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CHARLES BUKOWSKI

sábado, 30 de julho de 2011

UM DIA PARA SEMPRE

No silêncio da noite fria, somente o som da chuva fina e das teclas. Navegando pelas redes sociais, ele procurava dividir sua solidão. Em algum lugar, haveria alguém navegando, ou melhor, sendo levado pelas ondas virtuais para um destino em comum. Em um site de relacionamentos ele a encontrou. A fotografia não parecia real. O sorriso franco, o olhar triste apesar do sorriso, os cabelos encaracolados a emoldurar o belo rosto. O primeiro contato foi de palavras pensadas, medidas. Mas havia algo de diferente nela. Não era como as outras, que na grande maioria, só sabiam falar futilidades e nada mais. Havia franqueza, verdade, sentimento.
Passaram a teclar todas as noites. Os dias eram somente um longo e entediante intervalo entre seus encontros virtuais. Os gostos, as coincidências, as afinidades eram muitas e as divergências divertidas e respeitadas. Porém, quando perceberam que havia entre eles um desejo real e, que o mundo virtual já não era mais suficiente para conter esse desejo, afastaram-se.
O tempo passou, e novamente em uma noite de navegação, como uma garrafa contendo uma mensagem, que vaga à deriva no oceano, ele a reencontrou. Mais uma vez, o sorriso, o olhar triste, os cabelos encaracolados. Novo contato feito, e a sensação de que o afastamento não acontecera, havia sido apenas um hiato no tempo. Seus pensamentos, suas carências, seus desejos, cruzavam-se a todo momento, apesar da distância física e geográfica que os separava. Não havia mais como ignorar que, o que já era uma realidade virtual, precisava ser imediatamente transformado em uma realidade vivida, existencial.
Encontraram-se. O primeiro contato foi tímido, mas romântico, mágico. Ele segurou sua mão e saíram caminhando lado a lado como dois verdadeiros namorados. A sós, tudo foi perfeito. O contato de seus olhos, de suas mãos, de suas bocas e de seus corpos, fez vir à tona sensações já há muito não sentidas. Seus corações experimentaram um pulsar novo, diferente, harmônico. Dois corações unificados, transformados em um só. Naquele dia inesquecível, eles não fizeram sexo, exerceram suas divindades; não aplacaram seus desejos, cumpriram seus destinos; não se entregaram à paixão, descobriram o amor.
Despediram-se. Cada qual para seu relacionamento contratado, sua rotina ilusória, sua vida de aparências sem sentido. Os contatos virtuais tornaram-se escassos. Porém, seus corações unificados compartilhavam em um só ritmo, um só pulsar, o segredo da descoberta do amor. E, em suas memórias, eles guardariam ternamente a doce lembrança de um dia para sempre.

                                                                    Autor: Cicero Coutinho

6 comentários:

  1. Parabéns pelo texto, assim você vai longe com o seu objetivo de fazer as pessoas gostarem de ler. Adorei, me vi na cena, muito bom mesmo. Continue assim!

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  2. Achei real e bem triste, talvez por ser a realidade de muitas pessoas atualmente. Relacionamentos virtuais podem ser estranhos e mágicos ao mesmo tempo, afinal a internet é cheia de possibilidades, mas ainda acho a vida virtual muito solitária. O bom é quando se torna real eheh Hoje acredito que precisamos lutar pelas coisas verdadeiras, as que nos fazem sentir algo bom, embora não seja fácil nesse mundo. Enfim... antes que eu escreva um testamento! Achei o conto sincero e muito bem escrito, você tem um jeito poético eheh

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  3. Sim,eu adorei esse texto! Muito bom!
    Já estou seguindo (:
    Beijos :*

    http://fugaadarealidade.blogspot.com/

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  4. Muito bom o seu texto! Seu jeito de escrever é direto e envolvente. Parabéns.

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  5. Sinceramente, me vi nesse texto: o movimento de superar a solidão atraves do virtual, encontrar alguém que vai além do superficial e do óbvio, afinidades.
    Tudo tão mágico, intenso, que pena que acabou.
    o bom de tudo foi não criar expectativas, apenas guardar a gostosa lembrança.

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