ecoavam, embaralhadas em suas recordações embriagadas daquele dia que terminava. Cansado, não conseguia dormir. Em meio à confusão da embriaguez, tentava encontrar o motivo de ter sido demitido de repente, sem aviso, sem motivo. Apenas a velha e padronizada alegação de redução de quadro e não adequação à nova realidade da empresa. Mas que nova realidade? A empresa estava agora como sempre estivera ao longo dos dez anos em que lá permanecera. A mesma política conservadora, as mesmas pessoas desqualificadas no comando, sempre à procura de culpados e não de soluções. Tudo em nome da manutenção do status, do poder, e do emprego. E dessa vez, ele havia sido eleito o culpado.
Inconformado, pegou uma das revistas em quadrinhos, que tanto gostava de ler e, começou a folhear pensando em como seria bom se a vida fosse como nessas histórias. Viagens, ação constante, despreocupação financeira, superação de perigos, aventuras após aventuras, sempre adocicadas com um bonito romance e verdadeiro amor.
Em pouco tempo, o sol iria desaparecer por detrás da montanha, deixando o local às escuras. Parados, os dois homens encaravam-se, avaliando-se mutuamente. A tensão era grande. Eles sabiam exatamente o que estava por acontecer e desejavam ardentemente acabar logo com tudo aquilo, mas mantinham-se quase que imóveis, ambos esperando por um sinal, por um movimento em falso do adversário. Avaliavam-se e comparavam-se, até que, em um momento decisivo, seus olhares cruzaram-se. Então a mistura de fúria e medo que havia em seus olhares fez com que eles sacassem suas armas.
O som estridente do despertador preencheu o quarto. Ainda meio tonto e com dor de cabeça, Roberto encolheu-se sob o lençol após interromper o, naquele dia, indesejável som. Deitado, ficou olhando para o espelho que havia na porta do roupeiro, registrando sua imagem fracassada. O desânimo tomou-lhe conta, quando se lembrou da sua nova e imposta condição de desempregado. Sentou-se recostado na cabeceira e pegou a revista que começara a ler na noite passada. Na capa dois cowboys, um deles com um saco de dinheiro em uma das mãos, se enfrentavam em um duelo, de onde somente um poderia sair com vida. Ele folheou novamente a revista e, ao fechá-la, olhou para a capa e pensou: Por que não?
Passado um mês, no início da manhã de uma segunda-feira, Roberto, conferia detalhes do seu novo uniforme de trabalho. Botas pretas de cano curto enfeitadas com uma pequena espora, calça jeans tradicional e desbotada, cinto com uma brilhante e reflexiva fivela retangular, camisa quadriculada de manga comprida, boné estilo rodeio com suas iniciais e um improvisado colete de fotógrafo complementando o visual de cowboy moderno. Desceu até a garagem e montou em sua moto estradeira preta de 400 cilindradas, equipada na traseira com um alforje e um baú. Momentos depois, carregando um malote de lona, ele entrava em uma das lojas da empresa da qual fizera parte.
            ─ Oi, bom dia. ─ disse a gerente ao vê-lo ─ Tão cedo assim, acabei de fechar o movimento nesse instante. Aguarde um pouco que já vou preparar o malote. Você é novo, não é? Ainda não tinha visto você.
            ─ Sim, sou novo, mas não é esse tipo de papel que desejo. Quero o dinheiro, todo o dinheiro de abertura dos caixas. ─ disse ele, tirando do malote uma pistola automática ─ Isso é um assalto Dona.
Depois de trancar os poucos funcionários presentes em uma sala, ele caminhou até a calçada, colocando o malote com todo o dinheiro recolhido, dentro do baú. Montou na estradeira e saiu em disparada. Estava iniciada a sua desesperada trajetória de fora da lei.
            ─ Você está me dizendo que três lojas foram assaltadas em menos de uma hora? E pelo mesmo homem? ─ perguntou furioso o gerente de patrimônio.
