Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 25 de setembro de 2011

Leia e pense...

O maior infortúnio não é o que suportamos, mas o sofrimento que infligimos.
                                              (Francisco de Bastos Cordeiro)
INDAGAÇÕES

Por que tentando ajudar, prejudico?
Por que tentando explicar, só complico?
Por que tentando orientar, desoriento?
Por que tentando aproximar, afugento?
Por que tentando proteger, sufoco?
Por que tentando libertar, aprisiono?
Por que tentando agradar, desagrado?
Por que tentando melhorar, só pioro?
Por que tentando acertar, sempre erro?
Por que quando amando, não retribuído?
Por que sendo fiel, sou traído?
Por que tentando viver, não consigo?
Por que querendo morrer, estou vivo?

                                      Autor: Cicero Fernando Coutinho

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Grande oportunidade...

Temos o prazer de apresentar aos leitores do Gotas de Leitura nossa editora on-line com sistema de auto-publicação sob demanda, para autores independentes, professores, cursos e empresas: Bookmakers Editora.

"Somos apaixonados por livros e, combinando nossa paixão com nosso conhecimento de negócios, criamos uma editora que é feita para você, escritor e amante de livros.

Acreditamos que uma editora existe para seus autores e leitores, que é feita para ajudá-los a criar e transformar em realidade - impressa em papel ou como livro digital - ideias e paixões.

Todo aquele que traz dentro de si a vontade e a coragem para criar um livro deve, como princípio básico, ser capaz de transformar vontade e ideias em livros para que seja possível compartilhá-las com os amigos, leitores, outros autores."
Visite nosso site: http://www.bookmakerseditora.com.br/, e conheça nossos pacotes. Distribuímos para grandes livrarias brasileiras, como Saraiva e Travessa, entre outras, e também disponibilizamos seu livro em formato digital para sites de vendas como Amazon.

Abraços,

Carlos Irineu da Costa - Diretor
carlos@bookmakerseditora.com.br

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Vale a pena conferir:

 ‘UM LUGAR ESCURO – BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL


Leonardo Zegur, escritor carioca, conta a história de um jovem discriminado pela sociedade por não possuir os padrões exigidos pela cultura popular


O livro UM LUGAR ESCURO – BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL, de Leonardo Zegur, primeiro de sua carreira como escritor, aborda temas atuais como descriminação, bullying e vício em tecnologia e internet. A história foi baseada em elementos da vida de dois amigos do autor.

O autor define o livro como um romance psicológico naturalista, em que narra a história de um jovem carioca, morador da Zona Norte, tentando coexistir em uma sociedade onde é discriminado por não possuir os padrões exigidos pela cultura popular local. Na tentativa de se posicionar dentro de outra realidade, o jovem se transforma numa pessoa que nunca quis ser, sofrendo assim com as consequências deste comportamento.

A trama, que acontece no Rio de Janeiro, dentre muitos bairros, Quintino e Encantado, mostra que para lidar com o sentimento de rejeição, o protagonista acaba se envolvendo em uma onda de assassinatos canalizados em moças jovens e bonitas. Com a divulgação destas notícias nos tabloides, o jovem atrai seguidores em todo Brasil que se identificam com suas causas.

Para que o leitor pudesse participar integralmente e se colocar como personagem principal da trama, o autor, de forma proposital, preferiu não dar nome ao protagonista. Além disso, o livro mostra um Rio de Janeiro sobre outro ponto de vista, presumindo consequências desencadeadas pelas falhas do sistema que rege a sociedade.
Com um texto denso e extremamente visual, UM LUGAR ESCURO – BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL, sinaliza que a vida em uma sociedade complexa não é tão simples. Cada minuto que se passa é uma vitória, vencendo todo tipo de preconceito.

Sobre o autor
Leonardo Zegur, é um escritor carioca, de 28 anos. Psicólogo, sempre em formação, passou pela Escola de Música Villa-Lobos. Entre suas paixões, além da música, estão a fotografia e a pintura. Como contador de história descobriu que o dote da escrita não se restringe a uma excelsa dádiva e, a partir daí, começou a fazer do papel o portal de entrada para seus mundos de criatividade. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Leia e pense...

Perigosa é a mentira que se conta para si próprio.
                            (Gabriel, o Pensador)

O U S A D O

Ele achava-se o tal, o sedutor, o bam-bam-bam das conquistas amorosas. Atirava sempre, para todos os lados, em todas as direções. Seus tiros dados a esmo, sempre acertavam um alvo. Sempre havia um alvo disposto a receber uma bala, mesmo que perdida, sem nenhuma precisão. Não se preocupava com sentimentos alheios, sua única obsessão era fazer marcas na coronha, como gostava de dizer. Marcas que fazia questão de exibir para os amigos de copo e de tiroteio, vangloriando-se e intitulando a si próprio de ousado.  E assim, novos alvos eram atingidos, novas marcas feitas, tendo como critério único, tão somente a quantidade. Sua lista crescia rapidamente e o sucesso de suas investidas, animava-o ainda mais, fazendo-o acreditar ser capaz de superar o próprio "Burlador de Sevilla", de quem era um profundo admirador. Inspirado e confiante elaborava estratagemas, planejava atitudes, não economizava palavras e galanteios, não media esforços para fazer uma mulher sentir-se iludidamente desejada, única, especial. Depois de consumada a conquista, do nome inserido na lista, da coronha devidamente marcada, iniciava imediatamente uma nova bateria de tiros a esmo. Precisava provar para si mesmo e mostrar para todos, sua masculinidade e seu insaciável apetite.  Cada nova investida era encarada apenas como mais uma empreitada, cada mulher como um item colecionável. Insinuava-se para todas, mas tinha especial predileção pelas comprometidas, pois, sentia-se mais viril possuindo o proibido, e por achar que ao ceder, a comprometida o faz por vontade própria e plena consciência; e também por aquelas que se faziam de difíceis, que simulavam não ter interesse, não mantinham diálogo, mas traíam-se nas atitudes e no olhar. Quando percebia tal comportamento, silenciosamente sorria, como que falando para si mesmo: "Esta, é só uma questão de tempo." E quase sempre o tempo era seu aliado.
E foi assim, achando-se o legítimo e mais completo sedutor que, relembrando sua vida e suas conquistas, pôs-se a enumerar mentalmente sua lista. E a cada nome lembrado, foi-se dando conta de seu fracasso emocional, de seu vazio interior, da ausência de amor em sua vida. Percebeu enfim, que todas as mulheres de sua considerável lista, não haviam, como sempre acreditara, passado por suas mãos. Era exatamente o contrário. Ele, o ousado é que, como um joguete, passado de mão em mão, havia sido usado por todas.
Na verdade, o ousado era o usado. Um trocadilho ridículo, mas jocosamente cruel, e somente percebido tardiamente, quando in extremis, ele encontrava-se solitário em um leito de hospital.

                                                                     Autor: Cicero Fernando Coutinho

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Leia e pense...

