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CHARLES BUKOWSKI

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Leia e pense...

Suicídio é, frequentemente, um grito por ajuda que não foi ouvido a tempo.
                                                                            (Graham Greene)

O FOGO DA LOUCURA

Sentada no meio-fio, a mulher observa o fogo consumir o entulho e o lixo.
Ela não sabe como o fogo começou, sabe apenas que ele consome e fascina.
Sentada no meio-fio, ela, já acostumada, observa a passagem das pessoas que nem sequer a notam.
Mas, naquele dia, havia o fogo.
As pessoas olhavam para o fogo, mas continuavam a ignorá-la, talvez por sentirem-se agredidas por sua presença.
Enquanto olhava para o fogo que crescia, a mulher percebeu que o entulho desaparecia e dava lugar a chamas cada vez maiores.
O entulho, o lixo, o feio desaparecia e dava lugar ao calor, a dança frenética e a luz fascinante das chamas.
Em um momento de lucidez, comparou sua vida ao entulho, o fogo à libertação e teve consciência de que vivia na linha divisória entre sanidade e loucura.
Com a consciência, veio a vontade de mudança, de ver a miséria, o desprezo e a humilhação serem consumidos, e uma nova vida surgir com a força e a beleza das chamas.
Sentada no meio-fio, ela revezava o olhar entre o mundo sem perspectivas em que vivera até agora, e o fogo, cujo calor aquecia seu corpo, causando uma sensação de proteção.
Levantou-se com um ar sereno e decidido, e atirou-se às chamas sem dizer uma palavra sequer.
Seu corpo incendiou-se, aumentando o frenesi das chamas.
As pessoas que passavam, tentavam em vão retirá-la, mas em meio às chamas ela parecia sorrir, enquanto seu corpo era consumido.
E de alguma forma, sem pronunciar uma única palavra, apenas com um leve sorriso, ela fez com que todos que assistiam, compreendessem, que naquele momento, ela não morreu.
Renasceu...
        
                                                                    Autor: Cicero Fernando Coutinho

sábado, 28 de agosto de 2010

Leia e pense...

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
                                                                                     (Oscar Wilde)

Homo columba
Passa a vida a arrulhar
olhando aqui e acolá
e em três coisas a pensar:
comida, sexo e defecar.
Tem asas, mas pouco usa
prefere ficar no chão
pois além de mais seguro
tem sempre migalha de pão.
Alguns são mais espertos
e sempre conseguem algo mais
pois são muito bem treinados
na arte do leva-e-traz.
Estes até que voam muito
mas num simples vaivém
pois acham novos horizontes
um esforço muito além.
Às vezes voam em bando
e fazem arribação
mas ao menor sinal de perigo
se desfaz a união.
Se dizem representantes da paz
mas fazem um tremendo alvoroço
por uma migalha de pão
ou de milho um caroço.
Não se sinta incomodado
não me refiro a ti
que é sapiens, que é homo
mas a uma pequena ave
que conhecemos por pombo.
Mas se por um simples acaso
tudo que leste aqui
com tua vida confundiste
fique sabendo então
que tu não vive... existe.

                                                           Autor: Cicero Coutinho

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Leia e pense...

Solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem para si mesmo. 
                                                                                 ( Herman Hesse)