            ─ Isso mesmo seu Peixoto. Ele chegou como se fosse o transportador de malotes de documentos das lojas. ─ respondeu um de seus supervisores.
            ─ Mas como? Os gerentes não conhecem os transportadores? Ele estava uniformizado?
            ─ O recolhimento nem sempre é feito pelo mesmo motoqueiro, e, além disso, a empresa contratada não possui um uniforme, somente um crachá de identificação, que pode facilmente ser falsificado. Infelizmente as câmeras das lojas não registraram o rosto dele. Ele manteve a cabeça baixa e a posição do boné atrapalhou a filmagem. Só contamos com a descrição feita pelos funcionários, principalmente pelas três gerentes, que foram as que tiveram um contato maior com ele.
            ─ Ele devia estar muito bem informado. Escolheu exatamente as lojas com um grande efetivo feminino no horário da manhã. Bem, vamos até a delegacia. As três gerentes ainda estão lá fazendo o registro das ocorrências. Depois, iremos às lojas, precisamos tomar algumas precauções, pois, como foi muito fácil, certamente ele irá voltar.
Satisfeito, ele sorriu ao terminar de contar o dinheiro. Uma quantia razoável para a primeira vez. Tudo havia saído como o planejado e bem mais fácil do que imaginara. Enquanto guardava o dinheiro em uma mochila, começou a pensar como seria seu segundo ataque. Teria que planejar com mais cuidado ainda, pois, de agora em diante estaria presente em todos os pesadelos de Peixoto.
Na delegacia o detetive que acabara de registrar as ocorrências, entrou na sala do delegado Da Costa:
            ─ Acho que o senhor vai gostar de ler isto. ─ disse, passando o registro para o delegado ─ Um homem vestido no estilo country assaltou três lojas do grupo Frazão Gouveia esta manhã. Chamou até as gerentes de "Dona" como um verdadeiro cowboy.
            ─ Meu amigo Peixoto deve estar furioso. ─ respondeu o delegado enquanto lia o registro.
            ─ Ele acabou de chegar para acompanhar a abertura do registro.
            ─ Diga a ele que mandei um abraço, que já estou ciente e que vamos dar total atenção ao caso. Ele ficará mais calmo ouvindo isso.
Peixoto estava nervoso, mas tentava aparentar tranquilidade. Machista, sempre fora contra ao que chamava de "invasão feminina" nos cargos de chefia, apesar de não declarar abertamente seu ponto de vista. Para ele, era óbvio que o assaltante estava bem informado e escolhera lojas com predominância feminina em seus quadros de funcionários. Porém, esta não era a primeira vez que lojas da empresa eram assaltadas, e nem seria a última, tinha consciência disso, mas tinha que de alguma forma minimizar futuras possibilidades de novos assaltos. Era este o seu trabalho.
Demonstrando irritação, o homem entrou na loja e falou:
            ─ Gostaria de fazer uma reclamação sobre um produto que comprei. Quem é o gerente?
Intimidado, o atendente apontou para o lado, indicando o gerente.
            ─ Comprei um produto que veio danificado. ─ disse o homem dando uma sacola plástica ao gerente.
Depois de verificar o produto, como se estivesse seguindo um roteiro o gerente falou:
            ─ A nota fiscal. O senhor está com a nota fiscal?
            ─ Ah! A nota fiscal. Isto serve como nota fiscal? ─ perguntou o homem, tirando do bolso a pistola ─ É um assalto companheiro. Todos vocês venham para cá e entrem, agora mesmo.
Minutos depois, a moto saía em disparada, e antes que virasse a esquina pode-se ouvir um grito no melhor estilo cowboy:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Inconformado, Peixoto ouvia de cabeça baixa, como que contendo uma explosão de fúria.
