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CHARLES BUKOWSKI

domingo, 31 de julho de 2011

Leia e pense...

Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra.
                                     (Rainer Maria Rilke)

sábado, 30 de julho de 2011

UM DIA PARA SEMPRE

No silêncio da noite fria, somente o som da chuva fina e das teclas. Navegando pelas redes sociais, ele procurava dividir sua solidão. Em algum lugar, haveria alguém navegando, ou melhor, sendo levado pelas ondas virtuais para um destino em comum. Em um site de relacionamentos ele a encontrou. A fotografia não parecia real. O sorriso franco, o olhar triste apesar do sorriso, os cabelos encaracolados a emoldurar o belo rosto. O primeiro contato foi de palavras pensadas, medidas. Mas havia algo de diferente nela. Não era como as outras, que na grande maioria, só sabiam falar futilidades e nada mais. Havia franqueza, verdade, sentimento.
Passaram a teclar todas as noites. Os dias eram somente um longo e entediante intervalo entre seus encontros virtuais. Os gostos, as coincidências, as afinidades eram muitas e as divergências divertidas e respeitadas. Porém, quando perceberam que havia entre eles um desejo real e, que o mundo virtual já não era mais suficiente para conter esse desejo, afastaram-se.
O tempo passou, e novamente em uma noite de navegação, como uma garrafa contendo uma mensagem, que vaga à deriva no oceano, ele a reencontrou. Mais uma vez, o sorriso, o olhar triste, os cabelos encaracolados. Novo contato feito, e a sensação de que o afastamento não acontecera, havia sido apenas um hiato no tempo. Seus pensamentos, suas carências, seus desejos, cruzavam-se a todo momento, apesar da distância física e geográfica que os separava. Não havia mais como ignorar que, o que já era uma realidade virtual, precisava ser imediatamente transformado em uma realidade vivida, existencial.
Encontraram-se. O primeiro contato foi tímido, mas romântico, mágico. Ele segurou sua mão e saíram caminhando lado a lado como dois verdadeiros namorados. A sós, tudo foi perfeito. O contato de seus olhos, de suas mãos, de suas bocas e de seus corpos, fez vir à tona sensações já há muito não sentidas. Seus corações experimentaram um pulsar novo, diferente, harmônico. Dois corações unificados, transformados em um só. Naquele dia inesquecível, eles não fizeram sexo, exerceram suas divindades; não aplacaram seus desejos, cumpriram seus destinos; não se entregaram à paixão, descobriram o amor.
Despediram-se. Cada qual para seu relacionamento contratado, sua rotina ilusória, sua vida de aparências sem sentido. Os contatos virtuais tornaram-se escassos. Porém, seus corações unificados compartilhavam em um só ritmo, um só pulsar, o segredo da descoberta do amor. E, em suas memórias, eles guardariam ternamente a doce lembrança de um dia para sempre.

                                                                    Autor: Cicero Coutinho

sábado, 2 de julho de 2011

Leia e pense...

O amor sagrado é o amor que se dá, dado sem interesse. Não pode ser imoral, se está na natureza.
                                                                     (Afrânio Peixoto)
AMOR SUBLIME