Não acredite em extraterrestres. Eles são muito mentirosos.
                                                (anônimo)
ABDUSEDUZIDA

Depois de sujar bem as mãos embaixo do pára-lama do carro e passar pelas roupas, pelos braços e rosto, ele entrou em casa com cara de desespero. Já amanhecia e, sua esposa indignada, o encarou esperando por uma explicação.
            ─ Querida, você não imagina o que aconteceu.
Ela permaneceu calada, fulminando-o com um olhar inquisidor.
            ─ Se você não me disser, não vou saber mesmo. Minha imaginação não é tão fértil quanto a sua.
            ─ Deixe de ciúmes. Não está vendo o meu estado?
            ─ Estou. Você está desarrumado, sujo, parece que andou brigando ou se esfregando com alguém.
            ─ Venha cá. Sente-se para ouvir, pois, acho que você não vai acreditar.
Ela sentou-se na beira do sofá com um visível ceticismo no semblante. Tentando ser o mais convincente possível, ele começou a contar o que havia acontecido.
            ─ Eu estava na estrada, ansioso para chegar em casa depois de um dia cansativo de trabalho. De repente, uma enorme luz branca passou em alta velocidade por cima do carro, sem emitir um ruído sequer. Mais à frente a luz desapareceu e o carro enguiçou logo depois disso. Saí do carro e abri o capô para verificar o motor. E quando olhei para o lado vi dois vultos se aproximando, saindo detrás das árvores. Eles eram altos, fortes e usavam uma roupa preta que se confundia com as sombras. A roupa era brilhosa e parecia ser ao mesmo tempo a roupa e a própria pele deles. Coisa esquisita mesmo, só você vendo.
Calada, ela continuava a ouvir com um olhar de descrédito.
            ─ Sem nada dizer, eles me seguraram pelos braços e me conduziram à força para um local atrás das árvores onde havia uma nave aterrizada. Perguntei quem eram eles e o que queriam comigo e, para minha surpresa, um deles respondeu em português e com um sotaque que não consegui identificar, que eram do planeta Ébano e estavam já há algum tempo me monitorando.
            ─ Monitorando você? Essa é boa. E por quê? ─ perguntou ela totalmente descrente.
            ─ Não me disseram. Só me obrigaram a deitar em uma cama com vários equipamentos estranhos em volta. O ambiente era parcialmente iluminado e não dava para ver tudo direito, mas havia um espelho no teto que ajudava na visualização. Depois disseram que se eu não cooperasse, eles seriam obrigados a abduzir você também.
            ─ Eu? Como eles sabiam a meu respeito?
─ Você não está prestando atenção? Eu não falei que eles já estavam me monitorando? Isso inclui você também. Então, eles passaram uma espécie de lanterna diante dos meus olhos, que me deixou meio grogue, depois, recolheram amostras de sangue, cabelo, unha, saliva e até do meu esperma, pois disseram que eu tinha as características de um bom macho reprodutor.  Quando terminaram a coleta, saíram e me deixaram só. Quando finalmente me senti melhor, levantei, vesti minhas roupas e saí correndo da nave.
            ─ Então você estava nu?
            ─ Sim. Eles me obrigaram a tirar toda a roupa. Na fuga acabei deixando para trás aquela gravata linda que você me deu. E para piorar, enquanto corria, caí várias vezes, me sujei todo e levei mais de uma hora para achar o carro. É incrível, mas foi isso que aconteceu.  Por favor, querida, não conte para ninguém, pois, tenho medo que eles fiquem sabendo e voltem. E além do mais, ninguém vai acreditar mesmo.
            ─ E você espera que eu acredite nisso?
            ─ Mas claro! É a pura verdade. Agora vou tomar um banho e depois preciso dormir. ─ disse ele levantando-se rapidamente e evitando o interrogatório.
Enquanto ele banhava-se cantarolando e muito descontraído, para quem acabara de ser abduzido e submetido a experiências por seres de outro planeta, ela, seguindo o seu instinto feminino, vasculhou suas roupas e depois o carro, onde encontrou caído junto ao banco do carona, um cartão de visitas que dizia: "Termas Estelar – Nossas garotas são de outro mundo. Venha ser abduzido."
Enfurecida, ela contou até dez, e decidiu que daria o troco sem brigas ou escândalos. Deitou-se e, enquanto ele exausto roncava, começou a elaborar seu plano de vingança. Pensou em contratar os serviços de um scort masculino, mas achou arriscado. Cogitou várias situações, todas mirabolantes e praticamente impossíveis de serem postas em prática.
Passaram-se os dias e ela continuava obcecada em vingar-se do abduzido espertinho.   Em uma tarde de forte calor, ao abrir o chuveiro para tomar um banho, ela verificou que havia um vazamento de água na parede. Telefonou imediatamente para solicitar o reparo.
            ─ Oi, seu Moisés, tudo bem? Preciso que o senhor venha até aqui, pois, há um vazamento na parede, logo abaixo do chuveiro.
            ─ Entendi. Isso é fácil de consertar. Eu não posso ir, mas vou mandar meu sobrinho. Ele trabalha comigo e sabe fazer o serviço muito bem. Fique tranquila.
Pouco depois, ela assustou-se ao abrir a porta e dar de cara com um homem de quase dois metros de altura, forte, sorridente e com ares de conquistador barato. Ela o conduziu até o banheiro, mostrou-lhe o vazamento e saiu. Passados alguns minutos, ele a chamou e perguntou se ela tinha uma chave de boca, pois, havia esquecido a sua na oficina. Ela não conseguiu disfarçar ao vê-lo já sem camisa, com os músculos à mostra ressaltados pelo suor que escorria pelo seu corpo.
Horas mais tarde, ao entrar em casa ele estranhou o silêncio. Chegando ao quarto, sobre a cama totalmente desarrumada, ela, com os cabelos em desalinho e marcas vermelhas a cobrir-lhe o corpo completamente nu, dormia um sono angelical. Ele a acordou, perguntando o que havia acontecido. Ela sentou-se na cama e explicou:
            ─ Sente-se, pois, acho que você não vai acreditar no que aconteceu. Eu estava aqui dormindo quando de repente senti uma luz forte iluminar o quarto. Quando olhei, havia um homem muito alto, a pele escura, músculos salientes, parado diante de mim. Tentei levantar e correr, mas ele me segurou pelo braço e me atirou de volta à cama. Eu perguntei quem era ele e o que queria. Para minha surpresa ele respondeu que era um extraterrestre, um ebaniano e, que estava aqui para completar sua missão. Depois, ele rasgou minhas roupas e puxou-me com força para junto do seu corpo. O corpo dele era quente. Ele esfregou meu rosto em sua barriga definida e segurando minha cabeça obrigou-me a abaixar, introduzindo aquilo tudo em minha boca. Quase sufoquei, mas lembrei-me do que você havia falado sobre não cooperar e aguentei firme. Depois ele ergueu-me no colo, chupou de forma faminta os meus seios, introduziu sua enorme língua reptiliana em minha boca e ao mesmo tempo me penetrou de forma animalesca. Momentos depois, me senti como se estivesse experimentando uma explosão solar dentro de mim, tamanha foi a força e o calor interno e externo provocado. Não sei quanto tempo ele ficou ali em pé e dentro de mim. De repente ele atirou-me novamente sobre a cama e continuou em pé, apenas me observando. Virei de bruços e tentei rastejar para a cabeceira, mas ele segurou minhas pernas, abrindo-as e, puxando-me em sua direção, penetrou-me por trás, fazendo-me ver todas as estrelas do universo. Uma experiência tão incrível que, maravilhada, acabei desmaiando, só acordando agora com você me chamando, querido.
De boca aberta, mas sem nada poder dizer, ele ouviu todos os detalhes da explicação, paralisado como uma estátua.
De repente, a campainha tocou despertando-o do estado de choque em que se encontrava. Ao atender, ele espantou-se quando viu aquele homem alto, pele escura, músculos saltando camiseta a fora, que sorridente lhe disse:
            ─ Boa noite, doutor. Eu vim pegar minha chave de boca que eu esqueci aqui hoje à tarde, quando consertei o vazamento no seu banheiro.
            ─ Chave de boca? Vazamento? Quem é o senhor?
            ─ Ah! Desculpe. Sou o sobrinho do seu Moisés. Meu nome é Expedito Trancoso, mas pode me chamar de ET.

