Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CÍRCULO VICIOSO - Parte III

Pessoas de todos os tipos e todas as tribos se aglomeravam na porta da casa de shows que era a nova sensação da noite e das baladas. Os visuais iam do elegante ao excêntrico, do criativo ao ridículo, mas o importante era se destacar e conseguir entrar. O homem elegantemente vestido ignorou a fila, indo direto para a porta, onde um dos seguranças estendeu-lhe a mão. Com um tapinha nas costas ele cumprimentou o segurança, fingindo não perceber o braço estendido e, evitando o aperto de mãos, entrou. Do lado de fora a diferença e o contraste, do lado de dentro a igualdade e a mesmice. Pessoas que tentavam a todo custo, com seus modos de falar, com suas roupas, com seus cortes de cabelo e seus acessórios, serem diferentes, fashion e únicas, aglomeravam-se em um ambiente quente, mal iluminado e com um som estridente, fazendo exatamente as mesmas coisas. Era grande o consumo de bebidas alcoólicas e drogas de vários tipos. Na pista um grupo pulava e se acotovelava, enquanto alguns apresentavam performances estranhas que eram chamadas de dança. Pelos cantos escuros, pessoas já fora de si, e que mal se conheciam, deixavam de lado o bom senso e tentavam praticar algo parecido com sexo. Apesar de um suposto clima de descontração e alegria, o ambiente era pesado, mas todos pareciam não se importar e ainda pagavam para estar ali. Do camarote, ele observava as mulheres, avaliando com atenção as mais bem vestidas, bonitas e exibicionistas.  Poucos minutos depois, conversava com uma delas, que aceitara o convite para juntar-se a ele.
Do lado de fora, os que ainda estavam na fila, tiveram a atenção desviada para a maravilha feminina que acabava de chegar. Uma perfeição em todos os sentidos, que ao passar, exalava uma brisa perfumada que despertava desejo tanto em homens quanto em mulheres. Ela entrou direto, sob os olhares de todos. Sua chegada foi notada, mesmo com toda a agitação que tomava conta do ambiente, principalmente pelos homens. No camarote, antes mesmo de avistá-la, ele sentiu o cheiro de seu sangue e, interrompendo a conversa, olhou para o nível inferior, confirmando com satisfação sua presença. Abandonou sua convidada sem dizer uma única palavra e, descendo a escada com incrível agilidade, foi ao encontro daquela que havia mudado sua vida. Ao aproximar-se foi impedido por dois homens que se interpuseram entre ele e ela. Pôde ver nos olhares de ambos, a mesma sede de sangue, o mesmo desejo e a mesma fúria contida. Percebendo a crescente tensão, ela pediu aos homens que se afastassem e, dando-lhe o braço o acompanhou de volta ao camarote, onde a mulher com quem ele conversava minutos atrás, ao vê-lo retornar acompanhado, sentiu-se humilhada em todos os sentidos e, visivelmente contrariada retirou-se, sem que nenhum dos dois sequer a percebesse.
            ─ Fiquei surpresa em encontrá-lo novamente, assim tão rápido, Aquiles.
            ─ Acho que foi a força do pensamento. Não consegui pensar em outra coisa a não ser em você. Precisava encontrar você de novo.
            ─ Fico lisonjeada em saber que a tarde foi inesquecível.
            ─ Foi muito mais que inesquecível. Foi uma mudança completa na minha vida. Me sinto outra pessoa.
            ─ E está gostando de ser uma nova pessoa?
            ─ Se estou gostando? Em alguns dias minha vida mudou da água para o champanhe. ─ disse ele enquanto erguia sua taça e a convidava para brindar. ─ Ao nosso reencontro e, quem sabe, ao nosso futuro.
            ─ Vejo que você continua bem determinado. Aliás, acho que foi por isso que nos conhecemos.
            ─ Depois das experiências que tive após nosso encontro, percebi que ainda há muitas coisas que desconheço. E tenho certeza que você, Ísis, pode me ensinar boa parte delas. Prometo ser um aluno mais que determinado.
            ─ Disso eu não tenho dúvida. Então, que tal sairmos daqui? Minhas aulas requerem um local mais... reservado. ─ disse ela com um leve sorriso e piscando o olho direito enquanto bebia mais um gole de champanhe.
