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PULP
CHARLES BUKOWSKI

quarta-feira, 20 de outubro de 2010


CÍRCULO VICIOSO - Parte II

A legista do IML estava impressionada. O corpo sobre a mesa apresentava características atípicas às encontradas em um cadáver. Os órgãos internos pareciam ter sido esvaziados repentinamente, de uma forma brusca. Porém, o pescoço quebrado era o único sinal de violência, por isso, Alice chamara o detetive Rangel, um amigo de longa data, que sempre se interessava por casos difíceis.
    ─ Entre Rangel. ─ ela disse ao vê-lo espiando pela vigia da porta.
    ─ Tudo bem, Alice? É esse o corpo do motel?
    ─ Sim. Aproxime-se e veja isto. Os órgãos dela parecem ter sido esvaziados, como uma bola de borracha. Ela está murcha, sugada por dentro, nunca vi nada parecido.
    ─ O pescoço foi quebrado? ─ perguntou Rangel, abaixando-se para ver melhor a face sem cor do cadáver.
    ─ Sim. E, além disso, só há vestígios de relação sexual.
    ─ Encontrou esperma?
    ─ Sim, mas sem um suspeito não se pode fazer nada com o esperma encontrado.
    ─ Entendo. Este caso parece ser dos bons. A câmera do portão principal do motel, por incrível que pareça, apresentou um problema justo na hora em que o carro no qual ela estava foi filmado.
    ─ Que tipo de problema?
    ─ A imagem ficou embaçada e não é possível identificar a placa do carro. O vídeo já foi periciado e não há sinais de ter sido editado ou violado.
    ─ E os depoimentos dos funcionários do motel?
    ─ A única informação dada por eles, foi que um homem moreno, estava com ela. Nada mais de relevante. E, além disso, nada que pudesse identificá-la foi encontrado. Mas mesmo assim vou pedir ao delegado para assumir as investigações. Tem algo de diferente nesse caso. Qualquer descoberta que você faça aí no corpo, por favor, me avise Alice.
    ─ Pode deixar Rangel. Você será informado de qualquer novo detalhe que surja. Também fiquei curiosa e vou me empenhar na busca de mais informações.
Acostumado a investigar casos difíceis e até alguns considerados sobrenaturais, Rangel também ficara impressionado com o estado do corpo da mulher. Alice tinha razão, era como se o corpo tivesse sido esvaziado, como se a vida tivesse sido aspirada deixando a pele e os órgãos murchos e esbranquiçados. Uma morte incomum, mais incomum ainda, por ter ocorrido durante um momento que deveria ser de prazer e não de dor. O sexo ─ pensava ele enquanto caminhava ─ deveria ser um ato de celebração à vida e não um ritual de invocação e oferendas à morte.

A mulher aparentando seus cinquenta anos de idade, mas ainda muito bela, abriu a janela e pôs-se a observar as pessoas que estavam na praia aproveitando o fim de tarde. Depois virou-se e, com satisfação, sorriu ao ver os dois homens no mais profundo sono em sua cama. Dois atletas sarados levados a nocaute por ela. Diante de um enorme espelho que cobria uma das paredes, parou e contemplou-se. Seu corpo ainda era belo e atraente, sua pele ainda possuía maciez e elasticidade. O tempo passava, mas os sinais provocados por essa passagem eram bem sutis, nada que afetasse sua beleza. Seu apetite ainda era insaciável, mas já não era tão fácil manter o controle sobre dois ou mais parceiros, precisava agora de mais concentração. Porém, ela sentia que já não era a única a usufruir da fonte, a ter conhecimento do segredo. Ela sempre soubera da existência de outras, mas nunca sentira uma proximidade tão grande, uma invasão de seus domínios. Os tempos eram outros, a população havia crescido consideravelmente tanto em número, quanto em qualidade, e era perfeitamente normal o aparecimento de outras. Não se incomodava em dividir, o incômodo estava na possibilidade de perda de soberania, em deixar de ser o alvo das atenções. Um paradoxo relacionado ao ego feminino.
Já era madrugada, quando os dois homens finalmente despertos, despediram-se. Ela ainda nua, os acompanhou até a porta do apartamento.
    ─ Vão, meus queridos. Vocês precisam repor as energias. Quando estiverem prontos, voltem.
Enquanto observava-os afastando-se, ela pensava que bastaria vigiá-los para encontrar sua rival. Mais cedo ou mais tarde, eles também a perceberiam e ficariam excitados com a nova oferta. Por enquanto, ela deixaria tudo como sempre fora, daria continuidade ao ciclo, pois seria necessário estar forte e, principalmente bela, para o inevitável encontro. Tomou um "banho de Cleópatra", depois espalhou por todo o corpo diferentes tipos de cremes, após alguns minutos perfumou-se e, como de costume, pôs-se a admirar-se diante do seu mais fiel companheiro, o espelho que cobria totalmente uma das paredes do quarto. Admirando-se em vários ângulos e posições, pegou o telefone celular e ligou para mais dois dos seus queridos, convocando-os para uma visita no dia seguinte. Deitou-se no centro da cama, completamente nua, macia, perfumada e dormiu com a serenidade de um anjo repousando sobre uma nuvem. 