                                                                      Autor: Cicero Coutinho

domingo, 7 de agosto de 2011

Leia e pense...

É impressionante a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer.
                                                (Caetano Veloso)
LAÇO SANGUINEO

Ofegante e assustada, ela saiu do coma, como quem sai de um quase afogamento. Sua primeira percepção foi a de estar só em um quarto que não era o seu. Uma sensação de fraqueza a incomodou. Aos poucos, a lembrança do acidente e de estar caminhando de mãos dadas com ele, logo com ele.
Recuperada, rotina de vida retomada, sentia que alguma coisa havia mudado. Porém, incomodava-se sempre com essas lembranças e sensações. Desde criança odiava quando diziam que os dois eram namoradinhos. E essa brincadeira sem graça durou até a adolescência de ambos, quando ele teve a ousadia de beijá-la de surpresa e pedi-la em namoro na frente de todos da turma. Ela imediatamente recusou. Mas não foi uma simples recusa. Para que ele aprendesse e se colocasse em seu devido lugar, ela o desdenhou, ofendeu e humilhou diante de todos, que riram dele. Depois disso, afastaram-se e nunca mais se falaram. Quando por acaso, cruzavam-se na rua, ela sentia o olhar dele em sua direção, mas fingia não vê-lo. Ela começou então, um namoro que mais parecia um sonho. Seu namorado era inteligente, alto, corpo definido, de boa classe social e para completar, bonito. Todos diziam que os dois formavam um casal lindo, perfeito, feitos um para o outro. Ele, por sua vez, estudava, trabalhava e raramente saía de casa para divertir-se. Nunca o haviam visto com uma garota e, por isso, faziam até piadas duvidando de sua masculinidade. Alguns ousavam dizer que ele esperava por ela, o que a deixava completamente irritada. No entanto, quis o destino que seus caminhos e suas vidas se entrelaçassem de uma maneira totalmente inesperada. Em um fim de semana prolongado, ela e seu namorado, mais uma vez decidiram viajar para o interior. E ele, depois de muita insistência, resolveu participar da excursão organizada por alguns moradores do bairro onde moravam.  Depois de horas de estrada, o micro-ônibus é ultrapassado por um carro, que em alta velocidade, não consegue fazer a curva logo adiante, desgovernando-se e capotando diante dos olhos de todos os excursionistas. Chocados com a cena, todos desceram para prestar socorro. O desespero tomou conta quando perceberam que os acidentados eram conhecidos. Ao vê-la ensanguentada em meio às ferragens retorcidas, ele aproximou-se, ajoelhando-se ao seu lado. Percebendo que ela ainda respirava, segurou sua mão e assim ficou até a chegada do socorro.  
No hospital da pequena cidade interiorana, o médico de plantão comunicou a todos:
            ─ O rapaz teve vários cortes e quebrou uma perna, mas não corre risco de vida. O estado da moça é grave. Há necessidade de transferência para um hospital com mais recursos. Ela precisa urgente de uma transfusão de sangue, mas estamos impossibilitados de fazê-la, pois, no momento, não possuímos estoque de sangue.
            ─ Mas isso aqui não é um hospital? Deveria ter um banco de sangue. Isso é um absurdo. ─ disse indignada uma senhora.
            ─ Como em praticamente todo o país, esta pequena cidade também sofre com o descaso das autoridades com o sistema de saúde. O prefeito não repassa as verbas, não investe e ainda está sob investigação. Enquanto isso, a população é que sofre as consequências. ─ disse o médico resignado.
            ─ Então o que faremos?
            ─ Doutor, eu sou doador universal. Estou disposto a fazer a doação. ─ disse o rapaz que até então mantivera-se calado.
            ─ Sua atitude é muito bonita, rapaz. Mas infelizmente não é tão simples assim. Mesmo você afirmando ser um doador universal, é preciso que se faça testes para verificar a compatibilidade sanguínea e se você é portador de alguma doença que impeça a doação. As transfusões hoje em dia são feitas de maneira muito criteriosa e segura. Já estamos providenciando a remoção para o hospital mais próximo.
O médico retirou-se, deixando todos nervosos. Inconformado, o rapaz o seguiu até sua sala.
            ─ Doutor, preciso falar com o senhor. Eu não sou namorado dela, mas a conheço desde a infância, crescemos juntos. Ela é o meu primeiro e único amor. Não foi uma simples coincidência encontrá-la aqui tão longe de casa e precisando de minha ajuda. Deus quis que eu estivesse aqui nesse momento para salvá-la. Faça o que for preciso, qualquer coisa, mas salve-a. Ficará somente entre nós dois.
            ─ Você não tem noção do que está me pedindo, rapaz. Está me pedindo para esquecer a ética e ainda pôr o meu registro em jogo. ─ disse o velho médico mostrando-se desconfortável com a situação.
Olhando para o rapaz com os olhos lacrimejantes, o médico trouxe à tona, recordações de sua juventude e de seu primeiro grande amor. Ele compreendia os sentimentos do rapaz, mas havia muito mais que sentimentos em jogo. E foi pensando em seu juramento de formatura ─ "Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém." ─ e em seu primeiro grande amor, que o velho médico levantou-se e disse:
            ─ Também acho que Deus quer que se faça alguma coisa. Decidi ser médico porque perdi um grande amor em condições semelhantes. Foi horrível perdê-la sem poder fazer nada. Venha, vamos fazer o que for preciso para salvá-la.
Algumas horas depois, no momento da transferência para o hospital de outra cidade, o médico aproximou-se e disse:
            ─ Vá com ela, rapaz. E quando tudo isso passar, não a perca por nada deste mundo. Vocês estão destinados um ao outro. Hoje, finalmente me realizei como médico. Tive coragem de assumir um risco para salvar uma vida. Deus me deu a oportunidade de salvar um grande amor.
Agora, ao sentir-se impelida a olhar pela janela, seu coração bateu forte, ao vê-lo passar na rua. Escondeu-se atrás da cortina e ficou a observá-lo. Sabia que tinha uma dívida, por ele ter ficado ao seu lado durante os momentos horríveis do acidente. Sua própria mãe, não cansava de repetir que ao segurar sua mão logo após o acidente e durante a transferência de hospital, ele havia mantido aberta para ela, a porta da vida. Todos esses acontecimentos mudaram um pouco seus pensamentos e sua visão de mundo. Já não sentia mais prazer nas saídas para a balada, diminuiu a frequência nas viagens de fim de semana, dedicando-se mais ao trabalho, aos estudos e a vida em família, o que resultou na separação do antes considerado casal perfeito. Mudanças radicais, para uma pessoa que se achava sempre certa em tudo. Tão radicais, que pela primeira vez, depois de adulta, ela iria participar da quadrilha na festa junina da rua. À noite, durante a formação dos integrantes da quadrilha, seus olhares se cruzaram, mas ele fingiu não vê-la. Durante a apresentação, a situação inverteu-se. Era ela que insistentemente olhava para ele. Depois de formada a grande roda, o marcador pediu o início do "garranchê". Damas girando para um lado, cavalheiros para outro, até que, ao se encontrarem, ela desviou o olhar para baixo, mas o toque de suas mãos foi revelador, uma sensação única de estar tocando seu próprio corpo. A grande roda foi novamente formada, e o marcador empolgado, pediu mais uma vez o "garranchê". Ela o acompanhou com olhares até novamente se encontrarem, e ao tocar sua mão, o puxou para fora da roda, sorriu e o abraçou repousando sua cabeça em seu peito. Durante o abraço, embalada pelas batidas do coração dele, ela relembrou momentos de suas infâncias, o acidente, a sensação de estar de mãos dadas com ele, mesmo estando inconsciente. Levantou o rosto e viu que mesmo sorrindo ele tinha lágrimas nos olhos, e então, surpreendendo-o, devolveu-lhe finalmente o beijo. Vários beijos depois, os dois, a sós, recuperavam toda uma vida perdida. Ele contou para ela, sobre o desespero que sentiu ao vê-la em meio às ferragens, o dilema no hospital, a conversa com o médico, a difícil e corajosa decisão que este havia tomado ao concordar em fazer a transfusão, os momentos que ele ficou ao seu lado sempre segurando sua mão. E, em meio a lembranças e revelações, eles se entregaram de corpo e alma. Unida a ele, ela compreendeu que seu sangue, agora misturado ao dele, irrigava forte e abundantemente seu coração. No exato momento da explosão orgástica, seus corpos etéreos, unidos, alçaram vôo até o espaço, e em meio aos corpos celestes, provocaram uma explosão cósmica que fez nascer uma nova e brilhante estrela. Fatigados de prazer, deitados lado a lado, eles acionaram o teto retrátil da suíte e ficaram abraçados contemplando o lindo céu noturno. Juntos testemunharam uma estrela cadente cortar o céu e, de repente, mudar sua trajetória. A estrela parecia aproximar-se e, em um piscar de olhos, a suíte estava tomada por uma intensa luz. E enquanto a estrela se afastava, no seu interior, eles puderam ver a si mesmos, caminhando de mãos dadas rumo à eternidade.

