Vale a pena ler:
PULP
CHARLES BUKOWSKI

domingo, 22 de agosto de 2010


A CRUZ E A ESPADA

Vanessa tinha apenas vinte anos quando se casou com Paulo, dez anos mais velho.
Os quatro primeiros anos foram de lua-de-mel, até Vanessa descobrir que Paulo era um assíduo freqüentador de bordéis. Começaram, então, as ofensas, as brigas e, por fim, a dolorosa, mas, inevitável, separação.


Cada um para o seu lado, Vanessa decidiu assumir sua própria vida, até então, posta em segundo plano em função do casamento. Passou a dedicar-se mais ao trabalho, fez cursos de qualificação profissional e, finalmente, conseguiu o reconhecimento ao ser promovida.
Tudo parecia perfeito: Trabalho, amigos, independência.
Mas um dia, recebe a notícia da internação, às pressas, de Paulo. Já haviam se passado oito meses desde a separação, mas, mesmo assim, Vanessa sentiu-se um pouco abalada. Seis dias após, Paulo faleceu. No hospital, Vanessa fica sabendo a causa mortis: aids. Paulo havia escondido de todos, o seu grave estado de saúde, além de não ter se submetido a nenhum tipo de tratamento.


Uma semana depois, o choque havia se transformado em medo. Vanessa sofria só de pensar na possibilidade de ter contraído o vírus com Paulo, mas sabia, perfeitamente, que a dúvida seria uma tortura e resolveu, finalmente, fazer um teste de HIV.


O envelope com o resultado do teste, ficou guardado por dois dias. Depois de um bom banho, Vanessa sentou-se na cama e abriu o envelope, pedindo a DEUS que a ajudasse.
Naquele instante, o mundo girou mais rápido para Vanessa, e ela pôde visualizar toda a sua vida. Passado, presente e... futuro?
Não haveria futuro, pois o resultado acusava: HIV positivo.


Vanessa amanheceu sentada na mesma posição, não havia tido coragem sequer de se mexer. Só conseguia chorar. Pensava como seria sua vida, se é que se pode chamar de vida, o que estava por vir. Como contar para os familiares e amigos?
Antes de contar, achou melhor procurar um médico e iniciar um tratamento, o mais rápido possível. Já tinha ouvido falar de novos medicamentos que praticamente curavam os portadores do vírus, aumentando bastante suas expectativas de vida.
Não podia deixar o desespero tomar conta da situação, tinha que tentar tudo, tudo mesmo que acenasse com uma possibilidade de inibir o progresso da doença.


Já passava do meio-dia, quando Vanessa, finalmente, adormeceu. Adormeceu e sonhou que estava no topo de uma montanha, e que se atirava de lá em queda livre, mas antes de atingir o solo, ela simplesmente olhou para cima e, começou a voar.


Acordou, tarde da noite, com o clarão do monitor do seu PC iluminando todo o quarto. Não se recordava de ter ligado o computador, mas na tela aparecia uma sala de chat onde um participante que se apresentava como Caliel, deixara uma mensagem: "Oi, quando quiser conversar, estarei aqui. Basta você começar. Que tal deixar todos os problemas para trás e voarmos um pouco?"
Desconfiada, Vanessa respondeu assim mesmo. Teclaram por um bom tempo e ela percebeu que Caliel não era como os outros participantes das salas de bate-papo. Geralmente, a maioria deles, só se interessa por sexo ou infantilidades, e era muito difícil encontrar alguém que soubesse manter uma conversa interessante. Mas Caliel sabia conversar e, principalmente, "ouvir". Depois de teclar com Caliel, Vanessa sentiu-se mais tranqüila, deitou-se e dormiu.


De volta ao trabalho, foi conversar com Isabel, sua supervisora, decidida a contar sobre sua condição de soro-positivo. Conseguiu apenas chorar e colocar o resultado do teste sobre a mesa de Isabel, que após ler ficou em silêncio, olhando para o papel em suas mãos.
Isabel não sabia como agir. Sentiu-se mal por ter de admitir para si mesma, que naquele momento pensara somente em como a doença de Vanessa afetaria a todos, e só conseguiu falar as frases feitas que todo mundo sempre repete:


  • Sinto muito. Sinceramente, não sei o que dizer. Vou conversar com a Diretoria e ver como a empresa pode ajudá-la.




Duas horas depois, Isabel chamou Vanessa até sua sala:



  • Vanessa, você vai passar por uma fase bastante difícil em sua vida, mas precisa encontrar forças, não deve de maneira nenhuma se entregar. Você vai precisar fazer exames, tratamentos e vai ser preciso tempo para fazer tudo isso. Por isso, a Diretoria resolveu antecipar suas férias. Não estamos afastando você. Estamos antecipando suas férias para que você possa iniciar seu
    tratamento de forma adequada. Depois, você retorna normalmente.
Vanessa saiu dali, arrasada. Não pretendia tirar férias em um momento tão ruim, não queria isolar-se, mas, concordava que precisaria de tempo para compreender e adaptar-se à sua nova realidade. Só não entendia porquê tinha vontade de conversar com Caliel, não sabia sequer seu verdadeiro nome, quem era ou onde morava. Mas ansiava voltar para casa e procurá-lo nas salas da web.


Entrou em casa e foi direto para o quarto, onde ficava o computador. Começou, então, a procurar Caliel pelas salas de bate-papo. Utilizou a busca, mas não obteve êxito. Lembrou-se, então, das palavras de Caliel: "Basta você começar."
Começou, então, a teclar: "Caliel preciso conversar com você."
Ficou surpresa ao ver surgir na tela uma resposta: "Fico feliz que tenha lembrado de mim. Não poderia ajudá-la se não lembrasse de mim."


Conversaram muito, e Caliel parecia saber cada palavra que Vanessa queria ouvir. Ela não sabia como, mas sentia-se mais calma e confiante, enquanto teclava com Caliel. Decidiu então contar sobre sua doença, e sentiu-se ainda mais aliviada em poder desabafar com alguém.
Depois do desabafo de Vanessa, Caliel respondeu: "Agora sim, posso ajudá-la. Não posso curá-la, mas posso te oferecer duas alternativas. Preste atenção, depois reflita, pois a decisão será muito difícil.
Você terá que escolher entre viver mais dois anos, sendo que, nestes dois anos, a doença evoluirá. Você se sentirá cada vez mais debilitada e dependente de medicamentos e da solidariedade alheia. Vai se emocionar, se decepcionar. Vai ver muitos se afastarem e poucos te estenderem a mão. E, ao final dos dois anos, adormecerá sobre uma cama e não mais acordará.
Ou viver mais dois meses apenas, mas nestes dois meses você irá sentir-se bem, não haverá sintoma algum da doença e, além disso, você terá o dom de voar. Poderá voar para onde quiser, conhecerá novos lugares, novas pessoas e, ao final dos dois meses, poderá voar para uma geleira, uma floresta, um deserto, uma planície ou o cume de uma montanha, onde você adormecerá e, não mais acordará."




Após ler, Vanessa adormeceu, mas também em seu sonho, a escolha se fazia presente. Quando acordou, o quarto estava totalmente iluminado por uma luz azul que saía diretamente do monitor. No meio do azul da tela, havia um círculo branco e dentro do círculo as palavras: ANOS / MESES ---- Selecione sua opção...



                                                                              Autor: Cicero Coutinho

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