EM MEIO À MULTIDÃO

 O homem acordou, vestiu-se e saiu, como sempre fazia todas as manhãs. Impecavelmente pontual, ele entrou no metrô e dirigiu-se ao centro da cidade. Adorava o centro da cidade, sempre movimentado, com pessoas de todos os tipos a caminhar apressadamente em todas as direções. E ele, diariamente, estava ali, fazendo parte de toda aquela agitação, caminhando, apenas caminhando. Seguia a multidão pelas ruas do centro da cidade sem rumo nem destino. Apenas caminhava e observava tudo e todos como se procurasse algo que, nem mesmo ele, era capaz de dizer do que se tratava. E assim, ele fazia todos os dias e, só voltava para casa à noite, cansado de mais um dia estafante. Depois do banho, ligava a televisão e assistia ao noticiário - pois precisava saber o que de importante acontecera na cidade, na sua cidade - enquanto jantava um sanduíche de pão com mortadela. Já deitado, fazia uma retrospectiva das atividades diárias, relembrando as vitrines repletas de produtos e promoções, os shows dos ambulantes, os sons dos motores e das buzinas dos carros e adormecia tranqüilo.
No dia seguinte, lá estava ele, novamente, em meio à multidão que invadia o centro da cidade. Tinha o hábito de, cada dia tomar um itinerário diferente, evitando assim a repetição dos locais visitados. Resolveu entrar em uma grande livraria, dessas que oferecem locais para que as pessoas sentem e leiam, ficando ali praticamente toda a manhã. Depois, saiu pelas ruas novamente, acompanhando a multidão. Caminhava tranqüilo quando, ao olhar para o lado, teve a impressão de estar sendo observado. Olhou mais uma vez e surpreendeu-se quando viu uma mulher que olhava para ele, sorrir. Sentiu-se incomodado. Caminhava todos os dias pelas ruas do centro, mas nunca havia falado com ninguém, nada além do estritamente necessário. Nunca havia abordado ninguém e nunca havia recebido um sorriso assim, sem nenhum motivo. Apertou o passo, e reparou que a mulher continuava a acompanhá-lo; e a cada vez que olhava para trás, lá estava ela, sorrindo. Começou a andar em ziguezague na tentativa de despistá-la, mas ela também costurava a multidão e continuava a segui-lo com um sorriso de quem havia descoberto um segredo, um sorriso que invadia sua privacidade. Decidiu atravessar a avenida repentinamente e fazer o caminho de volta na outra calçada. Ao aproximar –se do meio-fio, olhou mais uma vez para trás e viu o sorriso da mulher transformar-se em uma expressão de desespero, mas não deu importância e continuou andando rápido e, ao dar dois passos para fora da calçada, não percebeu o ônibus que vinha em sua direção.
O choque foi violento. Caído no chão, o homem agora só podia ver os altos prédios. Aos poucos, começou a perceber várias pessoas a sua volta. Sentiu sob sua mão um líquido viscoso escorrer. Olhava para as pessoas a sua volta sem entender o que se passava. De repente, em meio às pessoas, reconheceu o rosto da mulher que o seguia. Ela não sorria mais, pelo contrário, tinha uma expressão de tristeza.
Ele olhou para o azul do céu e, lá em cima, viu uma linda cidade com ruas ensolaradas e uma multidão a caminhar. Viu também algumas pessoas voando em direção à cidade ensolarada; fechou, então, os olhos e, feliz, voou para lá.
Os bombeiros colocaram o corpo dentro da ambulância e a multidão começou a se dispersar.
Parada na beira da calçada, a mulher acompanhou a ambulância até que esta desaparecesse em meio ao trânsito.
Então, voltou a caminhar pelas ruas da cidade, como todos os dias ela fazia. Não era ele a alma gêmea, que algum dia, ela, certamente encontraria.


                                                                                    Autor: Cicero Coutinho

domingo, 22 de agosto de 2010

Leia e pense...

Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é pensar que tudo é um milagre.
                                                   (Albert Einstein)

Bem-vindo!

Este blog tem por objetivo, fazer você gostar de ler. Pretendo postar aqui, toda e qualquer história que valha a pena ser lida e pensada. E antes da primeira história, gostaria que você respondesse algumas perguntas.

O que você faria se descobrisse hoje, que está doente e, que sua expectativa de vida, é de no máximo mais dois anos?

E se depois desta horrível descoberta, você recebesse uma proposta, que não te livraria da doença, mas que permitisse a você realizar um desejo que só conseguimos experimentar em sonhos?

Você já se sentiu entre a cruz e a espada?


Boa leitura!

A CRUZ E A ESPADA

Vanessa tinha apenas vinte anos quando se casou com Paulo, dez anos mais velho.
Os quatro primeiros anos foram de lua-de-mel, até Vanessa descobrir que Paulo era um assíduo freqüentador de bordéis. Começaram, então, as ofensas, as brigas e, por fim, a dolorosa, mas, inevitável, separação.


Cada um para o seu lado, Vanessa decidiu assumir sua própria vida, até então, posta em segundo plano em função do casamento. Passou a dedicar-se mais ao trabalho, fez cursos de qualificação profissional e, finalmente, conseguiu o reconhecimento ao ser promovida.
Tudo parecia perfeito: Trabalho, amigos, independência.
Mas um dia, recebe a notícia da internação, às pressas, de Paulo. Já haviam se passado oito meses desde a separação, mas, mesmo assim, Vanessa sentiu-se um pouco abalada. Seis dias após, Paulo faleceu. No hospital, Vanessa fica sabendo a causa mortis: aids. Paulo havia escondido de todos, o seu grave estado de saúde, além de não ter se submetido a nenhum tipo de tratamento.


Uma semana depois, o choque havia se transformado em medo. Vanessa sofria só de pensar na possibilidade de ter contraído o vírus com Paulo, mas sabia, perfeitamente, que a dúvida seria uma tortura e resolveu, finalmente, fazer um teste de HIV.


O envelope com o resultado do teste, ficou guardado por dois dias. Depois de um bom banho, Vanessa sentou-se na cama e abriu o envelope, pedindo a DEUS que a ajudasse.
Naquele instante, o mundo girou mais rápido para Vanessa, e ela pôde visualizar toda a sua vida. Passado, presente e... futuro?
Não haveria futuro, pois o resultado acusava: HIV positivo.


Vanessa amanheceu sentada na mesma posição, não havia tido coragem sequer de se mexer. Só conseguia chorar. Pensava como seria sua vida, se é que se pode chamar de vida, o que estava por vir. Como contar para os familiares e amigos?
Antes de contar, achou melhor procurar um médico e iniciar um tratamento, o mais rápido possível. Já tinha ouvido falar de novos medicamentos que praticamente curavam os portadores do vírus, aumentando bastante suas expectativas de vida.
Não podia deixar o desespero tomar conta da situação, tinha que tentar tudo, tudo mesmo que acenasse com uma possibilidade de inibir o progresso da doença.