                                                                  Autor: Cicero Coutinho

domingo, 31 de julho de 2011

Leia e pense...

Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra.
                                     (Rainer Maria Rilke)

sábado, 30 de julho de 2011

UM DIA PARA SEMPRE

No silêncio da noite fria, somente o som da chuva fina e das teclas. Navegando pelas redes sociais, ele procurava dividir sua solidão. Em algum lugar, haveria alguém navegando, ou melhor, sendo levado pelas ondas virtuais para um destino em comum. Em um site de relacionamentos ele a encontrou. A fotografia não parecia real. O sorriso franco, o olhar triste apesar do sorriso, os cabelos encaracolados a emoldurar o belo rosto. O primeiro contato foi de palavras pensadas, medidas. Mas havia algo de diferente nela. Não era como as outras, que na grande maioria, só sabiam falar futilidades e nada mais. Havia franqueza, verdade, sentimento.
Passaram a teclar todas as noites. Os dias eram somente um longo e entediante intervalo entre seus encontros virtuais. Os gostos, as coincidências, as afinidades eram muitas e as divergências divertidas e respeitadas. Porém, quando perceberam que havia entre eles um desejo real e, que o mundo virtual já não era mais suficiente para conter esse desejo, afastaram-se.
O tempo passou, e novamente em uma noite de navegação, como uma garrafa contendo uma mensagem, que vaga à deriva no oceano, ele a reencontrou. Mais uma vez, o sorriso, o olhar triste, os cabelos encaracolados. Novo contato feito, e a sensação de que o afastamento não acontecera, havia sido apenas um hiato no tempo. Seus pensamentos, suas carências, seus desejos, cruzavam-se a todo momento, apesar da distância física e geográfica que os separava. Não havia mais como ignorar que, o que já era uma realidade virtual, precisava ser imediatamente transformado em uma realidade vivida, existencial.
Encontraram-se. O primeiro contato foi tímido, mas romântico, mágico. Ele segurou sua mão e saíram caminhando lado a lado como dois verdadeiros namorados. A sós, tudo foi perfeito. O contato de seus olhos, de suas mãos, de suas bocas e de seus corpos, fez vir à tona sensações já há muito não sentidas. Seus corações experimentaram um pulsar novo, diferente, harmônico. Dois corações unificados, transformados em um só. Naquele dia inesquecível, eles não fizeram sexo, exerceram suas divindades; não aplacaram seus desejos, cumpriram seus destinos; não se entregaram à paixão, descobriram o amor.
Despediram-se. Cada qual para seu relacionamento contratado, sua rotina ilusória, sua vida de aparências sem sentido. Os contatos virtuais tornaram-se escassos. Porém, seus corações unificados compartilhavam em um só ritmo, um só pulsar, o segredo da descoberta do amor. E, em suas memórias, eles guardariam ternamente a doce lembrança de um dia para sempre.

                                                                    Autor: Cicero Coutinho

sábado, 2 de julho de 2011

Leia e pense...

