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PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 19 de setembro de 2010

Leia e pense...

O amor sem esperança não tem refúgio senão a morte.
                                  (José de Alencar)

AMOR ALÉM DO MAR

Eram sete e meia da manhã. Paulo era o único no convés do luxuoso navio. Os shows e a jogatina entravam pela madrugada e, por isso, os passageiros acordavam tarde. Ele estava feliz por ter recebido a passagem para um cruzeiro em um transatlântico, como prêmio por seu excelente desempenho na empresa. Só lamentava estar só na viagem. Mas resolvera aproveitar cada minuto e, fotografar o nascer do sol em alto-mar tinha sido uma ótima idéia. Estava debruçado na amurada do navio, observando as ondas, quando percebeu que na sombra que o navio projetava sobre o mar, havia uma forma feminina, como se um pouco adiante e à sua direita houvesse alguém. Curioso e olhando com mais atenção, notou que a sombra sobre o mar era totalmente disforme e desproporcional ao navio em que se encontrava. Caminhou para a direita até ficar bem à frente da forma feminina e, ficou espantado ao ver que realmente tratava-se da sombra de uma mulher. Pensou se tratar de uma alucinação, devido ao enjôo que tivera, mas como que contrariando seu pensamento, a sombra deslocou-se como se estivesse caminhando. Ele a seguiu e, mais uma vez parou diante da sombra, que reagiu como se também tivesse notado a presença dele, recuando e desaparecendo. Novamente ele olhou para o convés e, certificou-se que estava só. Ao voltar-se para o mar, lá estava a sombra, que desta vez recuou de maneira visível ao ser avistada. Paulo inclinou-se sobre a amurada e, tentando fotografar o desenho disforme que o navio projetava sobre o mar, desequilibrou-se e acabou caindo.
Em total desespero, depois de afundar alguns metros, finalmente conseguiu voltar à superfície e boiar. Ao sentir sobre ele a sombra do navio, virou-se, ficando completamente perplexo ao ver a enorme e linda caravela e, lá em cima, próximo a amurada, uma mulher a observá-lo.
    ─ Náufrago a bombordo ─ gritou um homem que chegou ao lado da mulher.
Imediatamente vários homens apareceram na amurada do navio. O falatório era enorme.
    ─ Vamos homens. Desçam o escaler e tragam-no para bordo ─ alguém ordenou.
A ação foi rápida. Em poucos minutos Paulo era puxado para o interior do escaler, que logo depois foi içado a bordo.
    ─ Com mil trovões, homem! De que diabo de naufrágio saíste, se cá estamos a enfrentar uma calmaria de vários dias? ─ indagou um homem que vestia um casacão.
Ainda assustado, rodeado de homens curiosos, Paulo só conseguia olhar para todos os lados, quando ao fundo viu a mulher. Ela observava à distância, ao lado de outra mulher, esta, bem mais velha e negra. Usava um vestido longo meio abaloado, os cabelos presos para trás e, nas mãos umas luvas brancas que deixavam as pontas de seus dedos à mostra. Parecia ter saído de uma fotografia bem antiga e, isso, deixava-a ainda mais bonita.
    ─ Afastem-se! O homem está molhado, cansado, assustado e de ceroulas ─ disse o homem do casacão, referindo-se à bermuda que Paulo usava.
Todos caíram na gargalhada, enquanto ele, puxando Paulo pelo braço, tirava-o do meio da roda de curiosos. Ao passarem diante das mulheres, a mais velha desviou o olhar, abaixando a cabeça. A outra, ao contrário desta, sustentou o olhar. Seus olhares se encontraram e Paulo teve a impressão de já conhecê-la.
    ─ Entre, esta é a minha cabine. Sou o Capitão desta nau. Acho que tenho aqui umas roupas mais adequadas que servirão em você. Tome, componha-se. Já ordenei a Maria que traga um bom prato de comida para você.
    ─ Obrigado, capitão... Mas o senhor pode me dizer para onde estamos indo?
    ─ Ah! Me perdoe, me chamo Magalhães, e estamos indo para a Capitania do Rio de Janeiro, a serviço de El-Rei Filipe II, O Piedoso.
    ─ Filipe II, O Piedoso? E em que ano estamos Capitão?
    ─ O naufrágio fez você perder o tino, homem? Estamos no ano de 1600.
Paulo ficou completamente desnorteado. Olhou a sua volta, examinando a cabine. Os poucos móveis e objetos pareciam confirmar as palavras do Capitão. Pensou estar sonhando ou sendo vítima de uma brincadeira, uma pegadinha, como nos programas de televisão. Olhou-se em um espelho preso em um canto da cabine e achou-se estranho vestindo uma roupa de modelo tão antigo. Virou-se ao ouvir a batida na porta da cabine. Era Maria, que trazia o prato de comida. Logo atrás dela, linda, em seu vestido longo, a mulher mais jovem, que trazia uma garrafa e uma caneca.