Já passava do meio-dia, quando Vanessa, finalmente, adormeceu. Adormeceu e sonhou que estava no topo de uma montanha, e que se atirava de lá em queda livre, mas antes de atingir o solo, ela simplesmente olhou para cima e, começou a voar.


Acordou, tarde da noite, com o clarão do monitor do seu PC iluminando todo o quarto. Não se recordava de ter ligado o computador, mas na tela aparecia uma sala de chat onde um participante que se apresentava como Caliel, deixara uma mensagem: "Oi, quando quiser conversar, estarei aqui. Basta você começar. Que tal deixar todos os problemas para trás e voarmos um pouco?"
Desconfiada, Vanessa respondeu assim mesmo. Teclaram por um bom tempo e ela percebeu que Caliel não era como os outros participantes das salas de bate-papo. Geralmente, a maioria deles, só se interessa por sexo ou infantilidades, e era muito difícil encontrar alguém que soubesse manter uma conversa interessante. Mas Caliel sabia conversar e, principalmente, "ouvir". Depois de teclar com Caliel, Vanessa sentiu-se mais tranqüila, deitou-se e dormiu.


De volta ao trabalho, foi conversar com Isabel, sua supervisora, decidida a contar sobre sua condição de soro-positivo. Conseguiu apenas chorar e colocar o resultado do teste sobre a mesa de Isabel, que após ler ficou em silêncio, olhando para o papel em suas mãos.
Isabel não sabia como agir. Sentiu-se mal por ter de admitir para si mesma, que naquele momento pensara somente em como a doença de Vanessa afetaria a todos, e só conseguiu falar as frases feitas que todo mundo sempre repete:


  • Sinto muito. Sinceramente, não sei o que dizer. Vou conversar com a Diretoria e ver como a empresa pode ajudá-la.




Duas horas depois, Isabel chamou Vanessa até sua sala:



  • Vanessa, você vai passar por uma fase bastante difícil em sua vida, mas precisa encontrar forças, não deve de maneira nenhuma se entregar. Você vai precisar fazer exames, tratamentos e vai ser preciso tempo para fazer tudo isso. Por isso, a Diretoria resolveu antecipar suas férias. Não estamos afastando você. Estamos antecipando suas férias para que você possa iniciar seu
    tratamento de forma adequada. Depois, você retorna normalmente.
Vanessa saiu dali, arrasada. Não pretendia tirar férias em um momento tão ruim, não queria isolar-se, mas, concordava que precisaria de tempo para compreender e adaptar-se à sua nova realidade. Só não entendia porquê tinha vontade de conversar com Caliel, não sabia sequer seu verdadeiro nome, quem era ou onde morava. Mas ansiava voltar para casa e procurá-lo nas salas da web.


Entrou em casa e foi direto para o quarto, onde ficava o computador. Começou, então, a procurar Caliel pelas salas de bate-papo. Utilizou a busca, mas não obteve êxito. Lembrou-se, então, das palavras de Caliel: "Basta você começar."
Começou, então, a teclar: "Caliel preciso conversar com você."
Ficou surpresa ao ver surgir na tela uma resposta: "Fico feliz que tenha lembrado de mim. Não poderia ajudá-la se não lembrasse de mim."


Conversaram muito, e Caliel parecia saber cada palavra que Vanessa queria ouvir. Ela não sabia como, mas sentia-se mais calma e confiante, enquanto teclava com Caliel. Decidiu então contar sobre sua doença, e sentiu-se ainda mais aliviada em poder desabafar com alguém.
Depois do desabafo de Vanessa, Caliel respondeu: "Agora sim, posso ajudá-la. Não posso curá-la, mas posso te oferecer duas alternativas. Preste atenção, depois reflita, pois a decisão será muito difícil.
Você terá que escolher entre viver mais dois anos, sendo que, nestes dois anos, a doença evoluirá. Você se sentirá cada vez mais debilitada e dependente de medicamentos e da solidariedade alheia. Vai se emocionar, se decepcionar. Vai ver muitos se afastarem e poucos te estenderem a mão. E, ao final dos dois anos, adormecerá sobre uma cama e não mais acordará.
Ou viver mais dois meses apenas, mas nestes dois meses você irá sentir-se bem, não haverá sintoma algum da doença e, além disso, você terá o dom de voar. Poderá voar para onde quiser, conhecerá novos lugares, novas pessoas e, ao final dos dois meses, poderá voar para uma geleira, uma floresta, um deserto, uma planície ou o cume de uma montanha, onde você adormecerá e, não mais acordará."




Após ler, Vanessa adormeceu, mas também em seu sonho, a escolha se fazia presente. Quando acordou, o quarto estava totalmente iluminado por uma luz azul que saía diretamente do monitor. No meio do azul da tela, havia um círculo branco e dentro do círculo as palavras: ANOS / MESES ---- Selecione sua opção...



                                                                              Autor: Cicero Coutinho