O amor sagrado é o amor que se dá, dado sem interesse. Não pode ser imoral, se está na natureza.
                                                                     (Afrânio Peixoto)
AMOR SUBLIME

Caminhando distraído pelo início da noite, ele assustou-se com a pergunta:
            ─ Moço, vai um programa?
A voz vinha de uma criança. Não devia ter mais de treze anos. Pequena e franzina, cabelos compridos e pretos, os olhos grandes e assustados, a boca forçadamente vermelha, as roupas curtas deixando à mostra o corpo ainda em construção, mas já anunciando uma explosão feminina, parecia uma personagem saída de uma revista de mangá. Sem resposta, ele a olhou nos olhos, e esse encontro de olhares foi além da simples visão, foi uma conexão de almas. Perturbado com a sensação, ele rapidamente afastou-se, sem nada dizer. Alguns passos à frente, olhou para trás, e lá estava ela, olhando, e o seu olhar parecia dizer: Não me deixe aqui.
Ao abrir a porta de casa, seu pensamento ainda estava no olhar da menina. Sentou-se à mesa e, começou a desenhar tentando reproduzi-la. Ao término, achou seu desenho satisfatório, havia ficado bem parecido, mas faltava algo, faltava vida, a vida do olhar. Não conseguira expressar no papel toda vida e emoção que experimentara no olhar da menina. Continuou desenhando e, após vários esboços, concluiu que havia encontrado uma personagem para suas histórias, uma personagem que precisava de um nome e de uma origem. Duas lacunas que só poderiam ser preenchidas com um novo encontro. Teria de encontrá-la novamente para saber seu nome, sua idade, de onde viera e por que passava a noite nas ruas a oferecer-se, se era apenas uma criança. Uma criança que talvez não possuísse sequer um brinquedo, mas que em troca de qualquer quantia transformava-se em brinquedo nas mãos de homens sem escrúpulos e sem caráter.
Sentiu pesada a consciência, só de pensar que, enquanto ele apenas desenhava, ela poderia estar sendo submetida a todo e qualquer tipo de taras e sevícias. Sentado diante de seus desenhos, ele concluiu que as horas da noite eram mais longas e angustiantes do que as do dia, uma consequência direta do silêncio e da escuridão.
No dia seguinte, sua namorada não deu nenhum valor ao seu relato e ainda fez pouco caso:
            ─ Você só pode estar brincando. Procurar uma garota de rua que você nem sabe quem é? E que ainda te ofereceu um programa.
            ─ Uma criança, Patrícia. Era apenas uma criança. E parecia precisar de ajuda.
            ─ Sei bem o tipo de ajuda. É o sonho proibido de todo homem. Uma... Como é mesmo que vocês falam?  Cabritinha bem novinha?
            ─ Você está me ofendendo com essa insinuação, Patrícia.
            ─ Te ofendendo? E eu? Como você acha que eu estou me sentindo?
Furiosa, ela saiu do carro. Ele nunca a tinha visto desse jeito. Mas ponderou que, naquele momento, era melhor deixá-la só. Com certeza, depois de algumas horas, ela estaria mais calma e receptiva. Porém, com a chegada da noite, não era por Patrícia que ele ansioso procurava, caminhando mais uma vez pelas ruas. Permaneceu horas em um bar próximo ao local onde encontrara a menina, atento a cada pessoa que passava, cada carro que parava. O movimento era grande, mulheres, travestis e crianças entravam e saiam dos carros, no que parecia uma maratona de programas. Frustrado, ele desistiu vencido pelo cansaço, E assim, ele continuou noite após noite. Patrícia sentindo-se preterida por uma garota de programa, e ainda furiosa, terminou o namoro. Seus amigos achavam graça de sua obsessão pela menina e aos poucos também iam afastando-se. Até que, em um fim de noite, ao esquecer sobre a mesa do bar um de seus desenhos, um travesti curioso que estava na mesa ao lado, o chamou:
            ─ Ei, Bofescândalo, você tá esquecendo seus papéis. Minha Nossa Senhora da esquina iluminada, mas essa aqui no desenho é a Biazinha Hentai.
            ─ Você conhece essa menina? ─ apressou-se ele em perguntar.
            ─ Se for quem eu tô pensando, conheço sim. Ela atende você meu bem?
            ─ Não. Não é nada disso, mas eu preciso encontrá-la. Por favor, você pode me ajudar?
            ─ O que você quer com ela, então? Não vale dizer que você é o irmãozinho mais velho, porque todos os bofes sempre falam isso. Quando não é Tio, é irmão. ─ zombou o travesti.
            ─ Eu preciso encontrá-la, mas se você não quer ajudar, me devolva os desenhos porque preciso ir.
            ─ Calma Bofe! Eu não disse que não vou ajudar. Só tava fazendo um charme. A Biazinha sempre fica na esquina da boate Vermelho vinte e sete. Mas se você tá a fim de fazer a menina, é melhor tomar cuidado com o urso velho que toma conta dela.
            ─ Urso? Quem é esse urso? ─ perguntou ele franzindo a testa.
            ─ Ele é da polícia, e faz segurança na Vermelho vinte e sete.
            ─ Passei nessa esquina várias vezes nas últimas noites e não a vi.
            ─ Se liga bofe. Quando ela não está lá é porque está com algum cliente, com o urso ou fugindo dele.
            ─ Fugindo dele por quê?
            ─ Já ajudei muito, agora não tô podendo mais. ─ disse o travesti antes de sair rebolando pela calçada como se estivesse em uma passarela.
Vermelho vinte e sete. Depois de vários dias de busca e vigília, ele finalmente tinha uma pista, uma esperança de encontrá-la novamente. Saiu do bar e foi direto para a esquina da boate. Mais uma vez, a menina não estava lá. Resolveu então, entrar na boate. O ambiente era lúgubre, apesar da música e das luzes coloridas. Mulheres seminuas desfilavam por entre homens, na grande maioria, bêbados. Ele procurou por uma mesa de canto, de onde pudesse observar o movimento do lugar. Passados alguns minutos, ele a viu. Sentada ao lado de outras meninas um pouco mais velhas, e em meio a alguns homens que pareciam estrangeiros, ela destoava pela aparente inocência. Uma das garçonetes aproximou-se e ele foi direto ao assunto:
            ─ Isto aqui é para você me fazer um favor. ─ disse enquanto passava para ela uma nota de vinte reais. ─ Preciso que você traga a Biazinha Hentai até aqui.
            ─ Por um pouquinho a mais, você pode ter coisa muito melhor. ─ insinuou-se a garçonete.
            ─ Quem sabe depois. Mas agora preciso falar com ela. Você é capaz de trazê-la?
            ─ Só se for agora. Espera aí que eu já volto. ─ disse ela sorrindo e piscando o olho.
Ele ficou observando a garçonete desfilar pelo salão, até chegar à mesa onde a menina se encontrava e discretamente falar alguma coisa no seu ouvido. A menina levantou-se e acompanhou-a. Nervoso, ele só conseguia olhar para os olhos da menina.
            ─ Pronto. Aqui está ela.
Sem graça, ele sorriu para a garçonete. A menina sentou-se diante dele e o contato inicial foi silencioso e mágico. Havia realmente uma inexplicável troca de energia quando seus olhares se cruzavam.
            ─ Veja. Fiz para você. ─ disse ele, colocando alguns desenhos sobre a mesa.
 Ela arregalou os olhos e pela primeira vez ele a viu sorrindo. Um sorriso de surpresa, de inocência e felicidade.
            ─ Essa sou eu?
            ─ Sim. Não gostou?
            ─ Gostei sim. Ficou bonito, igual nas revistas de mangá.
            ─ Você gosta dessas revistas?
            ─ Gosto muito. Eu tenho três na minha caixa. E também gosto de desenhar, quando posso.
            ─ Então pode ficar com esses desenhos para você. Mas eu queria te perguntar duas coisas, e queria que você falasse a verdade. Posso?
Sem tirar os olhos dos desenhos ela acenou que sim com a cabeça.
            ─ Qual o seu nome verdadeiro e qual a sua idade?
            ─ Só isso que você quer saber? Meu nome é Beatriz e eu tenho doze anos.
Uma criança. Apenas uma criança com a metade de sua idade, solta na noite, no submundo, só tendo a chance de conhecer o lado obscuro da vida.
            ─ Eu estou com fome, você aceita comer alguma coisa aqui comigo?
