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CHARLES BUKOWSKI

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

CÍRCULO VICIOSO - Parte IV
Em alta velocidade, o caminhão percorria a estrada sem sinalização e sem policiamento. Na boléia, o motorista assobiava satisfeito, ansioso em chegar logo ao seu destino e receber o pagamento. No baú da carroceria, cinco meninas, eram transportadas às escondidas, amarradas e amordaçadas em meio à carga. A mais nova delas, aparentava não ter mais de dez anos de idade e, havia sido vendida pelo próprio pai ao motorista, que a chamava de preciosidade, nos poucos momentos em que parava o caminhão para dar-lhes água com biscoito e deixá-las, uma de cada vez, usar o mato como banheiro, sob seus olhares de cobiça. Evitando o máximo possível trafegar pelas estradas principais, o pernoite era quase sempre feito em casas de beira de estradas secundárias, onde os miseráveis proprietários em troca de qualquer quantia em dinheiro cediam um local para estacionar o caminhão, o direito de usar o banheiro quase sempre sujo e, quando havia, um prato de comida. Depois ele retornava ao caminhão onde escolhia uma das meninas para satisfazer seus desejos, excluindo desta escolha a preciosidade. Caso não se submetessem e fingissem prazer, as meninas eram espancadas, estupradas e ainda perdiam direito aos biscoitos, tendo que se contentar somente com a água. E assim, João das cabritas, como era conhecido, ia tocando sua vidinha medíocre, se achando o mais esperto dos homens. Em meio aos fretes, quase sempre havia a venda de meninas para os mais diversos tipos de clientes. Desta vez a entrega seria na Fazenda Colina dos Lobos, cujo proprietário era um dos seus melhores e mais assíduos clientes. Ao parar diante da porteira principal, foi logo reconhecido pelo peão que tomava conta da entrada, que mais parecia um soldado, de tão bem armado que estava. Seguiu na estrada de terra que ia para o interior da propriedade, no sentido oposto ao casarão principal, onde havia outra casa em estilo colonial em meio a uma floresta particular. Na varanda, sentado em uma cadeira de balanço, um homem observava enquanto João saía do caminhão.
            − Tarde, seu Geraldo. Vim entregar a carga. – disse João tentando ser simpático.
            − Quantas dessa vez? – perguntou Geraldo, com frieza.
            − Cinco. Cinco cabritinhas, sendo que a mais nova só tem onze anos, nunca foi bulida. Nem ficou regrada ainda.
            − Traga as meninas e vamos terminar logo com isso.
João voltou ao caminhão e soltou as meninas que, uma a uma, foram saindo assustadas e temerosas com o que iria acontecer. Geraldo se aproximou, parando diante de cada uma, fazendo uma avaliação silenciosa e ameaçadora. Depois, virou-se e subiu até a varanda, onde tocou um pequeno sino, pendurado no beiral. Uma senhora com os cabelos quase totalmente brancos e um avental de plástico sobre o vestido, apareceu encarando as meninas. Ao sinal de Geraldo, ela, acompanhada de dois homens, guiou as meninas por um caminho na lateral esquerda da casa. Quando todos sumiram de vista, Geraldo tirou do bolso do colete, um maço de notas de cinquenta reais e entregou a João das cabritas, que sorrindo conferiu.
            − Poxa, seu Geraldo... A cabritinha novinha vale um pouco mais. É uma preciosidade, nunca foi bulida e nem...
Antes que João terminasse, Geraldo jogou no chão, um novo maço, desta vez menor, fazendo sinal com a mão para que João se retirasse. O caminhoneiro pegou o maço e, sem contar, colocou no bolso, voltando sorrindo para o caminhão. Antes de dar a partida, pôs a cabeça para fora da boléia, falando alto, como se estivesse muito longe.
            − Obrigado, seu Geraldo. Quando precisar de uma nova remessa é só fazer contato.
Satisfeito com o pagamento ele saía da Colina dos Lobos, sem se importar com o que aconteceria com as meninas, estava mesmo era aliviado em afastar-se de Geraldo, a quem temia, desde o primeiro encontro, quando fez a entrega da primeira remessa de meninas. E foram tantas remessas, que já não sabia mais quantas.
Com o rádio transmissor na mão, Geraldo jogou fora o cigarro e ligou para o casarão principal da fazenda.
            ─ Doutor Ronaldo, a remessa chegou.
            ─ Ele trouxe tudo que foi pedido?
            ─ Trouxe sim senhor. A Elza está cuidando delas agora.
            − Qual o número da sorte?
            − Ele disse que é onze.
            − Ótimo. Trate bem delas, principalmente a número onze. Irei mais tarde para verificar tudo.