Sob olhares de ciúme e inveja, eles saíram da casa de shows. Já a sós, entregaram-se completamente aos seus instintos. Palavras não eram necessárias. O contato de seus corpos produzia uma química poderosa. Havia entre eles uma fina sintonia, uma medida perfeita, um encaixe geométrico. Cada um sabia exatamente o que fazer para dar e sentir prazer. Ele a encostou na parede e arrebentou sua calcinha, depois de saciar sua sede de sangue, virou-a de costas penetrando-a por trás. Apoiando-se na parede, ela rebolava e fazia movimentos de contração vaginal que literalmente sugavam o pênis dele para dentro dela, despertando nele seu apetite voraz. Ficaram um longo tempo assim. Sentindo suas forças se esvaírem, ele tentou interromper o coito, não conseguindo. Quanto mais ele tentava, mais ela contraia sua musculatura vaginal e o sugava para dentro de si. O prazer intenso superava o desconforto da imobilidade e da sensação de captura e drenagem de energia. Mais uma experiência pela qual ele nunca havia passado. Exausto, ele sentiu o movimento das contrações, dessa vez o expelindo e, dando dois passos para trás, sentou-se na cama esforçando-se para manter-se consciente e tentando entender porque, somente com ela, isso acontecia. Porém, antes de chegar a qualquer conclusão, deitou-se e dormiu pesadamente, sob o olhar atento e insinuante de sua deusa. Quando acordou, já era dia. Ficou feliz ao ver que desta vez ela não o havia deixado. Depois de alguns minutos admirando-a, ele a tocou suavemente. Com o toque, Ísis despertou. Em silêncio, ele comparou o momento ao nascer do Sol.
            ─ Bom dia! Acabei acordando você. Me desculpe.
            ─ Não precisa se desculpar. Sinto-me ótima. Cheia de vida.
            ─ Então, podemos conversar enquanto tomamos o café da manhã?
            ─ Claro que sim. Sei que você deve ter muitas perguntas a fazer.
            ─ E tenho mesmo. Quero saber o que realmente está acontecendo comigo. Essas mudanças, essas sensações que só experimento com você. Essa energia que você me dá e, ao mesmo tempo, me toma. O que é tudo isso?
            ─ Muitas das suas dúvidas, também são minhas ainda. Comigo, tudo isso começou há pouco mais de um ano, quando conheci um homem, um senhor, um senhor muito velho que me contou uma história e depois me fez uma proposta. Eu estava em uma lanchonete, quando ele perguntou se poderia dividir a mesa comigo e eu concordei. Ele aparentava ter uns setenta anos de idade, mas estava bem conservado, havia uma jovialidade incomum nele. Ele puxou assunto perguntando a minha idade e, depois quantos anos eu gostaria de viver. Respondi que ainda não havia parado para pensar nisso, mas que gostaria de viver o máximo possível.
            ─ Não entendi uma coisa. Você disse que ele era muito velho, mas havia uma jovialidade incomum. Como assim?
            ─ Isso mesmo. Talvez você não acredite, mas deixe-me contar para que você entenda. Depois da minha resposta, ele me deixou até com um pouco de medo, quando falou que estava a minha procura. Achei que ele estava me confundindo com outra pessoa e ele respondeu que não havia possibilidade de erro, pois o cheiro do sangue é único, cada pessoa possuía o seu, era como uma marca registrada, uma espécie de DNA olfativo. Duvidei da possibilidade dele ter sentido o cheiro do meu sangue, e a resposta dele foi ainda mais surpreendente.
            ─ Ele sentiu o cheiro da sua menstruação, não foi?
            ─ Exato. Como você ontem à noite. Mas naquele momento eu sequer imaginava que isso fosse possível. Pensei se tratar de mais uma cantada barata, dessa vez aplicada por um velho safado, mas quando me levantei, ele me chamou pelo nome e disse que era inútil eu tentar fugir do meu destino. Sentei-me novamente e ele começou a falar sobre um culto perdido no tempo, o culto da Deusa.
            ─ Culto da Deusa? ─ perguntou ele, abaixando a cabeça e sorrindo discretamente ao lembrar-se que era assim que a chamava em seus pensamentos.
