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CHARLES BUKOWSKI

quarta-feira, 25 de agosto de 2010




EM MEIO À MULTIDÃO

 O homem acordou, vestiu-se e saiu, como sempre fazia todas as manhãs. Impecavelmente pontual, ele entrou no metrô e dirigiu-se ao centro da cidade. Adorava o centro da cidade, sempre movimentado, com pessoas de todos os tipos a caminhar apressadamente em todas as direções. E ele, diariamente, estava ali, fazendo parte de toda aquela agitação, caminhando, apenas caminhando. Seguia a multidão pelas ruas do centro da cidade sem rumo nem destino. Apenas caminhava e observava tudo e todos como se procurasse algo que, nem mesmo ele, era capaz de dizer do que se tratava. E assim, ele fazia todos os dias e, só voltava para casa à noite, cansado de mais um dia estafante. Depois do banho, ligava a televisão e assistia ao noticiário - pois precisava saber o que de importante acontecera na cidade, na sua cidade - enquanto jantava um sanduíche de pão com mortadela. Já deitado, fazia uma retrospectiva das atividades diárias, relembrando as vitrines repletas de produtos e promoções, os shows dos ambulantes, os sons dos motores e das buzinas dos carros e adormecia tranqüilo.
No dia seguinte, lá estava ele, novamente, em meio à multidão que invadia o centro da cidade. Tinha o hábito de, cada dia tomar um itinerário diferente, evitando assim a repetição dos locais visitados. Resolveu entrar em uma grande livraria, dessas que oferecem locais para que as pessoas sentem e leiam, ficando ali praticamente toda a manhã. Depois, saiu pelas ruas novamente, acompanhando a multidão. Caminhava tranqüilo quando, ao olhar para o lado, teve a impressão de estar sendo observado. Olhou mais uma vez e surpreendeu-se quando viu uma mulher que olhava para ele, sorrir. Sentiu-se incomodado. Caminhava todos os dias pelas ruas do centro, mas nunca havia falado com ninguém, nada além do estritamente necessário. Nunca havia abordado ninguém e nunca havia recebido um sorriso assim, sem nenhum motivo. Apertou o passo, e reparou que a mulher continuava a acompanhá-lo; e a cada vez que olhava para trás, lá estava ela, sorrindo. Começou a andar em ziguezague na tentativa de despistá-la, mas ela também costurava a multidão e continuava a segui-lo com um sorriso de quem havia descoberto um segredo, um sorriso que invadia sua privacidade. Decidiu atravessar a avenida repentinamente e fazer o caminho de volta na outra calçada. Ao aproximar –se do meio-fio, olhou mais uma vez para trás e viu o sorriso da mulher transformar-se em uma expressão de desespero, mas não deu importância e continuou andando rápido e, ao dar dois passos para fora da calçada, não percebeu o ônibus que vinha em sua direção.
O choque foi violento. Caído no chão, o homem agora só podia ver os altos prédios. Aos poucos, começou a perceber várias pessoas a sua volta. Sentiu sob sua mão um líquido viscoso escorrer. Olhava para as pessoas a sua volta sem entender o que se passava. De repente, em meio às pessoas, reconheceu o rosto da mulher que o seguia. Ela não sorria mais, pelo contrário, tinha uma expressão de tristeza.
Ele olhou para o azul do céu e, lá em cima, viu uma linda cidade com ruas ensolaradas e uma multidão a caminhar. Viu também algumas pessoas voando em direção à cidade ensolarada; fechou, então, os olhos e, feliz, voou para lá.
Os bombeiros colocaram o corpo dentro da ambulância e a multidão começou a se dispersar.
Parada na beira da calçada, a mulher acompanhou a ambulância até que esta desaparecesse em meio ao trânsito.
Então, voltou a caminhar pelas ruas da cidade, como todos os dias ela fazia. Não era ele a alma gêmea, que algum dia, ela, certamente encontraria.


                                                                                    Autor: Cicero Coutinho

2 comentários:

  1. Muito legal.Será que um dia ela vai encontrar quem procura?

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  2. O cotidiano é assim, repleto de encontros e desencontros. Quantas veezes achamos que encontramos nossas almas gêmeas e o destino reverte o rumo dos acontecimentos.

    Ótimo conto.

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