Caminhando distraído pelo início da noite, ele assustou-se com a pergunta:
            ─ Moço, vai um programa?
A voz vinha de uma criança. Não devia ter mais de treze anos. Pequena e franzina, cabelos compridos e pretos, os olhos grandes e assustados, a boca forçadamente vermelha, as roupas curtas deixando à mostra o corpo ainda em construção, mas já anunciando uma explosão feminina, parecia uma personagem saída de uma revista de mangá. Sem resposta, ele a olhou nos olhos, e esse encontro de olhares foi além da simples visão, foi uma conexão de almas. Perturbado com a sensação, ele rapidamente afastou-se, sem nada dizer. Alguns passos à frente, olhou para trás, e lá estava ela, olhando, e o seu olhar parecia dizer: Não me deixe aqui.
Ao abrir a porta de casa, seu pensamento ainda estava no olhar da menina. Sentou-se à mesa e, começou a desenhar tentando reproduzi-la. Ao término, achou seu desenho satisfatório, havia ficado bem parecido, mas faltava algo, faltava vida, a vida do olhar. Não conseguira expressar no papel toda vida e emoção que experimentara no olhar da menina. Continuou desenhando e, após vários esboços, concluiu que havia encontrado uma personagem para suas histórias, uma personagem que precisava de um nome e de uma origem. Duas lacunas que só poderiam ser preenchidas com um novo encontro. Teria de encontrá-la novamente para saber seu nome, sua idade, de onde viera e por que passava a noite nas ruas a oferecer-se, se era apenas uma criança. Uma criança que talvez não possuísse sequer um brinquedo, mas que em troca de qualquer quantia transformava-se em brinquedo nas mãos de homens sem escrúpulos e sem caráter.
Sentiu pesada a consciência, só de pensar que, enquanto ele apenas desenhava, ela poderia estar sendo submetida a todo e qualquer tipo de taras e sevícias. Sentado diante de seus desenhos, ele concluiu que as horas da noite eram mais longas e angustiantes do que as do dia, uma consequência direta do silêncio e da escuridão.
No dia seguinte, sua namorada não deu nenhum valor ao seu relato e ainda fez pouco caso:
            ─ Você só pode estar brincando. Procurar uma garota de rua que você nem sabe quem é? E que ainda te ofereceu um programa.
            ─ Uma criança, Patrícia. Era apenas uma criança. E parecia precisar de ajuda.
            ─ Sei bem o tipo de ajuda. É o sonho proibido de todo homem. Uma... Como é mesmo que vocês falam?  Cabritinha bem novinha?
            ─ Você está me ofendendo com essa insinuação, Patrícia.
            ─ Te ofendendo? E eu? Como você acha que eu estou me sentindo?
Furiosa, ela saiu do carro. Ele nunca a tinha visto desse jeito. Mas ponderou que, naquele momento, era melhor deixá-la só. Com certeza, depois de algumas horas, ela estaria mais calma e receptiva. Porém, com a chegada da noite, não era por Patrícia que ele ansioso procurava, caminhando mais uma vez pelas ruas. Permaneceu horas em um bar próximo ao local onde encontrara a menina, atento a cada pessoa que passava, cada carro que parava. O movimento era grande, mulheres, travestis e crianças entravam e saiam dos carros, no que parecia uma maratona de programas. Frustrado, ele desistiu vencido pelo cansaço, E assim, ele continuou noite após noite. Patrícia sentindo-se preterida por uma garota de programa, e ainda furiosa, terminou o namoro. Seus amigos achavam graça de sua obsessão pela menina e aos poucos também iam afastando-se. Até que, em um fim de noite, ao esquecer sobre a mesa do bar um de seus desenhos, um travesti curioso que estava na mesa ao lado, o chamou:
            ─ Ei, Bofescândalo, você tá esquecendo seus papéis. Minha Nossa Senhora da esquina iluminada, mas essa aqui no desenho é a Biazinha Hentai.
            ─ Você conhece essa menina? ─ apressou-se ele em perguntar.
            ─ Se for quem eu tô pensando, conheço sim. Ela atende você meu bem?
            ─ Não. Não é nada disso, mas eu preciso encontrá-la. Por favor, você pode me ajudar?