Novamente ela só acenou com a cabeça. Depois olhou para os lados como se procurasse por alguém. Ele chamou a garçonete e, pouco depois, enquanto ele fingia comer, a menina devorava sem cerimônias um prato de arroz a La grega com batatas fritas e bife, acompanhados de refrigerante. Quando terminaram, a garçonete aproximou-se e, enquanto recolhia os pratos, baixinho o instruiu:
            ─ Não se esqueça de dar um dinheiro para ela, senão você complica a menina.
Ele tirou da pasta um lápis e uma borracha e pôs sobre a mesa juntamente com uma nota de cinquenta reais e, deslizando na direção da menina disse:
            ─ Tome, é para você. Você disse que gosta de desenhar, então faça um desenho para eu ver da próxima vez que nos encontrarmos. Capriche, quero ver um desenho bem bonito.
            ─ Moço, e o seu nome? Qual é?
            ─ Meu nome é Alberto.
Mais uma vez, a menina sorriu com uma inocência que só fez aumentar a vontade dele de não deixá-la ali. Ele levantou-se e seus olhares se encontraram novamente. Ela não sorria mais e permaneceu sentada. Antes de sair da boate ele olhou para trás e ela acenou com a mão. Ao vê-la acenando, ele teve a certeza de que teria que voltar outras vezes.
No fim de semana seguinte, ansioso ele retornou. Ao entrar, ouviu da garçonete exatamente o que temia ouvir. A menina havia sido levada por um homem.
            ─ Mas para onde?
            ─ Fala sério. Pro parque é que não foi. Eles foram pro motel. Você foi o único que não fez isso. Aliás, é melhor você ficar esperando lá fora, e quando ela chegar, leve ela.  
            ─ Mas eu não quero levá-la para nenhum motel.
            ─ Então vá para outro lugar, ou você acha que vai conseguir ficar só conversando com ela sempre que vem aqui? Deixa o Caleb ficar sabendo disso. Ele espanca a coitadinha.
            ─ Quem é Caleb? E porque ninguém chama a polícia quando ele faz isso?
            ─ Por que ele é da polícia. Ele é o dono dela. Entendeu?
Contrariado, ele foi para a calçada. Vários carros pararam, até que de um deles saiu a menina, que ao vê-lo sorriu e foi em sua direção. Depois da troca de olhares e sorrisos, ele disse:
            ─ Venha comigo.
Sem hesitar ela o seguiu e entrou no seu carro. Alguns minutos depois os olhos dela brilhavam, admirando o restaurante fast-food onde se encontravam. Repetiram-se muitas e muitas noites como essa. Os dois no restaurante fast-food, lanchando, conversando, desenhando e imaginando várias histórias para seus personagens. A menina tinha dom para o desenho e ele a ajudava a aprimorá-lo ainda mais. Em pouco tempo, já havia entre eles uma relação de amizade verdadeira, cumplicidade total, respeito mútuo e acima de tudo de confiança recíproca. Porém, ele vinha recebendo constantes telefonemas de Patrícia, que ameaçava denunciá-lo por pedofilia, mesmo sem prova alguma disso. Mas até que ele conseguisse provar que a relação dele com a menina, era de amizade, seria uma dor de cabeça. Além disso, as saídas demoradas da menina e o pouco faturamento, estavam deixando Caleb desconfiado e impaciente. Talvez, aceitar a transferência para outro Estado, deixando a menina seguir sua vida, fosse a solução ideal. Certo disso deixou-a em frente à boate e foi para casa.
Nos encontros seguintes, ele não teve coragem de contar sobre sua transferência. Achou melhor deixar acontecer. Talvez ela sequer sentisse sua ausência. Passados dois meses, tudo estava pronto, sua mudança já havia sido despachada e ele iria de carro para o Estado vizinho. Na noite da partida, seus pensamentos eram todos da menina. Já a caminho, não resistiu e foi a sua procura. Na vermelho vinte e sete, a garçonete com conhecimento de causa lhe disse:
            ─ Ela saiu ainda agora, com o Caleb. Fiquei com pena dela, mas não pude fazer nada.
            ─ Por que pena?
            ─ Você é meio devagar para perceber as coisas né? Caleb é ex-policial, violento, bêbado e fedorento. Ela saiu chorando, pois já sabe que vai ter umas horas de sofrimento ao lado dele.
            ─ Você sabe para onde ele a levou?
            ─ Claro. Ele só vai naquele motel pé sujo que tem em frente ao posto de gasolina.
Desesperado ele saiu em direção ao motel que ficava próximo. Ao chegar encontrou o travesti que também o reconheceu e brincou:
            ─ Oi, Bofe. Você gostou mesmo aqui do bas-fond hein? Se tá procurando pela Hentai, vai ter que esperar, ela acabou de entrar com aquele urso fedido. Não sei como ela aguenta atender ele.
Depois de explicada a situação, os dois estavam na porta do quarto indicado pelo funcionário do motel, que era um dos clientes do travesti e, lhes emprestara a cópia da chave. Entraram de surpresa e ficaram surpresos e enojados com a cena que presenciaram. Deitada no meio da cama, a menina nua, chorava baixinho. Sentado na beira da cama, também nu e completamente bêbado, Caleb fazia carícias íntimas na menina com a pistola, enquanto masturbava-se. Ao vê-los invadir o quarto, tentou atirar, mas a pistola estava travada e antes que pudesse fazer qualquer tentativa de destravá-la, foi atingido por um violento soco dado pelo travesti que instintivamente recorreu a sua máscula força. Caleb tombou inconsciente na cama, enquanto Alberto ajudava a menina a vestir-se e o travesti pegava a pistola e guardava na bolsa.
Horas depois no restaurante fast-food, ele contava para a menina, o travesti e a garçonete sobre sua transferência.
            ─ Mas e a Biazinha, como vai ficar sem você aqui? ─ perguntou a garçonete.
Todos ficaram calados, até que o travesti se manifestou:
            ─ Eu, linda e loura, não desci do salto e machuquei minha linda mãozinha batendo naquele urso fedido, pra acabar assim. Já tive uma idéia que resolve tudo. Você leva a Biazinha com você e pronto.
Todos olharam para a menina, que sorriu.
            ─ Você quer ir comigo Bia?
            ─ Quero. ─ ela respondeu sem nenhuma hesitação.
Depois de abraços, beijos e lágrimas, ele e a menina seguiam no carro em direção a uma nova vida.
Seis anos depois, os desenhos e histórias criados pelos dois, haviam se transformado em revistas em quadrinhos de sucesso, onde uma menina e seus fiéis parceiros ─ uma amiga que trabalhava como garçonete e um travesti que fazia shows noturnos ─ solucionavam crimes e mistérios ajudados por um desenhista que transformava as aventuras em histórias. Depois das revistas, em desenho animado para a televisão e por último em filme nos cinemas de todo país.
E era da pré-estréia que os dois voltavam felizes, após mais uma vez, reencontrarem seus amigos, e juntos assistirem ao esperado filme. Falantes e felizes entraram no luxuoso apartamento onde moravam e abraçaram-se a rodopiar até caírem deitados no sofá. E ali, olhos nos olhos, corpos abraçados, corações acelerados, eles se deram conta de que o tempo havia passado. Ela não era mais uma menina. Ele não era mais um rapaz devagar para perceber as coisas. Anos depois, eles continuavam a experimentar a mesma sensação que tiveram ao trocar o primeiro olhar. E descobriram ali abraçados, que, o que havia entre eles estava muito, muito além de uma simples atração sexual. Não nascia na carne, mas na alma. Não era instinto, era sentimento. Não era paixão, era amor.
Descobriram que existem vários tipos de amor, mas que só um é verdadeiro. E o deles era verdadeiro, era sublime, e nada que estivesse abaixo disso poderia acontecer entre eles. E nesse tempo em que ficaram ali, deitados, abraçados, falando apenas com o olhar, como uma criança que se sente feliz e protegida, ela adormeceu. Ele a tomou nos braços e a levou para o quarto. Depois de cobri-la como sempre fazia todas as noites, antes de sair, ele a beijou no rosto.
            ─ Boa noite, minha menina. Boa noite, meu amor.
Despertada pelo beijo, ela ainda pôde vê-lo antes que ele cuidadosamente fechasse a porta. E feliz como uma criança, baixinho respondeu:
            ─ Boa noite, meu amor.