            ─ Mais duas lojas assaltadas seu Peixoto, dessa vez no interior. Ficamos preocupados com as situadas aqui no centro da cidade e ele agiu no interior. Pelas informações, foi o mesmo homem vestido de cowboy e usando uma moto com um baú. Além das notas, levou dois sacos de moedas de um real.
            ─ Cinco lojas assaltadas no espaço de nove dias. Ele é esperto, mas vamos pegá-lo. Siga os trâmites legais, registre as ocorrências e colha o máximo de informação que puder a respeito dele.
Duas semanas depois, na delegacia, Peixoto ouvia de Da Costa o que a polícia descobrira sobre o já famoso cowboy.
            ─ Ele conhece bem o funcionamento das lojas. Tudo indica que pode estar recebendo ajuda de funcionários, ex-funcionários ou ele mesmo pode ser um ex-funcionário. Um dos gerentes disse que apesar do boné e da barba por fazer, teve a impressão de já tê-lo visto antes. Quero que você providencie uma lista com os nomes das pessoas demitidas nos últimos três meses.
            ─ Você receberá essa lista hoje mesmo, Da Costa. Virou uma questão de honra pegar esse cara. Ele já tem até admiradores entre os funcionários.
            ─ Talvez seja exatamente este, o desejo dele. Ficar famoso, estar na mídia. Ser admirado como um justiceiro pelos funcionários. Mais uma coisa, Peixoto. Temos uma pista que talvez você já tenha percebido. Depois de nove lojas assaltadas em quatro semanas, percebemos que em cada semana os assaltos ocorreram em dias diferentes. Na verdade, ele está seguindo a sequência dos dias da semana.
            ─ Que sequência? ─ perguntou Peixoto que nada havia percebido.
            ─ O primeiro assalto foi numa segunda-feira, o segundo na terça-feira, e assim por diante, até o mais recente que foi numa quinta-feira. Se ele continuar a seguir este padrão de comportamento, o próximo assalto será esta semana, na sexta-feira.
Da Costa ficou observando Peixoto sair da sala com um ar pensativo. Sabia que apesar de bem intencionado, Peixoto era um homem rude, que mantinha o cargo de chefe de segurança do grupo Frazão Gouveia, mais pela lealdade de anos trabalhando para o velho Frazão, do que por competência profissional. Mesmo de posse de informações, se limitaria a enviar um e-mail para as lojas, pedindo atenção a todos, e ficaria a espera dos acontecimentos.
A porta metálica ainda estava à meia altura, quando se abaixando, o homem entrou ordenando ao funcionário que a arriasse novamente. Arregalando os olhos o rapaz obedeceu, sendo conduzido sob a mira da pistola para junto das outras três pessoas que completavam a equipe da manhã. Ao ver o já famoso cowboy, a mulher vestida com uniforme da gerência, sorriu, falando:
            ─ Fique tranqüilo. Você não vai precisar usar essa arma. Aqui, somos todos seus fãs, principalmente eu.
            ─ Então sejam rápidos e coloquem todo o dinheiro nos sacos. Não pensem que acredito nesta história de fãs.
Enquanto colocava o dinheiro nos sacos, a mulher olhava para o cowboy, completamente fascinada. Ao término, antes que ele deixasse todos trancados na sala da gerência, com um lindo sorriso ela disse:
            ─ Você não deveria levar somente o dinheiro.
            ─ Como assim? O que mais há de valor aqui?
            ─ Você devia me levar com você. ─ disse ela ainda sorrindo.
Ele também sorriu e, antes de fechar a porta seus olhares cruzaram-se, fazendo-o hesitar. Por um momento, pensou realmente em levá-la. Porém suas divagações terminaram quando o telefone da loja tocou. Ele saiu rapidamente, caminhando apressado até a motocicleta, estacionada alguns metros à esquerda da loja. Ao arrancar, cruzou com um carro da polícia que vinha em sentido contrário e, olhando para os policiais no interior do carro, gritou:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Surpreendidos, os policiais saíram do carro já sacando suas armas, mas o cowboy já ia longe.