Ronaldo Galdino era um homem rico e poderoso, que desejava ardentemente a imortalidade. Desde que, descobrira-se um lobo, dedicou-se a estudar o Tantrismo, o Taoismo, a Magia Sexual e tudo o mais que acenasse com uma pequena possibilidade de transformar sua longevidade em imortalidade. Nas muitas viagens que fez, conheceu vários lobos como ele, e também algumas vampiras. Em um desses encontros, tomou conhecimento de um ritual de transferência de imortalidade de uma vampira para um lobo. E era exatamente o que pretendia fazer, criar condições para a reprodução deste ritual, no qual absorveria de uma vampira, o fluído vital, que o faria também um imortal, um lobo imortal.
Elza levou as meninas para um pequeno galpão, onde todas puderam depois de dias, usar um banheiro com privacidade, tomar um banho e vestir roupas limpas. Após a sessão de higiene, cada uma recebeu um prato de comida, que foi apetitosamente devorado. Terminado o banquete, foram levadas para um cômodo grande com várias camas beliche onde puderam dormir e sonhar com dias mais felizes.
Diante do cadáver, Alice explicava a Rangel a impossibilidade de um corpo atingir tal estado de mumificação em apenas alguns dias. Agora irreconhecível, o corpo da mulher era literalmente pele e ossos e, parecia ter sido retirado de alguma escavação arqueológica.
            ─ A mumificação natural pode acontecer, mas não tão rápido assim. São necessárias algumas condições bem específicas. Além disso, os casos mais rápidos de que se tem notícia, levaram algumas semanas e não alguns dias.
            ─ Então, estamos diante de vários mistérios.  Quem matou? Porque matou? E como ela ficou desse jeito? E o pior, é que ainda estamos no zero, sem pista alguma. Mas acho que há algo relacionado com magia negra. Sabe como é... Alguns malucos ficam pesquisando em livros e na internet, e depois se acham os donos da magia. Eu listei algumas comunidades suspeitas que achei na rede, não custa nada averiguar,
            ─ E sobre a identidade dela?  Você não conseguiu nada nos registros da polícia?
            − Ainda não. Nem em alguns registros de pessoas desaparecidas que verifiquei, a descrição bate com a dela. Alice, há mais alguma coisa que você queira me mostrar?
            − Por enquanto é só isso, Rangel. Queria que você a visse com seus próprios olhos
− Meu Deus! Se eu não a tivesse visto antes, não acreditaria que esta múmia é ela. – disse Rangel já saindo. – Obrigado Alice, ficaremos em contato.
Rangel gostava de dirigir pela cidade, de observar as pessoas e seus comportamentos. Já havia tido a sorte de encontrar pistas para solucionar alguns casos, simplesmente circulando pela cidade e observando as coisas acontecerem. E desta vez, o pensamento de que deveria procurar pistas durante a noite, não lhe saía da cabeça. Ao parar o carro no sinal, recebeu de uma senhora uma folha de papel com a cópia da fotografia de uma menina desaparecida. Abaixo da foto algumas informações sobre a menina e telefone para um possível contato. Pôs a folha sobre o banco do carona e começou a imaginar o que poderia ter acontecido com a menina, mas seus pensamentos logo retornaram para o caso da múmia do motel, que também era uma desaparecida e, certamente estaria sendo procurada por parentes e amigos aflitos.
A cada ano, aumentava o número de pessoas desaparecidas, que simplesmente sumiam, como se nunca tivessem existido. Vítimas de acidentes e assassinatos, algumas eram, por falta de identificação, enterradas como indigentes e esquecidas de vez, exatamente o que teria acontecido com a mulher do motel, se não fosse a sua rápida e ainda inexplicável transformação, outras pareciam transportadas para uma invisível e inacessível dimensão, sem deixar qualquer pista sobre seus destinos. Desconfiado, como todo policial, Rangel olhou pelo retrovisor, para um homem que, apressado, atravessava a rua por trás do seu carro. Quando este olhou para o lado, Rangel arregalou os olhos ao verificar que ao contrário do corpo, o rosto do homem era refletido de forma embaçada, impedindo sua identificação.
            − Meu Deus, é ele! Só pode ser ele! – disse para si mesmo, lembrando-se da imagem capturada pela câmera do motel.

                                                          Autor: Cicero Fernando Coutinho

Um comentário:

  1. Olá, você convidou e eu vim dar uma olhadinha no seu blog. Achei muito interessante, o único problema é não gosto de ficar lendo na tela do computador textos tão longos. De qualquer forma, vou dar uma olhadinha nos textos mais tarde. Obrigada pelo convite.

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