            ─ O que você quer com ela, então? Não vale dizer que você é o irmãozinho mais velho, porque todos os bofes sempre falam isso. Quando não é Tio, é irmão. ─ zombou o travesti.
            ─ Eu preciso encontrá-la, mas se você não quer ajudar, me devolva os desenhos porque preciso ir.
            ─ Calma Bofe! Eu não disse que não vou ajudar. Só tava fazendo um charme. A Biazinha sempre fica na esquina da boate Vermelho vinte e sete. Mas se você tá a fim de fazer a menina, é melhor tomar cuidado com o urso velho que toma conta dela.
            ─ Urso? Quem é esse urso? ─ perguntou ele franzindo a testa.
            ─ Ele é da polícia, e faz segurança na Vermelho vinte e sete.
            ─ Passei nessa esquina várias vezes nas últimas noites e não a vi.
            ─ Se liga bofe. Quando ela não está lá é porque está com algum cliente, com o urso ou fugindo dele.
            ─ Fugindo dele por quê?
            ─ Já ajudei muito, agora não tô podendo mais. ─ disse o travesti antes de sair rebolando pela calçada como se estivesse em uma passarela.
Vermelho vinte e sete. Depois de vários dias de busca e vigília, ele finalmente tinha uma pista, uma esperança de encontrá-la novamente. Saiu do bar e foi direto para a esquina da boate. Mais uma vez, a menina não estava lá. Resolveu então, entrar na boate. O ambiente era lúgubre, apesar da música e das luzes coloridas. Mulheres seminuas desfilavam por entre homens, na grande maioria, bêbados. Ele procurou por uma mesa de canto, de onde pudesse observar o movimento do lugar. Passados alguns minutos, ele a viu. Sentada ao lado de outras meninas um pouco mais velhas, e em meio a alguns homens que pareciam estrangeiros, ela destoava pela aparente inocência. Uma das garçonetes aproximou-se e ele foi direto ao assunto:
            ─ Isto aqui é para você me fazer um favor. ─ disse enquanto passava para ela uma nota de vinte reais. ─ Preciso que você traga a Biazinha Hentai até aqui.
            ─ Por um pouquinho a mais, você pode ter coisa muito melhor. ─ insinuou-se a garçonete.
            ─ Quem sabe depois. Mas agora preciso falar com ela. Você é capaz de trazê-la?
            ─ Só se for agora. Espera aí que eu já volto. ─ disse ela sorrindo e piscando o olho.
Ele ficou observando a garçonete desfilar pelo salão, até chegar à mesa onde a menina se encontrava e discretamente falar alguma coisa no seu ouvido. A menina levantou-se e acompanhou-a. Nervoso, ele só conseguia olhar para os olhos da menina.
            ─ Pronto. Aqui está ela.
Sem graça, ele sorriu para a garçonete. A menina sentou-se diante dele e o contato inicial foi silencioso e mágico. Havia realmente uma inexplicável troca de energia quando seus olhares se cruzavam.
            ─ Veja. Fiz para você. ─ disse ele, colocando alguns desenhos sobre a mesa.
 Ela arregalou os olhos e pela primeira vez ele a viu sorrindo. Um sorriso de surpresa, de inocência e felicidade.
            ─ Essa sou eu?
            ─ Sim. Não gostou?
            ─ Gostei sim. Ficou bonito, igual nas revistas de mangá.
            ─ Você gosta dessas revistas?
            ─ Gosto muito. Eu tenho três na minha caixa. E também gosto de desenhar, quando posso.
            ─ Então pode ficar com esses desenhos para você. Mas eu queria te perguntar duas coisas, e queria que você falasse a verdade. Posso?
Sem tirar os olhos dos desenhos ela acenou que sim com a cabeça.
            ─ Qual o seu nome verdadeiro e qual a sua idade?
            ─ Só isso que você quer saber? Meu nome é Beatriz e eu tenho doze anos.
Uma criança. Apenas uma criança com a metade de sua idade, solta na noite, no submundo, só tendo a chance de conhecer o lado obscuro da vida.
            ─ Eu estou com fome, você aceita comer alguma coisa aqui comigo?
