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PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 7 de agosto de 2011

LAÇO SANGUINEO

Ofegante e assustada, ela saiu do coma, como quem sai de um quase afogamento. Sua primeira percepção foi a de estar só em um quarto que não era o seu. Uma sensação de fraqueza a incomodou. Aos poucos, a lembrança do acidente e de estar caminhando de mãos dadas com ele, logo com ele.
Recuperada, rotina de vida retomada, sentia que alguma coisa havia mudado. Porém, incomodava-se sempre com essas lembranças e sensações. Desde criança odiava quando diziam que os dois eram namoradinhos. E essa brincadeira sem graça durou até a adolescência de ambos, quando ele teve a ousadia de beijá-la de surpresa e pedi-la em namoro na frente de todos da turma. Ela imediatamente recusou. Mas não foi uma simples recusa. Para que ele aprendesse e se colocasse em seu devido lugar, ela o desdenhou, ofendeu e humilhou diante de todos, que riram dele. Depois disso, afastaram-se e nunca mais se falaram. Quando por acaso, cruzavam-se na rua, ela sentia o olhar dele em sua direção, mas fingia não vê-lo. Ela começou então, um namoro que mais parecia um sonho. Seu namorado era inteligente, alto, corpo definido, de boa classe social e para completar, bonito. Todos diziam que os dois formavam um casal lindo, perfeito, feitos um para o outro. Ele, por sua vez, estudava, trabalhava e raramente saía de casa para divertir-se. Nunca o haviam visto com uma garota e, por isso, faziam até piadas duvidando de sua masculinidade. Alguns ousavam dizer que ele esperava por ela, o que a deixava completamente irritada. No entanto, quis o destino que seus caminhos e suas vidas se entrelaçassem de uma maneira totalmente inesperada. Em um fim de semana prolongado, ela e seu namorado, mais uma vez decidiram viajar para o interior. E ele, depois de muita insistência, resolveu participar da excursão organizada por alguns moradores do bairro onde moravam.  Depois de horas de estrada, o micro-ônibus é ultrapassado por um carro, que em alta velocidade, não consegue fazer a curva logo adiante, desgovernando-se e capotando diante dos olhos de todos os excursionistas. Chocados com a cena, todos desceram para prestar socorro. O desespero tomou conta quando perceberam que os acidentados eram conhecidos. Ao vê-la ensanguentada em meio às ferragens retorcidas, ele aproximou-se, ajoelhando-se ao seu lado. Percebendo que ela ainda respirava, segurou sua mão e assim ficou até a chegada do socorro.  
No hospital da pequena cidade interiorana, o médico de plantão comunicou a todos:
            ─ O rapaz teve vários cortes e quebrou uma perna, mas não corre risco de vida. O estado da moça é grave. Há necessidade de transferência para um hospital com mais recursos. Ela precisa urgente de uma transfusão de sangue, mas estamos impossibilitados de fazê-la, pois, no momento, não possuímos estoque de sangue.
            ─ Mas isso aqui não é um hospital? Deveria ter um banco de sangue. Isso é um absurdo. ─ disse indignada uma senhora.
            ─ Como em praticamente todo o país, esta pequena cidade também sofre com o descaso das autoridades com o sistema de saúde. O prefeito não repassa as verbas, não investe e ainda está sob investigação. Enquanto isso, a população é que sofre as consequências. ─ disse o médico resignado.
            ─ Então o que faremos?
            ─ Doutor, eu sou doador universal. Estou disposto a fazer a doação. ─ disse o rapaz que até então mantivera-se calado.
            ─ Sua atitude é muito bonita, rapaz. Mas infelizmente não é tão simples assim. Mesmo você afirmando ser um doador universal, é preciso que se faça testes para verificar a compatibilidade sanguínea e se você é portador de alguma doença que impeça a doação. As transfusões hoje em dia são feitas de maneira muito criteriosa e segura. Já estamos providenciando a remoção para o hospital mais próximo.
O médico retirou-se, deixando todos nervosos. Inconformado, o rapaz o seguiu até sua sala.
            ─ Doutor, preciso falar com o senhor. Eu não sou namorado dela, mas a conheço desde a infância, crescemos juntos. Ela é o meu primeiro e único amor. Não foi uma simples coincidência encontrá-la aqui tão longe de casa e precisando de minha ajuda. Deus quis que eu estivesse aqui nesse momento para salvá-la. Faça o que for preciso, qualquer coisa, mas salve-a. Ficará somente entre nós dois.
            ─ Você não tem noção do que está me pedindo, rapaz. Está me pedindo para esquecer a ética e ainda pôr o meu registro em jogo. ─ disse o velho médico mostrando-se desconfortável com a situação.
