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CHARLES BUKOWSKI

domingo, 27 de março de 2011

Leia e pense...

O desencanto da morte é às vezes o encanto da vida.
                              ( Ieda Graci )
O DESENCANTO DA MORTE
 Cansada do seu trono frio, a Morte resolveu verificar o trabalho dos seus arautos. Ao sair de seu castelo de trevas, deparou-se com o nascer do sol em uma praia ainda deserta. Nunca havia prestado atenção nas cenas da vida e, após o espetáculo dado pelo sol, ficou ouvindo o canto hipnotizante do mar. Presenciou a chegada das pessoas à praia, o prazer que cada uma sentia em estar ali e a alegria das crianças. Continuou então, a caminhar anônima pela cidade, em meio ao corre-corre metropolitano. Reparou na pressa das pessoas para chegar aos seus locais de trabalho e, não entendeu o porquê de tanta pressa para estar diante de preocupações, dificuldades, obstáculos e problemas. Diante da construção de um gigantesco edifício, parou e ficou observando o homem que mesmo trabalhando sob um sol escaldante, cantava e parecia feliz. Afastou-se da cidade, chegando aos campos e pradarias. Por um instante, invejou a tranquilidade do camponês, que sentado admirava o horizonte infinito e belo. Sentiu o perfume das flores, acompanhou o vôo dos insetos e o trotar indomável da manada de corcéis que exalava liberdade e vida. Caminhou mais um pouco e chegou a uma exuberante floresta, onde examinou as diferentes árvores, as várias espécies de plantas e animais que faziam a floresta parecer encantada. Ouviu com atenção e pela primeira vez, os diferentes cantos das mais variadas espécies de coloridos pássaros. Mais adiante, pôs-se a observar um ruidoso rio que corria cortando a mata. Viu no seu leito, os peixes velozes e saltitantes e ouviu a relaxante melodia das águas se transformar em um poderoso estrondo ao chegar a uma abissal cachoeira. Curiosa, ergueu a mão sem vida até o branco véu líquido e, sentiu pela primeira vez, o frescor das águas, arrepiando-se ao experimentar o toque da vida. Continuou caminhando e chegou aos pés de uma enorme e íngreme montanha onde parou para contemplar o vôo imponente e solitário de uma águia. No cume da montanha abaixou-se e pegou um punhado de neve, examinando sua consistência e candura.
E assim, caminhando pelos quatro cantos do mundo, a Morte, sempre infalível, concluiu que, desperdiçara sua longevidade olhando apenas para a escuridão. Certeira em ceifar a vida, nunca havia percebido sua diversidade e exuberância.
Relembrando cada momento de sua caminhada, sentiu um pesado fardo por privar tantos, das maravilhas que acabara de descobrir. Atormentada por um inédito sentimento de culpa, conhecedora de sua invulnerabilidade e, sabedora de que somente por suas próprias mãos poderia ser erradicada, a Morte, arrependida, como Iscariotes enforcou-se, liberando a imortalidade acumulada ao longo de milênios, sobre a humanidade, que após absorver tamanha carga de energia, transcendeu, evoluindo mais um passo.
A Morte finalmente compreendera seu papel na criação ao abdicar de sua existência. O homem tornou-se imortal, Deus sorriu e, novamente pôde descansar mais um dia.
Mas somente um dia, pois em algum lugar do universo, em uma longínqua galáxia, uma nova espécie cometia o pecado original, fazendo com isso, nascer um ser chamado Morte.

                                                                     Autor: Cicero Coutinho

segunda-feira, 7 de março de 2011

Leia e pense...

O amor reúne dois entes estranhos num só viver.
                      (José Valeriano Rodrigues)
AMOR SOMBRIO
Enquanto dirigia, o homem fazia uma retrospectiva de sua vida amorosa. Bem sucedido profissionalmente, ele era a perfeita comprovação da máxima "sorte no jogo, azar no amor". Sempre tivera muita sorte no jogo financeiro, paralelamente a muito azar nos relacionamentos amorosos. Suas muitas tentativas de encontrar um verdadeiro e eterno amor fracassavam uma após a outra, e apesar de todos os seus esforços, as mulheres acabavam afastando-se, quase sempre alegando que o problema não era ele, que não sabiam o que havia acontecido, mas que se sentiam impelidas a afastar-se. Como consequência angariara para si a fama de conquistador e mulherengo, que fazia sucesso entre os amigos, e ao mesmo tempo afastava ainda mais as mulheres. Sentia-se solitário e precisava de uma companheira para dividir seu sucesso profissional, suas conquistas pessoais, seus desejos e sua vida.
Ao atingir o vão central e mais alto da ponte, parou o carro e saiu. Debruçou-se sobre a mureta de concreto e pôs-se a observar o mar encoberto pelas sombras da noite. Chorou, e suas lágrimas despencaram de seus olhos para juntar-se, lá embaixo, ao mar de escuridão.
Quando já não havia mais lágrimas, subiu na mureta e atirou-se de encontro ao mar de águas e sombras. Mal começara a cair, sentiu um tranco e uma forte dor no braço. Alguém havia segurado sua mão, impedindo sua queda. Tentou soltar-se, mas o aperto de mãos era firme, um forte chamado para a vida. Olhou então para cima e viu que quem o segurava e o impedia de mergulhar no mar de trevas, era sua própria sombra, que lentamente o puxava para cima.
De pé na ponte, de mãos dadas com sua própria sombra, que parecia ter adquirido vida, ele novamente começou a relembrar seus relacionamentos, mas desta vez, tudo parecia estar sendo contado por sua sombra. As imagens eram projetadas em sua mente de uma maneira telepática, e assim ele pôde finalmente compreender que as mulheres com as quais tinha se relacionado, haviam realmente sido impelidas a afastarem-se, e que as sombras reproduzem o perfil do corpo ao qual pertencem, mas que independente disso, podem ser masculinas ou femininas. E a sua era feminina e apaixonada por ele.
De pé na ponte, ele estendeu sua outra mão para sua sombra, e os dois então, aproximaram-se e abraçaram-se, misturando suas essências e consumando o amor entre dois seres de diferentes dimensões.
E daquela noite em diante, os dois tornaram-se um, e como nos contos de fadas, foram felizes para sempre...

                                                Autor: Cicero Fernando Coutinho