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PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 23 de janeiro de 2011

CÍRCULO VICIOSO - Parte V
O sinal abriu e Rangel estacionou rapidamente no primeiro espaço que encontrou junto ao meio-fio e, não hesitou em dar uma carteirada no flanelinha que apareceu como que por encanto. Procurando não perder o homem de vista, ele deu uma corridinha. A multidão na calçada não facilitava o acompanhamento de longe do suspeito, que caminhava a passos largos. De repente, ele parou diante de uma vitrine e olhou para trás, na direção de Rangel, como se já tivesse percebido seu perseguidor. Neste exato momento, um ônibus atropelou junto ao meio fio, um pedestre que tentou atravessar a rua em meio ao fluxo de veículos. Rapidamente, Rangel juntou-se às pessoas que rodearam a vítima caída e, disfarçadamente continuou a observar o seu suspeito, que aproveitando o tumulto continuou sua caminhada. Antes de sair da roda de curiosos que cercavam a vítima, ele notou no semblante do homem caído sobre o sangue que escorria, um leve sorriso, enquanto este olhava para o céu. Rangel olhou rapidamente para o céu na tentativa de ver o que provocava no homem, um sorriso, em um momento tão trágico. O suspeito já ia longe, em meio à multidão, e entrou em um edifício garagem. Calculando que não teria tempo de voltar para pegar o seu carro, Rangel resolveu aproximar-se o máximo possível. Ao chegar ao estacionamento do primeiro nível, já havia perdido o contato visual. Começou a caminhar silenciosamente por entre os vários carros, até ver um automóvel preto com vidros cobertos com uma película negra que impedia a visualização do interior. Aproximou-se devagar e junto à porta do lado oposto ao motorista, abaixou-se, colocando as mãos em concha ao lado dos olhos tentando ver o interior. A porta abriu-se de repente e com violência, arremessando Rangel para trás. Atordoado com a pancada ele levantou-se, sendo atingido por um soco e caindo novamente.
            ─ Quem é você? E porque está me seguindo? ─ perguntou o agressor.
            ─ Eu não estava seguindo você. ─ respondeu Rangel tentando ganhar tempo para recuperar-se. ─ Só achei o carro bonito e queria ver o interior. Não queria roubá-lo, nem sabia que você estava aí dentro.
            ─ Você está mentindo. Eu já havia percebido você me seguindo na rua. Pude sentir seu cheiro me acompanhando por um bom tempo. Fale logo quem é você.
Percebendo que sua situação não era das mais favoráveis, Rangel sacou sua pistola e levantou-se. O homem arregalou os olhos, mas manteve-se parado.
            ─ Sou policial e, só quero fazer algumas perguntas. Não me obrigue a atirar. Poxa! Você é forte. Meu rosto tá doendo. Mas vamos começar pelo seu nome, depois você me explica esse negócio de sentir meu cheiro te acompanhando.
            ─ Meu nome é Lúcio. Eu sou professor de educação física e não devo nada a polícia.
            ─ Eu não disse isso Lúcio. Aliás, você me agrediu sem eu ter dito nada. Mas isso...
Nesse momento, uma mulher entrou no estacionamento, e ao ver Rangel de arma em punho, gritou. Aproveitando-se do momento de distração, Lúcio rapidamente investiu contra Rangel, segurando seu braço pelo pulso. Os homens se atracaram, mas a superioridade física de Lúcio fez a diferença. Sem muito esforço ele conseguiu desarmar Rangel, que não agüentando a dor no pulso, soltou a pistola. Lúcio chutou a arma com enorme violência provocando um disparo. Enquanto a mulher corria desesperada e gritando, ele arremessou Rangel sobre um dos carros, e em seguida saiu em disparada, cantando pneus como nos filmes policiais. Alguns minutos depois, com dor por todo o corpo e completamente arrasado, Rangel inventava uma história para os seguranças do edifício.
