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PULP
CHARLES BUKOWSKI

terça-feira, 31 de agosto de 2010


O FOGO DA LOUCURA

Sentada no meio-fio, a mulher observa o fogo consumir o entulho e o lixo.
Ela não sabe como o fogo começou, sabe apenas que ele consome e fascina.
Sentada no meio-fio, ela, já acostumada, observa a passagem das pessoas que nem sequer a notam.
Mas, naquele dia, havia o fogo.
As pessoas olhavam para o fogo, mas continuavam a ignorá-la, talvez por sentirem-se agredidas por sua presença.
Enquanto olhava para o fogo que crescia, a mulher percebeu que o entulho desaparecia e dava lugar a chamas cada vez maiores.
O entulho, o lixo, o feio desaparecia e dava lugar ao calor, a dança frenética e a luz fascinante das chamas.
Em um momento de lucidez, comparou sua vida ao entulho, o fogo à libertação e teve consciência de que vivia na linha divisória entre sanidade e loucura.
Com a consciência, veio a vontade de mudança, de ver a miséria, o desprezo e a humilhação serem consumidos, e uma nova vida surgir com a força e a beleza das chamas.
Sentada no meio-fio, ela revezava o olhar entre o mundo sem perspectivas em que vivera até agora, e o fogo, cujo calor aquecia seu corpo, causando uma sensação de proteção.
Levantou-se com um ar sereno e decidido, e atirou-se às chamas sem dizer uma palavra sequer.
Seu corpo incendiou-se, aumentando o frenesi das chamas.
As pessoas que passavam, tentavam em vão retirá-la, mas em meio às chamas ela parecia sorrir, enquanto seu corpo era consumido.
E de alguma forma, sem pronunciar uma única palavra, apenas com um leve sorriso, ela fez com que todos que assistiam, compreendessem, que naquele momento, ela não morreu.
Renasceu...
        
                                                                    Autor: Cicero Fernando Coutinho

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