Pela manhã, Rangel resmungava contra o engarrafamento no qual se encontrava, quando recebeu um alerta no seu celular. Era uma mensagem de Alice sobre a mulher encontrada morta no motel. Ela informava que os órgãos internos haviam secado, assim como todo o corpo, que parecia estar entrando em um processo natural de mumificação. Depois de momentos de prazer, morrer assim, de uma maneira tão macabra ─ pensou enquanto guardava o celular no bolso e concentrava sua atenção no caso, esquecendo-se do engarrafamento. ─ Pegou um pequeno bloco onde anotou em uma sequencia, a palavra "mumificação", um novo assunto sobre o qual precisaria pesquisar e que tornava o caso ainda mais interessante. Isso está parecendo magia negra, algum tipo de sacrifício humano. ─ pensou enquanto mudava a marcha e acelerava o carro.

Após cortar em vários pedaços os cartões bancários e documentos que havia subtraído de sua vítima, o homem pacientemente jogava-os um a um na fogueira improvisada dentro de um balde de alumínio. Não sabia como, mas ao tocar nos cartões tomara consciência das senhas de cada um e, ao experimentá-las em um caixa eletrônico, vibrou ao ver cada uma ser aceita e o dinheiro ser liberado. Em poucos minutos tinha em mãos uma quantia em dinheiro a qual nunca imaginara conseguir de maneira tão fácil, tudo isso sem contar o dinheiro da venda do carro que ela havia deixado no estacionamento, para um desmanche de automóveis. Os jornais não haviam dado muito destaque ao crime do motel, mas precavido, ele queimava tudo que pudesse relacioná-lo. Não sentia nenhum remorso pelo ato praticado, somente uma enorme expectativa pela próxima experiência. Conectado à internet, começou a analisar em uma rede social, perfis de mulheres que poderiam além de prazer, proporcionar alguns saques generosos. Precisava saber se as sensações se repetiriam e, se realmente havia adquirido habilidades mais que especiais. Selecionados alguns perfis, pôs-se a escolher no recém reformulado guarda-roupas um traje que causasse impacto e o deixasse com a elegância e glamour dos agentes secretos do cinema. Colocou o traje escolhido diante do corpo e ficou satisfeito com sua imagem, agora um pouco menos embaçada, refletida no espelho. As ovelhas que se cuidem, porque essa noite, o bicho tá solto. ─ pensou sorrindo para si mesmo.

Ao longo dos séculos, o espelho tem exercido um fascínio especial sobre homens de todas as raças e credos. O culto ao belo, a tentativa de preservação da juventude e o desejo de imortalidade sempre refletiram-se em espelhos. Com lobos e vampiros não era diferente. Criaturas que buscam incessantemente beleza, imortalidade e poder, tinham como principal característica o narcisismo e consequentemente um grande prazer em admirar suas próprias imagens. A crença de que um vampiro não reflete sua imagem em espelhos, não passa de lenda. Não é tão fácil assim identificar um ser tão poderoso, simplesmente pela falta de reflexo em um espelho.

A jovem mulher também diante de um espelho preparava-se para sair. Seu corpo perfeito parecia ter sido talhado por um escultor divinamente inspirado. Os cabelos lisos, longos e pretos, os olhos com a cor e o brilho da lascívia, os lábios desenhados e cobertos por uma apetitosa polpa vermelha, e o sorriso malicioso e debochado, completavam a escultura humana. O andar firme, ereto, feminino. As roupas cuidadosamente escolhidas deixavam à mostra somente o que poderia ser visto, ficando o restante por conta da imaginação de cada observador. Um saboroso deleite e ao mesmo tempo uma dolorosa, mas também, desejável tortura. A própria Vênus deveria invejá-la e ter momentos de descontentamento e fúria ao vislumbrar tamanha beleza. Gata, leoa, pantera, não importava como a chamariam os homens. Seu instinto felino estava aguçado, suas garras afiadas, seu cio insaciável. A noite prometia...

                                                       Autor: Cicero Fernando Coutinho

Um comentário:

  1. É bem diferente e provocante,mas provocante no sentido mental:Provoca pensamentos que levam a outros que não chegam a conclusões corretas.
    Quero o III!
    Atenciosamente,
    Julia Pereira Silva de Oliveira.

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