Lúcio entrou nervoso e começou a contar o que havia acontecido. Depois de ouvi-lo a mulher que vestia somente um roupão, tentou acalmá-lo.
            ─ O policial não fez nenhuma acusação. Talvez tenha confundido você com outra pessoa.
            ─ Não sei não, Edna. Acho que eu deveria tê-lo matado. Só por precaução. Agora ele vai ficar me procurando em cada rua, em cada esquina.
            ─ Nisso você está certo, mas se houver um novo encontro, você já sabe o que fazer. E troque logo de carro, o mais rápido possível. Ele deve ter anotado a placa. E nada de "batmóvel" desta vez, seja um pouco mais discreto. Agora vá tomar um banho, ainda temos algumas horas antes da viagem.
            ─ Temos mesmo que ir? Eu não gosto desse idiota metido a gostoso.
            ─ Deixe de ser bobo. Você sabe muito bem que Ronaldo e eu não temos mais nada além de negócios.
Edna sentou-se na borda da cama, derramou um pouco de creme hidratante na mão e pôs-se a espalhá-lo pelas pernas. Ao mesmo tempo, se indagava se o homem que abordara Lúcio era realmente um policial ou estaria tentando localizá-la. Poderia ser simplesmente um desgarrado em desespero ou estar a serviço da misteriosa rival, cuja presença era cada vez mais perceptível. Lúcio saiu do chuveiro e ao vê-la sentada com o roupão aberto revelando parte de seu corpo, aproximou-se, ajoelhando-se diante dela, em uma atitude de total reverência e submissão. Admirando-se no grande espelho da parede e desprovida de qualquer sentimento ou emoção, ela, abriu lentamente as pernas, dando-lhe acesso ao seu sangue de deusa. Era assim que mantinha seus lobos fiéis e dedicados. Generosa em doar seu sangue e seu sexo, ela sabia que na hora de um confronto, só poderia mesmo contar até o fim, com os principais integrantes do seu círculo, com o seu tetrakis.
Furioso, Rangel tomou de uma só vez dois comprimidos de analgésico. Em todos os seus anos de polícia, jamais havia sido tão humilhado. Espancado e arremessado como um passivo boneco de Judas. Apesar do visível mau-humor do amigo, Alice achava graça nos resmungos de Rangel, mais pelo orgulho masculino ferido do que pelas dores.
            ─ Você tem certeza disso? Só em histórias de vampiros que vi algo parecido. Será que você não está lendo demais essas sagas que estão na moda?
            ─ Eu não leio essas sagas feitas para adolescentes românticas e apaixonadas, Alice. Minhas leituras sobre temas sobrenaturais são mais sérias e profundas. É o que estou dizendo. O rosto dele não pode ser visto com clareza no espelho. Eu pratico caratê, tenho quase um metro e oitenta e sou bem pesadinho, mas mesmo assim não pude com ele. Sinto até vergonha de dizer, mas ele tirou a pistola da minha mão como se tira um pirulito de uma criança. Depois me arremessou como um boneco sobre um carro.  Ele é forte e rápido, poderia ter me matado facilmente.
            ─ E porque não matou então?
            ─ Talvez, ele seja muito confiante, ou tenha preferido me deixar com essa dúvida.
            ─ Pare de pensar nisso um pouco. Você precisa descansar. Vá para casa e, continue tomando o analgésico. Mas é para tomar um comprimido a cada oito horas, e não dois. Ouviu?
Fazendo cara de desentendido, Rangel saiu, acariciando, seu ainda dolorido, pulso direito.
No final da tarde, quando Alice preparava-se para ir embora, seu celular tocou. Era Júlia, sua melhor amiga, convidando-a para um programa de fim de semana.
            ─ Amiga, fui convidada para um festão, um xurras que vai durar dois dias. E quero que você vá comigo. Desta vez você tem que ir, pois não vamos ter que nos preocupar com nada, nem com transporte.
            ─ E onde é esse festão, Júlia? ─ perguntou Alice sem muito ânimo.