Novamente ela só acenou com a cabeça. Depois olhou para os lados como se procurasse por alguém. Ele chamou a garçonete e, pouco depois, enquanto ele fingia comer, a menina devorava sem cerimônias um prato de arroz a La grega com batatas fritas e bife, acompanhados de refrigerante. Quando terminaram, a garçonete aproximou-se e, enquanto recolhia os pratos, baixinho o instruiu:
            ─ Não se esqueça de dar um dinheiro para ela, senão você complica a menina.
Ele tirou da pasta um lápis e uma borracha e pôs sobre a mesa juntamente com uma nota de cinquenta reais e, deslizando na direção da menina disse:
            ─ Tome, é para você. Você disse que gosta de desenhar, então faça um desenho para eu ver da próxima vez que nos encontrarmos. Capriche, quero ver um desenho bem bonito.
            ─ Moço, e o seu nome? Qual é?
            ─ Meu nome é Alberto.
Mais uma vez, a menina sorriu com uma inocência que só fez aumentar a vontade dele de não deixá-la ali. Ele levantou-se e seus olhares se encontraram novamente. Ela não sorria mais e permaneceu sentada. Antes de sair da boate ele olhou para trás e ela acenou com a mão. Ao vê-la acenando, ele teve a certeza de que teria que voltar outras vezes.
No fim de semana seguinte, ansioso ele retornou. Ao entrar, ouviu da garçonete exatamente o que temia ouvir. A menina havia sido levada por um homem.
            ─ Mas para onde?
            ─ Fala sério. Pro parque é que não foi. Eles foram pro motel. Você foi o único que não fez isso. Aliás, é melhor você ficar esperando lá fora, e quando ela chegar, leve ela.  
            ─ Mas eu não quero levá-la para nenhum motel.
            ─ Então vá para outro lugar, ou você acha que vai conseguir ficar só conversando com ela sempre que vem aqui? Deixa o Caleb ficar sabendo disso. Ele espanca a coitadinha.
            ─ Quem é Caleb? E porque ninguém chama a polícia quando ele faz isso?
            ─ Por que ele é da polícia. Ele é o dono dela. Entendeu?
Contrariado, ele foi para a calçada. Vários carros pararam, até que de um deles saiu a menina, que ao vê-lo sorriu e foi em sua direção. Depois da troca de olhares e sorrisos, ele disse:
            ─ Venha comigo.
Sem hesitar ela o seguiu e entrou no seu carro. Alguns minutos depois os olhos dela brilhavam, admirando o restaurante fast-food onde se encontravam. Repetiram-se muitas e muitas noites como essa. Os dois no restaurante fast-food, lanchando, conversando, desenhando e imaginando várias histórias para seus personagens. A menina tinha dom para o desenho e ele a ajudava a aprimorá-lo ainda mais. Em pouco tempo, já havia entre eles uma relação de amizade verdadeira, cumplicidade total, respeito mútuo e acima de tudo de confiança recíproca. Porém, ele vinha recebendo constantes telefonemas de Patrícia, que ameaçava denunciá-lo por pedofilia, mesmo sem prova alguma disso. Mas até que ele conseguisse provar que a relação dele com a menina, era de amizade, seria uma dor de cabeça. Além disso, as saídas demoradas da menina e o pouco faturamento, estavam deixando Caleb desconfiado e impaciente. Talvez, aceitar a transferência para outro Estado, deixando a menina seguir sua vida, fosse a solução ideal. Certo disso deixou-a em frente à boate e foi para casa.
Nos encontros seguintes, ele não teve coragem de contar sobre sua transferência. Achou melhor deixar acontecer. Talvez ela sequer sentisse sua ausência. Passados dois meses, tudo estava pronto, sua mudança já havia sido despachada e ele iria de carro para o Estado vizinho. Na noite da partida, seus pensamentos eram todos da menina. Já a caminho, não resistiu e foi a sua procura. Na vermelho vinte e sete, a garçonete com conhecimento de causa lhe disse:
            ─ Ela saiu ainda agora, com o Caleb. Fiquei com pena dela, mas não pude fazer nada.
            ─ Por que pena?
            ─ Você é meio devagar para perceber as coisas né? Caleb é ex-policial, violento, bêbado e fedorento. Ela saiu chorando, pois já sabe que vai ter umas horas de sofrimento ao lado dele.
            ─ Você sabe para onde ele a levou?