            ─ Vamos atrás dele. Ele vai se arrepender de ter tirado onda com a nossa cara. ─ disse um deles enquanto retornava para o veículo.
Saíram em disparada cantando pneus, sirene ligada, no mais perfeito estilo americano.
            ─ Atenção todas as viaturas próximas a Avenida Central. Acabamos de cruzar com um elemento suspeito em uma motocicleta, que provavelmente é o cowboy procurado por vários assaltos a lojas nas últimas semanas. Ele está indo em direção ao subúrbio.
Minutos depois, em alta velocidade, o cowboy costurava o pesado trânsito da Avenida Central, perseguido por três carros da polícia. A estes, se juntou pouco depois, um carro preto com um giroscópio ligado. Era o delegado Da Costa que costumava fazer por ali seu trajeto para a delegacia.
O cowboy parecia se divertir com a situação, pois, ora acelerava e deixava a polícia para trás, ora diminuía a velocidade, permitindo uma aproximação. Por fim, acelerou, desaparecendo do campo de visão dos policiais, que ao passarem por baixo de uma passarela, ouviram o ronco da motocicleta e ao longe, um já conhecido grito:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Após as freadas bruscas, os policiais tiveram que se contentar em ver o cowboy desaparecer na pista de sentido contrário da avenida.
            ─ Não acredito que fomos enganados pelo velho truque da passarela. ─ disse Da Costa, sorrindo ─ Já estou começando a gostar desse cara.
A perseguição foi o assunto do dia. Emissoras de televisão e rádio exploravam ao máximo o ocorrido na tentativa de aumentar suas audiências. Especialistas em segurança, psicólogos, políticos e vários outros profissionais tentavam explicar os motivos que levavam o cowboy a agir daquela forma. Nas lojas do grupo Frazão Gouveia, não se falava em outra coisa. Peixoto não conseguia esconder sua raiva e, menos ainda, o medo de perder o emprego de chefe de segurança patrimonial. Nervoso, abriu a gaveta da mesa de trabalho e pegou o coldre de couro com a pistola automática. Levantou-se, colocando-o com certa dificuldade na cintura. Sua irritação aumentou ainda mais, ao perceber, talvez pela primeira vez, que os vários anos de empresa e os muitos croissants consumidos na hora do lanche, renderam-lhe uma considerável barriga. E assim, com cara de poucos amigos e tentando encolher a barriga, ele foi para casa, pensando em uma maneira de acabar de vez com a farra do cowboy.
Roberto não conseguia parar de pensar na proposta feita pela mulher. Apesar da perseguição, e de saber que o cerco se fecharia ainda mais, ele só conseguia pensar no sorriso e no brilho do olhar dela ao sugerir que ele a levasse. Guardou o dinheiro, fazendo uma rápida contagem da quantia acumulada. Em pouco mais de um mês, já conseguira nas investidas, muito mais que o recebido como indenização pelos seus dez anos trabalhados. Pensou em juntar esse dinheiro às suas economias e à sua indenização e fugir para outro Estado, onde recomeçaria sua vida de cidadão dentro da lei. Depois de algum tempo, baixada a poeira, poderia voltar para buscá-la. Deitado na cama, seus pensamentos fluíam como raios, criando uma tempestade de possibilidades de um final feliz ao lado de um grande amor. Tudo o que ele sempre sonhou.
Em um mapa do Estado, Da Costa tentava prever em que região seria a próxima investida. Pretendia capturar o cowboy antes que Peixoto perdesse o controle. Conhecia-o há muito tempo e, tinha consciência de sua instabilidade, disfarçada sob a fala mansa e uma falsa tranqüilidade. Chamou Vieira, seu velho parceiro, para verificar o progresso das investigações.
            ─ E então? Conseguiu alguma coisa? Alguém viu ou pensa ter visto o cowboy por aí?