            ─ Isso mesmo. Um culto a uma Deusa, rituais de menstruação e gravidez. Ele disse que através de um ritual orgíaco, algumas pessoas tornavam-se aptas a absorver a força vital de outras, através da relação sexual. Sendo que há diferenças na maneira como mulheres e homens absorvem e se beneficiam dessa força vital.
Ele lembrou-se da sensação que havia sentido ao matar a mulher no motel, uma forte energia invadir seu corpo, e também de como se sentia fraco depois do ato sexual com sua deusa.
            ─ Mas até aí, você ainda não tinha conhecimento de nada disso. Como você desenvolveu essas habilidades?
            ─ Ele me explicou que estava muito velho e, que já era hora de transferir seu conhecimento e poder e, que isto deveria ser feito através de um ritual sexual. Achei absurdo quando ele descreveu o ritual, mas ele me convenceu a assistir ao que ele chamou de uma pequena demonstração e, explicou que seu corpo estava se deteriorando e só resistiria a mais uma absorção e transferência de fluído vital. Eu o acompanhei até um sítio, onde havia uma mulher o aguardando. Você já deve ter imaginado o que presenciei. Eles fizeram sexo diante de mim e, percebi que as feições dele tornaram-se mais jovens. De repente, durante o ato, ele cravou no coração dela, um punhal fino e brilhante. Os dois estremeceram. Ele a segurou por alguns minutos, evitando a queda do corpo dela, que estava sentada sobre ele, deitado na cama. Depois de alguns espasmos, ele finalmente a empurrou para o lado e, quando olhou para mim, sua aparência era de um homem de no máximo quarenta anos de idade.
            ─ Isso é incrível! – exclamou ele, fascinado com tudo que acabara de ouvir. – E o que aconteceu depois?
            ─ Ele se aproximou de mim e perguntou se eu estava bem. Amedrontada, respondi que sim. Então, ele sentou-se ao meu lado e começou a falar sobre o que ele chamou de "a verdade sobre lobos e vampiros". A essa altura dos acontecimentos, eu me encontrava completamente envolvida, sob uma espécie de fascínio, hipnose e, quando me dei conta, estava participando não de uma relação, mas de um ritual sexual. Eu nunca havia sentido tanto prazer no sexo. Cada centímetro, cada poro do meu corpo experimentava um prazer, uma absorção de energia que me dava uma sensação de estar flutuando. Instintivamente passei da submissão para o domínio e pude senti-lo tentando sair de mim, sem conseguir. A sensação era inexplicável, quanto mais o tempo passava, mais gostoso ficava. De olhos fechados, eu me sentia nas alturas, em pleno vôo. Quando todo este êxtase começou a diminuir, e eu abri os olhos, me assustei com o que vi. Debaixo de mim, na cama, havia um homem muito, mas muito velho mesmo, parecia ter muito mais de cem anos. Levantei-me e fiquei olhando enquanto seu rosto e seu corpo iam lentamente mudando. Ele foi envelhecendo cada vez mais. Lentamente seu corpo foi ressecando e, ao dar o último suspiro, tinha a aparência de uma múmia. Naquele instante, compreendi que não era mais apenas uma mulher. Eu havia presenciado e experimentado o segredo da vida e, embora ainda não tivesse consciência, ao experimentá-lo eu havia tocado na imortalidade.
Aquiles segurou firme a mão de Ísis. A energia proveniente do toque era quase palpável e, fazia-os sentir que havia entre eles, muito mais que uma simples química sexual. Transcendendo a isso, havia uma predestinação, uma cumplicidade, uma devoção cega e perigosa. Ele tinha certeza agora, que ao lado dela, teria ao seu alcance poder e longevidade, um tesouro de valor incalculável, principalmente para quem, até alguns dias atrás, sobrevivia com dois salários mínimos. Por sua vez, Ísis via em Aquiles um escudeiro fiel e dedicado, disposto a preservá-la com a ferocidade de um lobo.
Nascia naquele momento, naquele toque, uma aliança poderosa e sinistra...

                                                   Autor: Cicero Coutinho

Um comentário:

  1. Um quê de Nelson Rodrigues e Brumas de Avalon! Gostei da mesclagem dos 2!
    bjs
    Bia Medeiros

    ResponderExcluir