    ─ Esta é Amália, minha sobrinha. E a negra Maria é a sua mucama. É a primeira viagem de minha sobrinha. Ela pretende pintar algumas aquarelas das belas paragens da Capitania do Rio de Janeiro.
    ─ Este é... Como é sua graça, náufrago? ─ perguntou o Capitão.
    ─ Paulo. Meu nome é Paulo, Capitão.
Os olhares de Paulo e Amália cruzaram-se novamente, fazendo-o esquecer por completo, a impossibilidade daquele momento. Quando Amália esboçou um tímido sorriso, ele desejou permanecer para sempre naquele sonho maravilhoso e nunca mais voltar para a sua realidade. As mulheres retiraram-se da cabine, sob o olhar encantado de Paulo. Ele jamais tinha visto uma mulher com tamanha elegância. O Capitão fechou a porta e fez sinal para que ele comesse, depois sentou-se e pegou em um baú, uma garrafa de vinho que despejou em uma caneca suja que estava sobre a mesa, bebendo de um só gole. Enquanto Paulo comia, ele bebia vinho e, em poucos minutos já estava cochilando. O capitão parecia estar na faixa dos quarenta anos, era um homem forte, mas uma barriguinha já lhe aparecia sob o casacão. Paulo ficou um tempo observando o homem à sua frente e a cabine onde estava. Como o Capitão havia caído nos braços de Morfeu, resolveu sair para o convés e, experimentou uma sensação de déjà-vu ao ver Amália junto à amurada da caravela, olhando para o mar. Aproximou-se dela sob os olhares curiosos da marujada. Amália sorriu ao vê-lo e continuou contemplando o mar.    
    ─ Posso lhe fazer companhia? ─ perguntou Paulo.
    ─ Sim. Mas o senhor não deveria estar descansando?
    ─ Não me sinto cansado. Só um pouco confuso. E acho que você pode me ajudar a entender o que aconteceu.
    ─ Oras, como assim entender o que aconteceu? Não escapastes de um naufrágio?
    ─ Não. Eu estava fazendo uma viagem de navio, aliás, a minha primeira viagem de navio. Decidi acordar bem cedo para fotografar o nascer do sol em alto mar, quando notei no mar uma sombra ou reflexo, não sei explicar bem o que era.
    ─ O que é Fo-to- gra-far? ─ perguntou Amália atrapalhando-se um pouco com a palavra.
    ─ Você não sabe mesmo o que é?
    ─ Nunca havia ouvido essa palavra. De que idioma seria?
Paulo achou graça na ingenuidade de Amália e, tirou de dentro da camisa um pequeno objeto.
    ─ Está vendo isso? É uma máquina fotográfica digital. Ela não está mais funcionando, porque ficou muito tempo submersa quando caí no mar. Esta pequena máquina serve para capturar uma imagem.
    ─ Não se pode capturar uma imagem. Que tipo de bruxaria é essa?
Ele explicou detalhadamente como a máquina funcionava, ficando encantado com as caras de espanto e dúvida, que Amália fazia, deixando-a ainda mais bela. Ao fim da explicação de Paulo, os dois ficaram em silêncio, olhando juntos para o mar, até que Amália rompeu o silêncio.
    ─ Eu também vi uma sombra no mar. Não sei explicar bem, mas era uma sombra mui grande acompanhando a nau. E não sei como, mas parecia que havia uma pessoa na sombra observando o mar e, por um momento tive a sensação de estar sendo observada por ela.
    ─ Foi exatamente o que vi antes de cair. Alguma coisa sobrenatural aconteceu envolvendo nós dois. Agora tenho certeza. Você estava aqui observando o mar enquanto eu estava no meu navio, fazendo a mesma coisa. Eu vi a sombra do seu navio e você estava nela. Você viu a sombra do meu e eu estava nela. E nós dois percebemos isso.
    ─ Mas como isso seria possível? O senhor é um bruxo ou talvez um alquimista?
Paulo pôs sua mão sobre a de Amália que segurava a amurada. O toque foi para ambos uma sensação de completude e, o silêncio era tão eloqüente que apenas uma troca de olhares foi suficiente para que se descobrissem destinados um ao outro.
    ─ Não sou bruxo nem alquimista, mas vou te revelar um segredo que talvez seja um pouco difícil de você acreditar. Seu tio me disse que estamos no ano de 1600. Eu estava viajando em um grande navio chamado transatlântico.
    ─ Que nome mais incomum para um navio.
    ─ Para esta época sim. Mas eu estava viajando no ano de 2009, quatro séculos à frente.