                                                    Autor: Cicero Fernando Coutinho

sábado, 28 de maio de 2011

Leia e pense...

Amor é jogo forte, só vale no tudo ou nada; amar é uma aventura heróica e insuperável.
                                                      (Raquel de Queiroz)
JOGO PERIGOSO

Olhando em seus olhos, ela dizia que o amava. Diante de seus olhos ela insinuava-se para outros homens com trocas de olhares, de sorrisos disfarçados, de toques supostamente involuntários, que para ela não passavam de movimentos de um jogo, um perigoso jogo de sedução. Para ele, esses movimentos eram cirúrgicos, cortes precisos em regiões vitais do seu corpo, que o faziam sangrar e o deixavam debilitado e indefeso. Cada gesto, cada atitude observada, percorria seu corpo, acelerando sua corrente sanguínea e irrigando seu cérebro com infinitas dúvidas e possibilidades. Um jogo viciante, de apostas altas, sem vencedores e, sem previsão de término. Cada novo dia era uma nova rodada, com jogadas excitantes para ela e, corrosivas para ele. Porém, ele a amava, e esse amor fazia-o participar passivamente do jogo, colocando abertamente todas as suas cartas na mesa, enquanto ela blefava e limitava-se apenas a girar a roleta.  E enquanto a roleta girava, sentimentos e emoções eram misturados a instintos e desejos, pois, para ela não havia diferença. O importante era sentir-se observada, desejada, sedutora, vencedora.
Apostas cada vez mais altas, fichas cada vez mais escassas, fizeram-no pôr em jogo, seus bens mais preciosos.

Sua vontade: submetendo-se aos caprichos e vontade dela.
Sua auto-estima: achando-se inferior aos outros homens e, por isso, não merecedor de sua fidelidade.
Sua dignidade: deixando-se ofender e humilhar por ela.
Seu amor-próprio: dedicando-se a ela de maneira absoluta, esquecendo-se de si mesmo.
Seu caráter: contradizendo-se e abdicando de suas convicções e princípios.
Sua honra: vivendo em função dela e tornando-se uma figura espectral.
Por fim, não tendo mais o que pôr em jogo, apostou sua própria vida e, heroicamente, perdeu.
No seu velório, todos relembravam suas qualidades e virtudes.
Por trás dos óculos escuros, em meio a lágrimas carpideiras, ela, silenciosamente avaliava os olhares masculinos que a acompanhavam, insinuando desejo e oferecendo proteção.
E ao baixar do féretro, o único pensamento que ela conseguiu ter, foi:
Dou-lhe uma, dou-lhe duas... Senhores façam suas apostas.

                                              Autor: Cicero Coutinho

domingo, 27 de março de 2011

Leia e pense...

O desencanto da morte é às vezes o encanto da vida.
                              ( Ieda Graci )
O DESENCANTO DA MORTE
 Cansada do seu trono frio, a Morte resolveu verificar o trabalho dos seus arautos. Ao sair de seu castelo de trevas, deparou-se com o nascer do sol em uma praia ainda deserta. Nunca havia prestado atenção nas cenas da vida e, após o espetáculo dado pelo sol, ficou ouvindo o canto hipnotizante do mar. Presenciou a chegada das pessoas à praia, o prazer que cada uma sentia em estar ali e a alegria das crianças. Continuou então, a caminhar anônima pela cidade, em meio ao corre-corre metropolitano. Reparou na pressa das pessoas para chegar aos seus locais de trabalho e, não entendeu o porquê de tanta pressa para estar diante de preocupações, dificuldades, obstáculos e problemas. Diante da construção de um gigantesco edifício, parou e ficou observando o homem que mesmo trabalhando sob um sol escaldante, cantava e parecia feliz. Afastou-se da cidade, chegando aos campos e pradarias. Por um instante, invejou a tranquilidade do camponês, que sentado admirava o horizonte infinito e belo. Sentiu o perfume das flores, acompanhou o vôo dos insetos e o trotar indomável da manada de corcéis que exalava liberdade e vida. Caminhou mais um pouco e chegou a uma exuberante floresta, onde examinou as diferentes árvores, as várias espécies de plantas e animais que faziam a floresta parecer encantada. Ouviu com atenção e pela primeira vez, os diferentes cantos das mais variadas espécies de coloridos pássaros. Mais adiante, pôs-se a observar um ruidoso rio que corria cortando a mata. Viu no seu leito, os peixes velozes e saltitantes e ouviu a relaxante melodia das águas se transformar em um poderoso estrondo ao chegar a uma abissal cachoeira. Curiosa, ergueu a mão sem vida até o branco véu líquido e, sentiu pela primeira vez, o frescor das águas, arrepiando-se ao experimentar o toque da vida. Continuou caminhando e chegou aos pés de uma enorme e íngreme montanha onde parou para contemplar o vôo imponente e solitário de uma águia. No cume da montanha abaixou-se e pegou um punhado de neve, examinando sua consistência e candura.
E assim, caminhando pelos quatro cantos do mundo, a Morte, sempre infalível, concluiu que, desperdiçara sua longevidade olhando apenas para a escuridão. Certeira em ceifar a vida, nunca havia percebido sua diversidade e exuberância.
Relembrando cada momento de sua caminhada, sentiu um pesado fardo por privar tantos, das maravilhas que acabara de descobrir. Atormentada por um inédito sentimento de culpa, conhecedora de sua invulnerabilidade e, sabedora de que somente por suas próprias mãos poderia ser erradicada, a Morte, arrependida, como Iscariotes enforcou-se, liberando a imortalidade acumulada ao longo de milênios, sobre a humanidade, que após absorver tamanha carga de energia, transcendeu, evoluindo mais um passo.
A Morte finalmente compreendera seu papel na criação ao abdicar de sua existência. O homem tornou-se imortal, Deus sorriu e, novamente pôde descansar mais um dia.
Mas somente um dia, pois em algum lugar do universo, em uma longínqua galáxia, uma nova espécie cometia o pecado original, fazendo com isso, nascer um ser chamado Morte.