            ─ Claro que sim. Todo mundo viu, todo mundo já falou com ele, todo mundo gosta dele. Ele tá virando uma celebridade.
            ─ Nem os nossos informantes mais confiáveis? ─ perguntou Da Costa enquanto olhava para o mapa sobre a mesa.
            ─ Ninguém vai entregar o cara, porque tá todo mundo na maior expectativa de vê-lo novamente em ação. Tem até apostas rolando. Quando será o próximo assalto? Quais lojas da Frazão Gouveia serão as da vez, coisas desse tipo.
            ─ O povo gosta desse tipo de coisa. Mas tenho certeza que ele agirá novamente amanhã, sábado.
            ─ Já que você tem tanta certeza, não quer fazer uma fezinha? ─ disse Vieira rindo, com as mãos cruzadas sobre a barriga.
            ─ Você não perde a piada, não é Vieira? Deixa eu fazer uma graça também. Levanta esse traseiro gordo e vai fazer o seu trabalho.
Vieira saiu rindo como era de costume. Era um policial eficiente, mas muito boa praça, e Da Costa não abria mão de ter o velho amigo em sua equipe.
Ao dar a primeira volta na chave, a gerente ouviu o ronco do motor da motocicleta e virou-se. Diante dela e dos três funcionários que a acompanhavam para a abertura da loja, o cowboy parou e sorriu estendendo a mão com um malote vazio.
            ─ Vá lá dentro encha o malote e venha para irmos embora daqui.
            ─ Você está falando sério? ─ perguntou ela, entusiasmada.
            ─ Claro que estou. Só voltei aqui por sua causa. A não ser que a proposta não esteja mais de pé?
            ─ Agora mais ainda. Espere aqui. Pessoal, está tudo bem, vamos entrar, preciso falar com vocês.
            ─ Não demore. ─ disse ele sorrindo, mas não conseguindo esconder a tensão.
Minutos depois, ela retornou com o malote cheio. Ele jogou o malote no interior do baú e rapidamente sentou na moto, estendendo a mão para que ela sentasse na garupa. Sorrindo ela o abraçou por trás segurando-se e, quando já saíam disse:
            ─ Dessa vez vamos gritar juntos.
Acelerando a motocicleta, ele sorriu e juntos gritaram:
            ─ Hiiirrraaa!!!
O grito de triunfo foi interrompido pelo som de tiros. Instintivamente ele começou a costurar o trânsito, para dificultar a mira do atirador. Dentro do carro, Peixoto xingou todos os palavrões que sabia ao perceber a esperteza do cowboy. Jogou a pistola sobre o banco do carona e acelerou no encalço da dupla. Ele dirigia como um louco, desrespeitando todas as normas de trânsito e, apesar de se aproveitar bem do tráfego intenso da manhã e da vantagem de estar de motocicleta, o cowboy não conseguia se distanciar muito. Quando chegaram a Avenida Central, pela primeira vez, o cowboy temeu ser pego, ao ver pelo retrovisor que Peixoto parecia estar disputando uma corrida de fórmula um. Ao entrarem em um trecho longo de reta, a distância entre eles não era grande e antes que o cowboy pudesse aumentá-la, Peixoto pegou novamente sua pistola, disparando vários tiros. Na garupa, a moça gritou ao sentir uma bala perfurar sua perna. Imediatamente, o cowboy diminuiu a velocidade e olhando para trás disse:
            ─ Acabou. A brincadeira de mocinho e bandido acabou. Não vou mais por você em perigo. Meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando resolvi trazer você?
            ─ Eu pedi para vir. Foi escolha minha e não estou arrependida. Acelere senão vamos levar mais tiros.
Depois de sair da Avenida por um acesso inviável para um automóvel, eles sentiram-se mais seguros e pararam. O sangue já havia manchado toda a calça jeans da moça que não escondia estar sentindo muita dor.
            ─ Como você está?
            ─ Estou bem. Só que dói muito.
