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CHARLES BUKOWSKI

sábado, 28 de maio de 2011

JOGO PERIGOSO

Olhando em seus olhos, ela dizia que o amava. Diante de seus olhos ela insinuava-se para outros homens com trocas de olhares, de sorrisos disfarçados, de toques supostamente involuntários, que para ela não passavam de movimentos de um jogo, um perigoso jogo de sedução. Para ele, esses movimentos eram cirúrgicos, cortes precisos em regiões vitais do seu corpo, que o faziam sangrar e o deixavam debilitado e indefeso. Cada gesto, cada atitude observada, percorria seu corpo, acelerando sua corrente sanguínea e irrigando seu cérebro com infinitas dúvidas e possibilidades. Um jogo viciante, de apostas altas, sem vencedores e, sem previsão de término. Cada novo dia era uma nova rodada, com jogadas excitantes para ela e, corrosivas para ele. Porém, ele a amava, e esse amor fazia-o participar passivamente do jogo, colocando abertamente todas as suas cartas na mesa, enquanto ela blefava e limitava-se apenas a girar a roleta.  E enquanto a roleta girava, sentimentos e emoções eram misturados a instintos e desejos, pois, para ela não havia diferença. O importante era sentir-se observada, desejada, sedutora, vencedora.
Apostas cada vez mais altas, fichas cada vez mais escassas, fizeram-no pôr em jogo, seus bens mais preciosos.

Sua vontade: submetendo-se aos caprichos e vontade dela.
Sua auto-estima: achando-se inferior aos outros homens e, por isso, não merecedor de sua fidelidade.
Sua dignidade: deixando-se ofender e humilhar por ela.
Seu amor-próprio: dedicando-se a ela de maneira absoluta, esquecendo-se de si mesmo.
Seu caráter: contradizendo-se e abdicando de suas convicções e princípios.
Sua honra: vivendo em função dela e tornando-se uma figura espectral.
Por fim, não tendo mais o que pôr em jogo, apostou sua própria vida e, heroicamente, perdeu.
No seu velório, todos relembravam suas qualidades e virtudes.
Por trás dos óculos escuros, em meio a lágrimas carpideiras, ela, silenciosamente avaliava os olhares masculinos que a acompanhavam, insinuando desejo e oferecendo proteção.
E ao baixar do féretro, o único pensamento que ela conseguiu ter, foi:
Dou-lhe uma, dou-lhe duas... Senhores façam suas apostas.

                                              Autor: Cicero Coutinho

7 comentários:

  1. Muito intenso. Gostei bastante do seu estilo de escrita. Continuarei acompanhando.
    Beijas

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  2. Fantástico!

    Gosto da sua sutileza e da maneira como você abordou um assum típico do cotidiano de muitos relacionamentos.

    Parabéns, Cicero! Continue a escrever sempre.

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  3. Olá Cícero!
    Você me convidou e eu vim visitar o seu blog.
    Parabéns! Seus textos são muito envolventes!
    Agora sou eu quem te faço um convite. Dê uma olhada em VOCÊ TEM MEIA HORA, o romance que acabei de publicar.

    http://www.bookess.com/read/8544-voce-tem-meia-hora/

    Já estou te seguindo!

    Camila Nascimento
    camilanascim@gmail.com

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  4. Ótimo conto. Intenso, trágico e sem deixar de ser romântico.
    Vc escreve muito bem. Parabéns!

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  5. Incrível!
    Você escreve muito bem.
    Parabéns!

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  6. Gostei do seu estilo, do desenrolar da trama, detalhes e narrativa.
    Vou continuar acompanhando seu blog!

    Parabéns!

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  7. Gostei do texto. Minha imaginação foi longe...sucesso! Estou te acompanhando...

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