Fascinada, Amália só conseguiu apertar a mão de Paulo. Ela sempre havia sonhado em viver uma linda história de amor e, agora seu desejo estava se realizando de uma maneira inesperada e mágica.
Envolvidos pela inexplicável magia daquele momento, eles não perceberam que nuvens negras transformaram o dia em noite, anunciando uma tempestade. Acordado pelo Imediato, o Capitão apressou-se em dar ordens para toda a tripulação.
    ─ Amália, é melhor que vá para dentro. E você também náufrago, vá para a minha cabine.
    ─ Prefiro ficar e ajudar, Capitão. Vá Amália. Tome, fique com a máquina.
    ─ Tenha cuidado, Paulo. Vou rezar pedindo a Deus Nosso Senhor que nos ajude.
O vento já soprava forte e a chuva desabou pesada. O mar até então calmo, parecia agora ferver. As ondas cresciam e sacolejavam a nau, que rangia, dando a impressão de que não resistiria até o término da tempestade.
    ─ Com mil trovões! ─ praguejou o Capitão, segurando firme o timão. ─ Há mui pouco estávamos em uma calmaria, e agora este chuvaceiro.
Chicoteada violentamente por uma onda gigantesca, a nau inclinou-se a bombordo. Com o solavanco, Paulo escorregou, sendo tragado e arremessado ao mar.
Novamente, entrou em desespero ao afundar, desta vez no mar revolto. Lembrou-se de Amália e reuniu forças para vencer as ondas, mas para sua surpresa, ao chegar à superfície, o mar estava calmo e à sua frente havia uma traineira de pescadores.
Resgatado, foi levado de volta para o transatlântico, onde, depois de examinado, foi repreendido pela imprudência de subir na amurada para fotografar-se vestido de pirata.
Porém, ele só conseguia pensar na viagem no tempo que havia feito sem saber como, sem auxílio de máquinas ou tecnologias e, em como voltar para junto de Amália.
Depois de dissipada a tempestade, a tripulação comemorava a sobrevivência dando hurras, comandados pelo Capitão. Ao chegar ao convés, Amália não conseguiu localizar Paulo e, ansiosa foi indagar ao tio o que havia acontecido.
    ─ Tio, onde está o senhor Paulo?
    ─ Não tenho boas novas para lhe dar a respeito do náufrago, minha sobrinha. Durante a tempestade, ele foi arrastado para o mar por um vagalhão.
Amália não conseguiu conter o choro e, voltou correndo para sua cabine, sendo seguida por Maria. Aos soluços abriu sua arca de pertences e retirou a minúscula máquina fotográfica que Paulo havia lhe dado, apertando-a contra o seu coração palpitante.
    ─ Ele está vivo, Maria. Posso sentir isso. Talvez tenha voltado para o ano de 2009, de onde ele disse ter vindo.
Sem nada entender, Maria tentou confortar Amália abraçando-a.
    ─ Era a sina do moço, sinhá. O mar veio buscá ele.
Já no final da tarde, depois de dormir e um pouco mais calma, Amália observava o mar e o pôr do sol, junto à amurada da caravela, trazendo pendurada em sua mão esquerda a máquina digital. Rememorava como tudo havia acontecido, a sombra no mar; a impressão de estar sendo observada; o avistamento de Paulo; a troca de olhares entre eles; a conversa e a explicação sobre a máquina no convés e, por fim as palavras de Maria. No vai-e-vem de pensamentos, concluiu num átimo que Maria tinha razão. O segredo estava no mar. Tudo havia começado no mar, então, somente através do mar poderia ver seu amado novamente. Teria de segui-lo para estar junto dele em 2009. Quando finalmente o sol se pôs no horizonte, dando lugar à noite, Amália atirou-se ao mar, ao encontro do seu grande amor.
Na cabine do transatlântico, frustrado e tentando descobrir o que realmente havia acontecido, Paulo já cogitava a possibilidade de ter sofrido uma alucinação, resultante do quase afogamento. A única lembrança que tinha do tempo passado entre a queda e o resgate, era a da sua permanência na caravela e de Amália. Tudo aquilo parecia extremamente real, havia sentido o perfume de Amália, havia sentido na pele o seu toque e, por isso, experimentava uma sensação de deslocamento, sentia-se um peixe fora d'água. Sim, havia sentido na pele e a prova estava ali, bem a sua frente. Aquelas roupas velhas que haviam confundido com uma fantasia de pirata. Ainda estavam úmidas, mas mesmo assim ele as vestiu. Não se sentiu estranho como da primeira vez. À noite, quando todos no transatlântico se divertiam, Paulo, caminhou até o mesmo ponto do convés onde tudo se iniciara e mergulhou ao encontro do seu grande amor.