            ─ Graças a Deus, não parece ser grave. Já sei o que vamos fazer. Vou deixá-la na Avenida. Você diz que eu a obriguei a vir comigo. Com certeza alguém vai levá-la para o hospital mais próximo.
            ─ Mas quando nos veremos de novo?
            ─ Sinceramente, não sei. Mas tive uma idéia. Vamos trocar nossos celulares. Quando você estiver melhor e tudo estiver mais tranqüilo, você liga para o seu celular que vai estar comigo, aí então eu vou te buscar e vamos para bem longe daqui. Se alguém perguntar, diga que perdeu o celular, nessa confusão toda.
O abraço foi apertado e o beijo inesquecível, antes que ele saísse desesperado, mais por deixá-la para trás, do que por estar fugindo. Ela permaneceu encostada no poste até perdê-lo de vista, quando virou e acenou para o carro que vinha ao longe. A porta do carona abriu-se e, do interior do carro alguém falou:
            ─ Então te acertei, né? Tá doendo sua vagabunda?
Deitada, amordaçada, algemada e ferida, ela não conseguia distinguir o que era pior. Sua boca doía, seus pulsos doíam, sua perna doía e sangrava. Depois de um bom tempo sacolejando no banco detrás, ela finalmente percebeu o carro parar. Puxando-a pelos cabelos, Peixoto a tirou do carro. O sol já estava bem alto e o calor insuportável. Na tentativa de identificar o local, ela olhou para todos os lados. Dando uma risadinha, Peixoto disse:
            ─ Tá tentando descobrir onde você tá? Isso aqui é uma pedreira. Uma pedreira desativada há muito tempo. Ninguém vem aqui. É muito longe. E quente também, por causa das pedras sabe? O sol batendo no paredão de pedra o dia todo faz aumentar o calor por aqui.
Entraram em uma pequena casa abandonada e ele a empurrou para chão. Cortou a calça jeans com uma faca esportiva que tirou da maleta, e verificou o ferimento.
            ─ Você deu sorte. A bala só pegou na carne, nem ficou alojada. Enquanto faço um curativo, vou falar o que quero que você faça. Daqui a pouco você vai ligar para o seu namoradinho cowboy e vai mandar ele vim até aqui me encontrar. Sozinho. Vai ser um duelo, só eu e ele. Como nos filmes de bang-bang. Quero ver se esse cowboy é bom mesmo.
Terminado o curativo, ele sentou-se na velha cadeira de ferro e tirou-lhe a mordaça. O alívio foi tão grande que, por alguns momentos ela esqueceu-se das algemas e do ferimento.
            ─ Por favor, me dê um pouco de água.
Dando risadas, ele pegou uma garrafa de plástico e encheu em uma torneira que havia em outro cômodo da casa.
            ─ Sabe como eu cheguei bem na hora que vocês tavam fugindo?  Depois do assalto na sua loja, eu conversei com seus funcionários e não foi difícil descobrir que você tinha dado mole pro cowboy. ─ foi contando enquanto a ajudava a beber. ─ Então, foi só fazer uma promessa de promoção para o mais falante deles. Ele ficou de olho em você e me avisou. Nessas horas que a gente vê como um minuto faz diferença, não é mesmo? Mas agora, vamos deixar as histórias de lado e vamos ao que interessa.
Ele colocou a garrafa no para-peito da janela e tirou do bolso da calça, um telefone celular.
            ─ Diz aí o telefone do seu namoradinho cowboy.
            ─ Ele não é meu namorado, eu não sei o número do celular dele e mesmo que soubesse não daria para você.
            ─ É mesmo? Então acho que vou ter que te dar uma força. ─ disse antes de desferir um violento tapa no rosto da moça.
Já enfraquecida pelo ferimento, ela não resistiu muito antes de revelar a troca de celulares para um futuro contato.
