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CHARLES BUKOWSKI

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O U S A D O

Ele achava-se o tal, o sedutor, o bam-bam-bam das conquistas amorosas. Atirava sempre, para todos os lados, em todas as direções. Seus tiros dados a esmo, sempre acertavam um alvo. Sempre havia um alvo disposto a receber uma bala, mesmo que perdida, sem nenhuma precisão. Não se preocupava com sentimentos alheios, sua única obsessão era fazer marcas na coronha, como gostava de dizer. Marcas que fazia questão de exibir para os amigos de copo e de tiroteio, vangloriando-se e intitulando a si próprio de ousado.  E assim, novos alvos eram atingidos, novas marcas feitas, tendo como critério único, tão somente a quantidade. Sua lista crescia rapidamente e o sucesso de suas investidas, animava-o ainda mais, fazendo-o acreditar ser capaz de superar o próprio "Burlador de Sevilla", de quem era um profundo admirador. Inspirado e confiante elaborava estratagemas, planejava atitudes, não economizava palavras e galanteios, não media esforços para fazer uma mulher sentir-se iludidamente desejada, única, especial. Depois de consumada a conquista, do nome inserido na lista, da coronha devidamente marcada, iniciava imediatamente uma nova bateria de tiros a esmo. Precisava provar para si mesmo e mostrar para todos, sua masculinidade e seu insaciável apetite.  Cada nova investida era encarada apenas como mais uma empreitada, cada mulher como um item colecionável. Insinuava-se para todas, mas tinha especial predileção pelas comprometidas, pois, sentia-se mais viril possuindo o proibido, e por achar que ao ceder, a comprometida o faz por vontade própria e plena consciência; e também por aquelas que se faziam de difíceis, que simulavam não ter interesse, não mantinham diálogo, mas traíam-se nas atitudes e no olhar. Quando percebia tal comportamento, silenciosamente sorria, como que falando para si mesmo: "Esta, é só uma questão de tempo." E quase sempre o tempo era seu aliado.
E foi assim, achando-se o legítimo e mais completo sedutor que, relembrando sua vida e suas conquistas, pôs-se a enumerar mentalmente sua lista. E a cada nome lembrado, foi-se dando conta de seu fracasso emocional, de seu vazio interior, da ausência de amor em sua vida. Percebeu enfim, que todas as mulheres de sua considerável lista, não haviam, como sempre acreditara, passado por suas mãos. Era exatamente o contrário. Ele, o ousado é que, como um joguete, passado de mão em mão, havia sido usado por todas.
Na verdade, o ousado era o usado. Um trocadilho ridículo, mas jocosamente cruel, e somente percebido tardiamente, quando in extremis, ele encontrava-se solitário em um leito de hospital.

                                                                     Autor: Cicero Fernando Coutinho

3 comentários:

  1. Admirei a forma como você expõe seu dom de escrever através de boas colocações de palavras com um tema que, apesar de ser bordado por bastante gente, não é clichê.
    Belo texto.

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