            ─ Em uma fazenda de um ricaço amigo de uma amiga minha. Vamos de jatinho amiga, coisa de gente muito fina. É um encontro, tipo de mulheres solteiras e independentes que estão procurando por homens solteiros e independentes também. Só partidão. ─ explicou Júlia super entusiasmada.
            ─ Mas não vai dar Júlia. Estou fazendo uma pesquisa para o Rangel. Ajudando-o em um caso meio complicado. Na próxima vez eu juro que vou.
            ─ Você não tem jeito mesmo, amiga. Assim vai acabar ficando pra titia. Mas pode deixar que na segunda-feira eu te conto como foi. Beijo.
Alice resolveu passar em uma livraria antes de ir para casa. Sua biblioteca possuía um número considerável de livros, mas nada sobre magia negra e afins. Esses temas pareciam até então, coisa de cinema ou histórias em quadrinhos. Mas a mumificação rápida e inexplicável do cadáver a fez repensar seu ponto vista, além do mais, já havia ouvido de Rangel vários relatos de casos considerados no mínimo bizarros. Depois de examinar vários livros, resolveu seguir a sugestão do atendente e levar um exemplar de um "Dicionário de Magias e Rituais".  Algumas horas depois, sentada em sua cama, Alice, vestindo camiseta e calcinha brancas, cabelos presos para trás, os óculos na ponta do delicado nariz, transformava sem perceber, o simples ato de ler um livro, em um momento de sensualidade, beleza e muita magia. Começava, ainda com certo ceticismo, a leitura sobre um assunto praticamente desconhecido para ela, mas a cada linha lida, tentava visualizar a cena descrita e transportar-se para o momento mágico, em um inconsciente ritual de visualização.
Desesperada ela corria sem rumo. Os galhos das árvores e arbustos feriam seu corpo. Os tombos a enfraqueciam. Não entendia como, mas podia sentir a presença dele, sentir seus passos na terra, seu cheiro no ar. Um cheiro forte, másculo, que causava medo e ao mesmo tempo desejo, despertando a libido. Já não sabia mais se desejava fugir ou entregar-se.  Um novo tombo e não teve mais forças para levantar-se. Então, ela o viu. Seu corpo apolíneo era atraente, seu rosto meio homem, meio fera, assustador. Seu olhar penetrante era pura lascívia. Medo e desejo se misturavam a cada passo de aproximação. Examinando seu corpo caído ele farejou o ar, em seguida, em total silêncio avançou sobre ela.
Alice despertou assustada. Adormecera durante a leitura e tivera um sonho incomum. Mais incomum ainda, era o estado em que se encontrava. Seu fluxo menstrual viera forte, abundante, tingindo não somente sua calcinha, mas também sua cama, como uma delimitação de território. Um fato inédito que a deixou impressionada e constrangida.
Alguns andares acima, Aquiles despertou com o cheiro forte de sangue. Não era o sangue de Ísis, adormecida ao seu lado. O odor diferente parecia chamá-lo, atraí-lo. Atendendo ao chamado, ele começou a descer as escadas do prédio, sentindo cada vez mais o odor a invadir-lhe. Seus instintos o levaram ao que parecia ser o ponto de origem. Diante da porta, tocou a campainha.
No interior, Alice tentou sem sucesso identificar o inesperado visitante pelo olho mágico. Ao entreabrir a porta, recuou dois passos ao ver Aquiles. O encontro de olhares foi fulminante.  A sensação de medo e desejo era idêntica a que sentira no sonho. Ele entrou e fechou a porta atrás de si. Como que hipnotizada, ela, de costas, continuou a recuar, sendo seguida por ele. Ao tocar sua cama com as pernas, ela parou. Ele olhou por sobre seus ombros, a cama ainda manchada. Aproximou-se com o olhar fixo, penetrante e, silenciosamente, sem nenhum ruído, sem nenhuma palavra, atirou-se sobre ela.

                                                        Autor: Cicero Coutinho

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