            ─ Espertos vocês, hein... Querendo enganar o velho Peixoto. Pronto, tá chamando. Ora, ora, ora, até que enfim nos falamos senhor cowboy. Sabe quem está falando? Sou o chefe de segurança patrimonial do Grupo Frazão Gouveia. O senhor tem me causado muitos problemas. Mas agora chegou a minha vez de dar as cartas. Tô aqui com a sua namoradinha. Ela não está muito bem. Se você quiser vê-la novamente preste atenção em tudo que vou falar.
Entre risadas e ameaças, Peixoto explicou em detalhes como e onde seria o encontro final entre eles.
            ─ Não faça nada diferente do que falei. Se você não vier sozinho, mato ela antes que você chegue aqui em cima.
Roberto certificou-se de que estava tudo no alforje e deu partida na motocicleta. Exatamente na hora estipulada ele parou junto ao grande portão da antiga pedreira e ali, conforme exigência de Peixoto, trocou de roupa. Seguiu então, até uma cancela onde deixou a moto e continuou a pé. Sabia que desde o portão, estava sendo observado por Peixoto e, que a única saída era realmente enfrentá-lo em um duelo. Já próximo da velha casa, viu a moça amarrada à velha cadeira de ferro. Atrás dela, de pé, com uma arma no coldre e uma escopeta na mão, Peixoto o aguardava.
            ─ Pare aí mesmo cowboy, e tire o boné. Quero ver o seu rosto. Meu Deus! Mas você é o Roberto do setor financeiro. Você foi demitido alguns meses atrás. O que deu na sua cabeça homem? Você sempre foi tão certinho.
            ─ Por isso mesmo, Peixoto. Sempre fui tão certinho e levei um pé na bunda. Enquanto enrolões como você continuam fazendo suas cagadas na empresa.
            ─ Seu merda de escritório. Você quase me ferrou. Levei anos para chegar a chefe de segurança. Forjei assaltos nas lojas, prendi e mandei pro inferno os ladrõezinhos baratos que faziam os assaltos pra mim. Sequestrei e ajudei o convencido do Da Costa a libertar o Frazãozinho, tudo tão bem planejado, para você quase pôr tudo a perder por causa do seu empreguinho de escriturário de merda.
            ─ Chega de blábláblá, Peixoto. Vamos acabar logo com isso. Hoje o escriturário de merda vai matar você e ficar com a mocinha.
Dominado pela raiva, Peixoto saiu detrás da cadeira onde estava a moça, caminhando para o lado. Parou diante do cowboy, jogando para longe a escopeta. Sua raiva transformou-se no mais puro ódio, quando viu surgir pelo lado oposto da casa, o delegado Da Costa, que parou  pouco atrás do cowboy.
            ─ Seu merda, eu disse para você não trazer ninguém.
            ─ Eu não vim com ele, Peixoto. Cheguei aqui primeiro. Você lembra que eu disse para você que um dos gerentes tinha a impressão de já ter visto o cowboy. Pois é, graças a isso nós chegamos ao Roberto. Grampeamos os telefones dele. Quando você ligou para ele, você mais uma vez me ajudou a solucionar um caso. Depois que você disse para ele o local do encontro, fiquei com a pulga atrás da orelha. O mesmo local do cativeiro do Frazãozinho? E agora, ouvindo o seu desabafo finalmente descobri toda a verdade sobre o seqüestro.
            ─ Não tenho nada contra você Da Costa. Mas se você quer remoer coisas antigas, é só entrar na fila. Acabo com ele e depois com você.
            ─ Já estou na fila Peixoto.
Em pouco tempo, o sol iria desaparecer por detrás da pedreira, deixando o local às escuras. Parados, os três homens encaravam-se. A tensão era grande. Eles sabiam exatamente o que estava por acontecer e desejavam ardentemente acabar logo com tudo aquilo, mas mantinham-se quase que imóveis, todos esperando por um sinal, por um movimento em falso. Avaliavam-se e comparavam-se, até que, em um momento decisivo, os olhares do cowboy e Peixoto cruzaram-se. Então a mistura de fúria e medo que havia em seus olhares fez com que eles sacassem suas armas. Ouviu-se o som de um tiro, apenas um tiro. Com os olhos saltando de ódio, Peixoto caiu de joelhos com a pistola na mão, antes de tombar para trás. Da Costa aproximou-se do cowboy também com a pistola na mão e juntos caminharam até o corpo de Peixoto.