                                                                     Autor: Cicero Coutinho

segunda-feira, 7 de março de 2011

Leia e pense...

O amor reúne dois entes estranhos num só viver.
                      (José Valeriano Rodrigues)
AMOR SOMBRIO
Enquanto dirigia, o homem fazia uma retrospectiva de sua vida amorosa. Bem sucedido profissionalmente, ele era a perfeita comprovação da máxima "sorte no jogo, azar no amor". Sempre tivera muita sorte no jogo financeiro, paralelamente a muito azar nos relacionamentos amorosos. Suas muitas tentativas de encontrar um verdadeiro e eterno amor fracassavam uma após a outra, e apesar de todos os seus esforços, as mulheres acabavam afastando-se, quase sempre alegando que o problema não era ele, que não sabiam o que havia acontecido, mas que se sentiam impelidas a afastar-se. Como consequência angariara para si a fama de conquistador e mulherengo, que fazia sucesso entre os amigos, e ao mesmo tempo afastava ainda mais as mulheres. Sentia-se solitário e precisava de uma companheira para dividir seu sucesso profissional, suas conquistas pessoais, seus desejos e sua vida.
Ao atingir o vão central e mais alto da ponte, parou o carro e saiu. Debruçou-se sobre a mureta de concreto e pôs-se a observar o mar encoberto pelas sombras da noite. Chorou, e suas lágrimas despencaram de seus olhos para juntar-se, lá embaixo, ao mar de escuridão.
Quando já não havia mais lágrimas, subiu na mureta e atirou-se de encontro ao mar de águas e sombras. Mal começara a cair, sentiu um tranco e uma forte dor no braço. Alguém havia segurado sua mão, impedindo sua queda. Tentou soltar-se, mas o aperto de mãos era firme, um forte chamado para a vida. Olhou então para cima e viu que quem o segurava e o impedia de mergulhar no mar de trevas, era sua própria sombra, que lentamente o puxava para cima.
De pé na ponte, de mãos dadas com sua própria sombra, que parecia ter adquirido vida, ele novamente começou a relembrar seus relacionamentos, mas desta vez, tudo parecia estar sendo contado por sua sombra. As imagens eram projetadas em sua mente de uma maneira telepática, e assim ele pôde finalmente compreender que as mulheres com as quais tinha se relacionado, haviam realmente sido impelidas a afastarem-se, e que as sombras reproduzem o perfil do corpo ao qual pertencem, mas que independente disso, podem ser masculinas ou femininas. E a sua era feminina e apaixonada por ele.
De pé na ponte, ele estendeu sua outra mão para sua sombra, e os dois então, aproximaram-se e abraçaram-se, misturando suas essências e consumando o amor entre dois seres de diferentes dimensões.
E daquela noite em diante, os dois tornaram-se um, e como nos contos de fadas, foram felizes para sempre...

                                                Autor: Cicero Fernando Coutinho

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Leia e pense...

Há três coisas que não voltam atrás: a palavra pronunciada, a flecha lançada e o tempo perdido.
                                              (Provérbio chinês)
O TEMPO, A PALAVRA E A FLECHA...
Em um dia frio e solitário ela apareceu. Parecia o prenúncio do verão, com suas cores, sua alegria e seu calor. Falou no plural, e ele, acostumado ao solitário singular, gostou e acreditou. A fria incerteza do inverno deu lugar a quente euforia do verão.  O silêncio e a falta de palavras foram substituídos pelo mantra doce e criativo do verbo. O um passou a ser dois, o eu passou a ser nós. Os dias ficaram curtos e as noites eternas. A solitária jornada de fuga transformou-se em uma agradável viagem a dois. O caminho longo, estreito e incerto, abriu-se em uma larga avenida de esperanças. Não importava se fazia sol, chovia ou nevava, os dias eram sempre alegres e as noites estreladas e aconchegantes. O antes impossível passou a ser uma grande possibilidade. O horizonte distante e inatingível passou a ser apenas uma questão de tempo. E o tempo parecia conspirar a favor.
Com tudo isso, a prontidão e a vigília foram relaxadas. O risco esquecido. A amizade deificada. A confiança exagerada. A razão abandonada.
Os olhos viam, mas não enxergavam. Os ouvidos ouviam, mas não escutavam. A consciência aconselhava, mas era ignorada.
Em um dia quente e alucinante, ela, roubando o seu arco, atirou contra ele, uma de suas próprias flechas. Depois, simplesmente se foi, como se aquele tempo nunca houvesse existido.  O ferimento foi leve, mas ao mesmo tempo mortal. A dor física seria anestesiada e superada, mas a dor psíquica um eterno tormento. A carne logo cicatrizaria, mas a alma sangraria para sempre.
Em um dia como todos os outros, ele descobriu que pensamentos nunca são exatamente iguais, nem tão pouco sentimentos exatamente recíprocos. Descobriu que a amizade sempre anda de mãos dadas com o interesse, que o respeito é considerado ultrapassado e senil e, que a gratidão é leviana e mundana. Após tantas descobertas, ele reencontrou o próprio caminho, já esquecido. Porém, este já não se apresentava mais longo e estreito. Havia sim, esperanças, possibilidades e escolhas nunca antes notadas. Então ele percebeu que embora sua dor e seu sangramento fossem eternos, eles eram apenas registros de um tempo, de uma experiência que deveria ser lembrada, mas não repetida. Retomou sua jornada consciente de que teria para sempre, sua dor como companheira e conselheira, e tendo a certeza de que infeliz é aquele que caminha tendo a traição e o arrependimento como perseguidores e acusadores.
                                                         
                                                         Autor: Cicero Coutinho