 Dois anos depois...
O barco trazendo alunos da escola de mergulho recreativo lançou âncora no local indicado pelo instrutor. Antes de liberar os alunos, o instrutor decidiu fazer um mergulho de reconhecimento do local. Maravilhado com a beleza daquele pedaço de mar, ele aproximou-se de uma parede submersa de corais onde presenciou uma cena nunca antes vista em seus vários anos de mergulho. Em meio aos corais como se estivessem sentados lado a lado, dois esqueletos pareciam estar de mãos dadas, e entre as mãos sobrepostas, havia um pequeno objeto retangular já corroído pelo tempo.
    ─ E então, professor? Podemos mergulhar?
    ─ Não! O local não é adequado, a água é turva e há muitas pedras. Vamos para um local que eu já conheço e tenho certeza, todos vocês vão gostar.


                                                                Autor: Cicero Coutinho


domingo, 5 de setembro de 2010

Leia e pense...

A vida não é uma pergunta a ser respondida. É um mistério a ser vivido.
                                                                                        (Buda)
O MOTIVO DA VIDA...

Às vezes eu me pergunto: 
Qual é o motivo da vida?
Para que tanto sofrimento?
Para que tanta expectativa?
Se um dia vamos morrer...
Qual é o motivo da vida?
Pergunto.
O silêncio responde.
Será esse mais um mistério da vida?
A vida é repleta de mistérios
E eu nunca serei respondida.
Qual é o motivo da vida?

                                           Autor: Juliana Coutinho