            ─ Claro. Ele só vai naquele motel pé sujo que tem em frente ao posto de gasolina.
Desesperado ele saiu em direção ao motel que ficava próximo. Ao chegar encontrou o travesti que também o reconheceu e brincou:
            ─ Oi, Bofe. Você gostou mesmo aqui do bas-fond hein? Se tá procurando pela Hentai, vai ter que esperar, ela acabou de entrar com aquele urso fedido. Não sei como ela aguenta atender ele.
Depois de explicada a situação, os dois estavam na porta do quarto indicado pelo funcionário do motel, que era um dos clientes do travesti e, lhes emprestara a cópia da chave. Entraram de surpresa e ficaram surpresos e enojados com a cena que presenciaram. Deitada no meio da cama, a menina nua, chorava baixinho. Sentado na beira da cama, também nu e completamente bêbado, Caleb fazia carícias íntimas na menina com a pistola, enquanto masturbava-se. Ao vê-los invadir o quarto, tentou atirar, mas a pistola estava travada e antes que pudesse fazer qualquer tentativa de destravá-la, foi atingido por um violento soco dado pelo travesti que instintivamente recorreu a sua máscula força. Caleb tombou inconsciente na cama, enquanto Alberto ajudava a menina a vestir-se e o travesti pegava a pistola e guardava na bolsa.
Horas depois no restaurante fast-food, ele contava para a menina, o travesti e a garçonete sobre sua transferência.
            ─ Mas e a Biazinha, como vai ficar sem você aqui? ─ perguntou a garçonete.
Todos ficaram calados, até que o travesti se manifestou:
            ─ Eu, linda e loura, não desci do salto e machuquei minha linda mãozinha batendo naquele urso fedido, pra acabar assim. Já tive uma idéia que resolve tudo. Você leva a Biazinha com você e pronto.
Todos olharam para a menina, que sorriu.
            ─ Você quer ir comigo Bia?
            ─ Quero. ─ ela respondeu sem nenhuma hesitação.
Depois de abraços, beijos e lágrimas, ele e a menina seguiam no carro em direção a uma nova vida.
Seis anos depois, os desenhos e histórias criados pelos dois, haviam se transformado em revistas em quadrinhos de sucesso, onde uma menina e seus fiéis parceiros ─ uma amiga que trabalhava como garçonete e um travesti que fazia shows noturnos ─ solucionavam crimes e mistérios ajudados por um desenhista que transformava as aventuras em histórias. Depois das revistas, em desenho animado para a televisão e por último em filme nos cinemas de todo país.
E era da pré-estréia que os dois voltavam felizes, após mais uma vez, reencontrarem seus amigos, e juntos assistirem ao esperado filme. Falantes e felizes entraram no luxuoso apartamento onde moravam e abraçaram-se a rodopiar até caírem deitados no sofá. E ali, olhos nos olhos, corpos abraçados, corações acelerados, eles se deram conta de que o tempo havia passado. Ela não era mais uma menina. Ele não era mais um rapaz devagar para perceber as coisas. Anos depois, eles continuavam a experimentar a mesma sensação que tiveram ao trocar o primeiro olhar. E descobriram ali abraçados, que, o que havia entre eles estava muito, muito além de uma simples atração sexual. Não nascia na carne, mas na alma. Não era instinto, era sentimento. Não era paixão, era amor.
Descobriram que existem vários tipos de amor, mas que só um é verdadeiro. E o deles era verdadeiro, era sublime, e nada que estivesse abaixo disso poderia acontecer entre eles. E nesse tempo em que ficaram ali, deitados, abraçados, falando apenas com o olhar, como uma criança que se sente feliz e protegida, ela adormeceu. Ele a tomou nos braços e a levou para o quarto. Depois de cobri-la como sempre fazia todas as noites, antes de sair, ele a beijou no rosto.
            ─ Boa noite, minha menina. Boa noite, meu amor.
Despertada pelo beijo, ela ainda pôde vê-lo antes que ele cuidadosamente fechasse a porta. E feliz como uma criança, baixinho respondeu:
            ─ Boa noite, meu amor.

                                                    Autor: Cicero Fernando Coutinho