            ─ Dois tiros? Mas eu só atirei uma vez. ─ disse o cowboy.
            ─ Eu também atirei rapaz. Achei que você não era páreo para ele.
            ─ Mas eu só ouvi o som de um tiro.
            ─ Eu também. ─ concordou Da Costa.
            ─ Então, quer dizer que sacamos e atiramos ao mesmo tempo. Dois saques, o mesmo tempo, um único som. Incrível isso. E agora? Como termina entre nós dois? ─ perguntou o cowboy enquanto se afastava, deixando o corpo de Peixoto entre ele e Da Costa.
            ─ Se eu vencer saio daqui como o homem que matou Peixoto e o lendário delegado Da Costa. O pistoleiro mais rápido. Se você vencer, você sai daqui como o justiceiro que vingou Peixoto, matando o ladrão louco, o cowboy.
Da Costa sorriu e olhou em volta, detendo o olhar sobre a moça que ainda permanecia amordaçada e amarrada à cadeira.
            ─ Tenho uma proposta melhor. Nunca vamos saber qual de nós dois é o mais rápido.
            ─ Não entendi. ─ disse o cowboy, abrindo ligeiramente os braços.
            ─ Porque precisamos um do outro. Você não é um bandido, é um fora da lei. Há aí, uma pequena e sutil diferença. Você é um cara que acha que perdeu tudo e resolveu bancar o justiceiro. Você agiu sozinho e não disparou um tiro sequer, não feriu ninguém nos vários assaltos que fez. Mas agora a pouco, quando não teve escolha, foi muito eficiente. Fez o que tinha que ser feito. Acho que por isso me interessei mais pelas investigações, até simpatizei um pouco com você.
            ─ Engraçado você dizer isso, pois, de certa forma você ajudou a me criar. Alguns meses atrás, no dia em que fui demitido, eu estava tentando me consolar com várias cervejas em um bar, quando você chegou com uns amigos e começou a falar sobre seus primeiros anos na polícia. Bebi muito naquela noite, e acho que a mistura de álcool, indignação, raiva, arrependimento e algumas coisas que você falou lá no bar, me fizeram mudar, me fizeram deixar de querer ser sempre o certinho.
─ Então cowboy, vamos deixar como está. Nunca haverá um duelo entre nós. Pegue sua namorada e saia daqui. Vou dar alguns dias para que ela se recupere, depois, continuarei no encalço de vocês. Se vocês derem mole, prendo vocês por algum tempo.
─ Como por algum tempo? Quer dizer que vamos ficar brincando de gato e rato?
─ Não. De bandido e mocinho. Vamos manter a imprensa ocupada vendendo nossas histórias.
─ Mas, outras pessoas podem se machucar com isso.
─ Lá vem você bancando o certinho de novo. A vida é uma brincadeira rapaz. Não se deve levá-la muito a sério. Estamos em um palco onde todos representam um papel. A diferença é que pessoas como nós, são os atores principais, os outros são apenas coadjuvantes. Então, viva e deixe...
Da Costa calou-se antes de completar a frase e pôs a pistola de volta no coldre, sendo imitado pelo cowboy. Juntos libertaram a moça das amarras e da mordaça. Depois de um breve silêncio, como se tivessem ensaiado, os três gritaram em uma só voz:
            ─ Hiiirrraaa!!!
Ao ouvirem de volta o eco, os três caíram na gargalhada.
O eco da pedreira amplificou suas gargalhadas...

                                                     Autor: Cicero Fernando Coutinho