Olhando para o rapaz com os olhos lacrimejantes, o médico trouxe à tona, recordações de sua juventude e de seu primeiro grande amor. Ele compreendia os sentimentos do rapaz, mas havia muito mais que sentimentos em jogo. E foi pensando em seu juramento de formatura ─ "Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém." ─ e em seu primeiro grande amor, que o velho médico levantou-se e disse:
            ─ Também acho que Deus quer que se faça alguma coisa. Decidi ser médico porque perdi um grande amor em condições semelhantes. Foi horrível perdê-la sem poder fazer nada. Venha, vamos fazer o que for preciso para salvá-la.
Algumas horas depois, no momento da transferência para o hospital de outra cidade, o médico aproximou-se e disse:
            ─ Vá com ela, rapaz. E quando tudo isso passar, não a perca por nada deste mundo. Vocês estão destinados um ao outro. Hoje, finalmente me realizei como médico. Tive coragem de assumir um risco para salvar uma vida. Deus me deu a oportunidade de salvar um grande amor.
Agora, ao sentir-se impelida a olhar pela janela, seu coração bateu forte, ao vê-lo passar na rua. Escondeu-se atrás da cortina e ficou a observá-lo. Sabia que tinha uma dívida, por ele ter ficado ao seu lado durante os momentos horríveis do acidente. Sua própria mãe, não cansava de repetir que ao segurar sua mão logo após o acidente e durante a transferência de hospital, ele havia mantido aberta para ela, a porta da vida. Todos esses acontecimentos mudaram um pouco seus pensamentos e sua visão de mundo. Já não sentia mais prazer nas saídas para a balada, diminuiu a frequência nas viagens de fim de semana, dedicando-se mais ao trabalho, aos estudos e a vida em família, o que resultou na separação do antes considerado casal perfeito. Mudanças radicais, para uma pessoa que se achava sempre certa em tudo. Tão radicais, que pela primeira vez, depois de adulta, ela iria participar da quadrilha na festa junina da rua. À noite, durante a formação dos integrantes da quadrilha, seus olhares se cruzaram, mas ele fingiu não vê-la. Durante a apresentação, a situação inverteu-se. Era ela que insistentemente olhava para ele. Depois de formada a grande roda, o marcador pediu o início do "garranchê". Damas girando para um lado, cavalheiros para outro, até que, ao se encontrarem, ela desviou o olhar para baixo, mas o toque de suas mãos foi revelador, uma sensação única de estar tocando seu próprio corpo. A grande roda foi novamente formada, e o marcador empolgado, pediu mais uma vez o "garranchê". Ela o acompanhou com olhares até novamente se encontrarem, e ao tocar sua mão, o puxou para fora da roda, sorriu e o abraçou repousando sua cabeça em seu peito. Durante o abraço, embalada pelas batidas do coração dele, ela relembrou momentos de suas infâncias, o acidente, a sensação de estar de mãos dadas com ele, mesmo estando inconsciente. Levantou o rosto e viu que mesmo sorrindo ele tinha lágrimas nos olhos, e então, surpreendendo-o, devolveu-lhe finalmente o beijo. Vários beijos depois, os dois, a sós, recuperavam toda uma vida perdida. Ele contou para ela, sobre o desespero que sentiu ao vê-la em meio às ferragens, o dilema no hospital, a conversa com o médico, a difícil e corajosa decisão que este havia tomado ao concordar em fazer a transfusão, os momentos que ele ficou ao seu lado sempre segurando sua mão. E, em meio a lembranças e revelações, eles se entregaram de corpo e alma. Unida a ele, ela compreendeu que seu sangue, agora misturado ao dele, irrigava forte e abundantemente seu coração. No exato momento da explosão orgástica, seus corpos etéreos, unidos, alçaram vôo até o espaço, e em meio aos corpos celestes, provocaram uma explosão cósmica que fez nascer uma nova e brilhante estrela. Fatigados de prazer, deitados lado a lado, eles acionaram o teto retrátil da suíte e ficaram abraçados contemplando o lindo céu noturno. Juntos testemunharam uma estrela cadente cortar o céu e, de repente, mudar sua trajetória. A estrela parecia aproximar-se e, em um piscar de olhos, a suíte estava tomada por uma intensa luz. E enquanto a estrela se afastava, no seu interior, eles puderam ver a si mesmos, caminhando de mãos dadas rumo à eternidade.

                                                                  Autor: Cicero Coutinho

2 comentários:

  1. Essas histórias de grandes amores muitas vezes soam um pouco clichê, mas você conseguiu subverter nos momentos certos, e trazer emoção para uma história que a gente pensa que adivinha como vai acabar.

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  2. Uau!!!!Muito bom, sem palavras.

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