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CHARLES BUKOWSKI

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O TEMPO, A PALAVRA E A FLECHA...
Em um dia frio e solitário ela apareceu. Parecia o prenúncio do verão, com suas cores, sua alegria e seu calor. Falou no plural, e ele, acostumado ao solitário singular, gostou e acreditou. A fria incerteza do inverno deu lugar a quente euforia do verão.  O silêncio e a falta de palavras foram substituídos pelo mantra doce e criativo do verbo. O um passou a ser dois, o eu passou a ser nós. Os dias ficaram curtos e as noites eternas. A solitária jornada de fuga transformou-se em uma agradável viagem a dois. O caminho longo, estreito e incerto, abriu-se em uma larga avenida de esperanças. Não importava se fazia sol, chovia ou nevava, os dias eram sempre alegres e as noites estreladas e aconchegantes. O antes impossível passou a ser uma grande possibilidade. O horizonte distante e inatingível passou a ser apenas uma questão de tempo. E o tempo parecia conspirar a favor.
Com tudo isso, a prontidão e a vigília foram relaxadas. O risco esquecido. A amizade deificada. A confiança exagerada. A razão abandonada.
Os olhos viam, mas não enxergavam. Os ouvidos ouviam, mas não escutavam. A consciência aconselhava, mas era ignorada.
Em um dia quente e alucinante, ela, roubando o seu arco, atirou contra ele, uma de suas próprias flechas. Depois, simplesmente se foi, como se aquele tempo nunca houvesse existido.  O ferimento foi leve, mas ao mesmo tempo mortal. A dor física seria anestesiada e superada, mas a dor psíquica um eterno tormento. A carne logo cicatrizaria, mas a alma sangraria para sempre.
Em um dia como todos os outros, ele descobriu que pensamentos nunca são exatamente iguais, nem tão pouco sentimentos exatamente recíprocos. Descobriu que a amizade sempre anda de mãos dadas com o interesse, que o respeito é considerado ultrapassado e senil e, que a gratidão é leviana e mundana. Após tantas descobertas, ele reencontrou o próprio caminho, já esquecido. Porém, este já não se apresentava mais longo e estreito. Havia sim, esperanças, possibilidades e escolhas nunca antes notadas. Então ele percebeu que embora sua dor e seu sangramento fossem eternos, eles eram apenas registros de um tempo, de uma experiência que deveria ser lembrada, mas não repetida. Retomou sua jornada consciente de que teria para sempre, sua dor como companheira e conselheira, e tendo a certeza de que infeliz é aquele que caminha tendo a traição e o arrependimento como perseguidores e acusadores.
                                                         
                                                         Autor: Cicero Coutinho

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